A turnê estreia neste sábado (18) na Casa Natura Musical, em São Paulo, celebrando os 25 anos de carreira da artista e os 13 anos do disco de estreia.
Karol Conká sobe ao palco da Casa Natura Musical, em São Paulo, neste sábado (18), para a estreia da turnê que leva de volta aos palcos o álbum “Batuk Freak”. A apresentação marca o início de uma série de shows que celebra os 25 anos de carreira da artista e revisita o disco que, lançado gratuitamente em abril de 2013 pela revista Vice e depois pela Deckdisc, ajudou a consolidar uma linguagem musical que hoje é comum na produção nacional, mas que na época soava como uma aposta arriscada. Depois de São Paulo, a turnê segue para Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Florianópolis, com novas datas anunciadas ao longo do ano.
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Em entrevista ao Mundo Negro, Karol Conká falou sobre o significado de revisitar esse repertório, as referências que sustentaram sua construção e o lugar que ocupa hoje como uma das principais nomes do rap e do funk brasileiros.
Uma estreia que virou divisor de águas
Produzido por Nave Beats entre 2009 e 2013, “Batuk Freak” reuniu rap, funk, afrobeat e sonoridades eletrônicas em uma linguagem que, à época, não tinha paralelo direto na cena nacional. O single “Boa Noite” abriu caminho para a indicação de Karol Conká na categoria Aposta do MTV Video Music Brasil, em 2011, ainda antes do lançamento oficial do álbum. Faixas como “Corre, Corre Erê”, “Gandaia” e “Gueto ao Luxo” somaram, à época, mais de um milhão e meio de visualizações no YouTube e projetaram a curitibana para além do circuito underground em que havia começado a carreira, no início dos anos 2000.
Passados treze anos, Karol Conká reconhece que a dimensão que o disco alcançaria não era clara enquanto o trabalho estava sendo construído. “Olhando hoje para a Karol daquela época, eu vejo que eu tinha muita garra, ainda tenho, essa disposição para viver intensamente a vida e cada desafio que aparece na frente. Eu tinha conhecimento que o álbum era um divisor de águas, uma coisa disruptiva no meio do rap, mas eu não fazia ideia que ele ia se tornar um marco assim para as gerações”, contou a artista, em entrevista ao Mundo Negro.
As raízes de um som vanguardista
A mistura de referências que caracteriza “Batuk Freak” nasceu do encontro entre a trajetória de Karol Conká e a produção de Nave Beats, responsável também por trabalhos de nomes como Emicida e Marcelo D2. Segundo a artista, o processo de composição foi também um processo de amadurecimento profissional. “Esse repertório todo é graças a vivências, experiências e conexões. Esse álbum foi produzido pelo Nave, então ele traz muito dessa brasilidade e dessa veia artística. Devo muito também à produção dele, que me ajudou a me conhecer como artista e entender quais seriam os novos passos. Foi um álbum que me despertou para o mundo artístico mais administrativo, vamos dizer assim. Até então eu fazia música me divertindo, e o Batuk Freak me cravou o pé, me assentou como artista. Eu sabia que a partir dali eu ia viver da minha arte para sempre”, afirmou Karol Conká.
Questionada sobre as influências que alimentaram a construção do disco, a cantora citou um repertório amplo, que atravessa gerações e gêneros da música negra brasileira e internacional. “As minhas influências na época, e até hoje reverberam dentro de mim, são Lauryn Hill, Nação Zumbi, Timbalada, Zeca Pagodinho, Negra Li, Dina Di, Negralli. Essas foram as fontes em que eu me vitaminei para florescer o meu dom”, disse a artista, que define sua identidade sonora como uma miscelânea deliberada de temas, melodias e eras.
Críticas publicadas à época do lançamento já apontavam essa característica como um dos pilares do trabalho. A produção foi descrita como um catálogo de ideias que dialogava com nomes internacionais como Santigold e M.I.A., sem abrir mão de referências da produção brasileira, casando os tambores tribais de “Corre, Corre Erê” com o cover de “Caxambu”, do sambista Almir Guineto, e contando ainda com participações de Rincon Sapiência e Tuty.
