Aliko Dangote colocou ações de sua megarefinaria à venda por cerca de US$ 0,40 e pretende atrair até 10 milhões de investidores individuais; iniciativa enfrenta baixa renda e falta de conhecimento sobre o mercado financeiro
O empresário nigeriano Aliko Dangote, considerado o homem mais rico da África, quer transformar a abertura de capital de sua refinaria de petróleo em uma porta de entrada para milhões de pessoas no mercado de ações, de acordo com o Financial Times. Com investimento mínimo equivalente a cerca de US$ 4, a oferta pública inicial (IPO) da Dangote Petroleum Refinery pretende levantar US$ 1,6 bilhão.
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O próprio empresário batizou a operação de “IPO do povo”. A estratégia é disponibilizar as ações a um preço considerado acessível e utilizar corretoras digitais para alcançar investidores que nunca participaram do mercado financeiro.
Cada ação da refinaria custa 525 nairas, aproximadamente US$ 0,40, e o lote mínimo é de dez ações. A oferta foi aberta em 14 de setembro e ficará disponível até 13 de outubro. A previsão é que os papéis comecem a ser negociados na Bolsa da Nigéria, a NGX, em meados de novembro.
A meta de Dangote é ambiciosa: atrair cerca de 10 milhões de investidores individuais durante o período da oferta.
De consumidor a acionista
A possibilidade de investir em uma das maiores empresas do país já desperta interesse entre alguns nigerianos. Segundo o Financial Times, Chukwuka Kosisochukwu, dono de uma loja de ferragens nos arredores de Lagos, vinha estudando o mercado de ações havia meses quando descobriu que a refinaria localizada próxima de seu comércio também entraria na Bolsa.
Ele se cadastrou em uma corretora digital para participar da oferta. Para Kosisochukwu, investir em uma ação da Dangote é mais interessante do que gastar o mesmo valor em uma bebida.
A aposta também chamou a atenção de pessoas que vivem longe dos grandes centros financeiros. Abdulkadir Abdulkadir, planejador agrícola no norte da Nigéria, considera comprar entre 100 e 200 ações. Segundo ele, o preço de entrada cria uma possibilidade que antes parecia restrita a pessoas de maior renda.
Outro exemplo é o professor de matemática Muzakallah Muzammil, que baixou o aplicativo da Bamboo, uma corretora digital, com a intenção de adquirir cerca de 100 ações. Ele afirmou que o IPO despertou seu interesse pelo mercado e que outras empresas nas quais confie poderiam levá-lo a construir uma carteira de investimentos.
A Bamboo estima receber pelo menos 1 milhão de novos cadastros de pessoas interessadas na oferta. O número, porém, representa registros na plataforma e não necessariamente compradores efetivos de ações.
Refinaria pode chegar a US$ 49 bilhões
A oferta prevê a captação de US$ 1,6 bilhão, valor que pode levar a avaliação da refinaria para aproximadamente US$ 49 bilhões. O montante é mais que o dobro dos cerca de US$ 20 bilhões gastos para construir o complexo.
A refinaria tem capacidade para processar 700 mil barris de petróleo por dia e começou a operar em 2024. O empreendimento alterou a posição da Nigéria no mercado de combustíveis: embora o país seja um grande produtor de petróleo, durante anos precisou importar.
Com a expansão da refinaria, a Nigéria passou a ampliar sua participação nas exportações de produtos como diesel e combustível de aviação.
Agora, a companhia pretende utilizar os recursos do IPO para financiar uma nova etapa de expansão. O plano é dobrar a capacidade de processamento para 1,4 milhão de barris por dia até 2028.
Antes da oferta pública, a empresa já havia realizado uma colocação privada que levantou US$ 2,5 bilhões por uma participação de aproximadamente 6%, em uma operação que teve demanda superior à oferta.
A distância entre o IPO e a população
Apesar do potencial de levar novos investidores à Bolsa, a oferta enfrenta um problema estrutural: parte da população nigeriana sequer sabe que ela existe, e outra parcela não possui renda disponível para investir.
O Financial Times conversou com cerca de 20 pessoas em áreas de menor renda de Lagos e nas proximidades da refinaria. Poucas tinham conhecimento sobre o IPO.
Entre caminhoneiros que aguardavam para retirar diesel no complexo, nenhum dos entrevistados sabia da venda de ações. Um deles, Joshua Alabi, chegou a perguntar ao jornal se era o próprio repórter quem estava vendendo os papéis. Ele precisou pedir ao irmão uma explicação sobre o significado de uma ação.
A falta de divulgação também é um fator. Em junho, a Comissão de Valores Mobiliários da Nigéria impôs restrições rigorosas à publicidade do IPO, limitando a exposição da oferta. Com isso, parte da divulgação ficou concentrada entre jovens que acompanham discussões sobre investimentos nas redes sociais.
Para o vendedor de granito Abdullahi Umari, não basta colocar as ações à venda: é necessário explicar à população como a operação funciona. Ele defendeu que a empresa vá até comunidades e apresente a proposta de maneira acessível.
“Não tenho dinheiro”
Mesmo para quem conhece a oferta e gostaria de participar, o baixo preço das ações não elimina a principal barreira: a falta de recursos.
O soldador Alimi Oluwafemi afirmou que compraria ações da refinaria caso tivesse dinheiro. A prioridade, naquele momento, porém, era outra: ele disse estar sem recursos até para comprar comida.
O cenário ajuda a dimensionar o desafio da proposta de Dangote. O preço mínimo de aproximadamente US$ 4 torna a entrada na Bolsa tecnicamente possível para um número maior de pessoas, mas não significa que milhões de nigerianos tenham dinheiro disponível para investir.
A situação é particularmente relevante em um país onde, segundo o Banco Mundial, quase 40% dos adultos não possuem conta bancária.
Ainda assim, o IPO representa uma tentativa de ampliar a participação da população no mercado de capitais e de aproximar pequenos investidores de uma das maiores companhias do continente.
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