Por: Márcia Silveira
Existe uma contradição evidente em muitas empresas. Afirmam buscar profissionais com alta adaptabilidade, inteligência emocional, gestão de crise, autonomia, organização e tomada de decisão. No entanto, raramente reconhecem que essas competências são intensamente desenvolvidas na experiência da maternidade — especialmente entre mães solo, atípicas e mulheres que concentram múltiplas responsabilidades.
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Quando essas habilidades são adquiridas fora dos ambientes corporativos tradicionais, raramente são reconhecidas como competências estratégicas. Deixam de ser diferencial e passam a ser obrigação implícita. Falar sobre isso é uma questão de inteligência empresarial.
A discussão sobre maternidade e carreira ainda é, em grande parte, conduzida sob uma lógica de conciliação. Entretanto, isso parte de um pressuposto de que as estruturas já estão adequadas e que cabe às mulheres apenas equilibrar. Creio que o ponto central não seja este, mas sim: por que insistimos em um modelo que não contempla a realidade de quem sustenta múltiplas jornadas?
O mercado de trabalho foi estruturado por uma lógica linear de disponibilidade, previsibilidade e dedicação contínua. Na maternidade solo, a situação se agrava. Ela não representa apenas a ausência de um parceiro na criação dos filhos…Implica centralizar responsabilidades financeiras, emocionais, operacionais e decisórias.
Outro ponto é a tendência de associar rede de apoio exclusivamente à família. A carreira e o financeiro organizados também viabilizam acesso a profissionais qualificados, suporte técnico e soluções que ampliam a segurança e o bem-estar da criança. Uma rede de apoio mais estável e imune às instabilidades que por vezes assolam as relações.
Nos últimos anos, vimos avanços na discussão sobre maternidade e carreira, mas essas iniciativas ainda são pontuais frente à complexidade do desafio. Além disso, é essencial desenvolver líderes capazes de aprimorarem o reconhecimento de competências, realidades diversas e de superarem a premissa de que todos partem de condições iguais.
Enquanto essa transformação não ocorre, o mercado perde talentos no pós-maternidade ou deixa as mães longe do potencial de contribuição empresarial que poderiam gerar. A reflexão hoje é: precisamos com urgência investir em caminhos práticos como a flexibilização das formas de trabalho, o diálogo integrado com as redes de apoio e o alinhamento de execução das atividades em cada fase.
Empresas que compreenderem a maternidade como potência de liderança, e não como limitação operacional, estarão mais preparadas para reter talentos, ampliar inovação e construir culturas verdadeiramente sustentáveis.
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