Uma luta que se repete
Karol Conká é apontada hoje como uma das artistas que abriram caminho para uma geração de mulheres que hoje ocupam espaço central no rap e no funk brasileiros. Ainda assim, o debate sobre a necessidade de dar visibilidade a essas artistas continua presente na cena, mesmo duas décadas e meia depois do início da carreira da cantora. Perguntada sobre por que esse espaço ainda exige tanta disputa, Karol Conká reconheceu o incômodo da repetição, mas fez questão de marcar uma mudança concreta em relação ao passado.
“É complicado quando a gente percebe que bate numa mesma tecla e, anos depois, tem que continuar batendo naquela mesma tecla. É um sinal de que muita coisa não andou para frente. Mas no caso do rap nacional, uma tecla a gente não precisa mais bater, que é achar que não tem mulheres no rap. A verdade é que sempre teve mulheres no rap, só não tinha espaço, elas não tinham visibilidade e não tinham tanto apoio como hoje tem. Ainda vivemos uma escassez, mas existe apoio, muito vindo das próprias mulheres para fazer acontecer”, declarou a artista, em entrevista ao Mundo Negro.
A cantora também citou a geração de rappers que despontou no final dos anos 1980 como parte de uma linhagem que antecedeu sua própria trajetória e que, segundo ela, corre o risco de ser apagada da memória da cena. “É um caminho que foi um passo dado por mulheres na década de 80, artistas do rap que hoje não teriam tanta visibilidade, mas que nunca vão ser esquecidas. Acho muito bacana esse movimento que está sendo feito e a gente entender que hoje só precisamos de nós”, afirmou.
Uma postura antes do discurso pronto
Para além da sonoridade, “Batuk Freak” é lembrado por ter colocado em primeiro plano uma estética e uma postura associadas à cultura negra em um momento no qual esse debate ainda não fazia parte da conversa pública brasileira do jeito que faz hoje. Questionada sobre o que significa subir ao palco novamente com esse repertório, agora diante de um público que reconhece essa construção com outro vocabulário, Karol Conká descreveu a sensação como gratidão.
“É muito bom, é gratificante demais ver que as minhas ideias, as minhas percepções através da música, despertaram também o interesse de outras pessoas de se permitirem ser e estar onde elas quiserem. Fico muito lisonjeada quando reconhecem toda a minha trajetória e todo o esforço que eu tive e tenho pela cultura, pela música, pela arte. Eu sou uma artista plural e me proponho a fazer tudo da melhor forma que eu posso. É muito bacana quando eu recebo carinho, reconhecimento. Eu fico feliz”, disse a cantora.
Nostalgia e estreia no mesmo palco
Sobre a apresentação de estreia, marcada para este sábado na Casa Natura Musical, Karol Conká adiantou que o espetáculo foi pensado como um encontro entre gerações de público, entre quem acompanhou o disco em 2013 e quem chega até ele agora. “As pessoas podem esperar um momento muito gostoso e nostálgico, onde eu vou convidar o público para revisitar as suas fontes de fortaleza, onde as pessoas vão relembrar o momento em que conheceram o Batuk Freak. E para a galera da nova geração que não viveu aquela época lá atrás, também está convidada a viver essa nova era. O Batuk Freak é um álbum atemporal, ele sempre vai falar com várias gerações, e isso é muito legal”, concluiu a artista.
Depois da estreia em São Paulo, a turnê segue para A Autêntica, em Belo Horizonte, no dia 14 de agosto, Tork N’Roll, em Curitiba, no dia 18 de setembro, Opinião, em Porto Alegre, no dia 19 de setembro, e Deraiz, em Florianópolis, no dia 26 de setembro. Novas datas devem ser anunciadas nas próximas semanas.
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