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A histórica Geni de Valéria Barcellos; como a escalação da atriz trans e negra amplia a História do maior musical brasileiro

Geni

Foto: Divulgação/Priscila Prade

Por: Luh Maza

Esta coluna tem como eixo principal a curadoria. Escolha a recomendação cuidadosa de obras e artistas a conhecer e seguir. Então, aqui vai uma indicação imperdível para todos que estiverem no Rio de Janeiro: a remontagem do maior musical brasileiro: Ópera do Malandro, em uma encenação autoral do diretor Jorge Farjalla (Clara Nunes – A Tal Guerreira; Brilho Eterno) com Valéria Barcellos (Titaníque; A Palavra Que Resta) brilhando no elenco como Geni. 

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Foto: Divulgação/Priscila Prade

Sobre a Ópera

Chico Buarque escreveu o musical em 1978, encerrando um ciclo precedido por outras joias como Gota d’Água, Roda Viva e Calabar. Ele se inspirou na Ópera dos Mendigos de John Gay, mas, principalmente, em A Ópera dos Três Vinténs de Bertold Brecht, misturando a sátira política alemã dos anos 1920 ao Brasil corrupto e melodramático, com o Rio de 1940 de pano de fundo, com malandros-heróis e prostitutas como mocinhas. 

A montagem original, dirigida por Luís Antônio Martinez Corrêa, trazia a então companheira de Chico, Marieta Severo, como Teresinha, e uma exuberante Elba Ramalho, como Lúcia, as duas responsáveis pela primeira versão de uma das canções que transcenderam da dramaturgia à música popular brasileira: “O Meu Amor”. Uma, herdeira de um bordel, outra, profissional do sexo. O amor? O contraventor Max Overseas (Otávio Augusto) – herói dessa tragicomédia. 

Geni, a pioneira

Entre tantas audácias para o Brasil sob a Ditadura Militar, Chico guardava uma surpresa que só seria revelada na estreia: a travesti Geni – personagem com nome feminino para uma voz tida como “masculina”. Mais: memórias de Madame Satã (1900–1976) também inspiraram Chico, o que nos ajuda a compreender a personagem como travesti, à luz da iconografia da época. 

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Geni não é uma personagem pequena; ela é amiga do “mocinho” e convive com o “vilão”, tendo função dramática fundamental para a resolução da trama principal. Mais: Geni tem um momento só seu, um à parte de toda estrutura da história de amor protagonista, para narrar seu passado: “Geni e o Zepelim”, outra música que atravessou o teatro para gravações da MPB.

O refrão, “joga pedra na Geni”, sintetiza a voz da sociedade moralista e hipócrita que hostiliza a personagem até ser ameaçada pelo comandante de um zepelim que escolhe justamente Geni. Ela se torna a salvação de todos, mas depois da partida do veículo prateado, volta a ser violentada, apedrejada. Uma analogia sobre como boa parte do mundo ainda trata pessoas à margem de uma dita “normatividade”. Uma das primeiras representações trans na dramaturgia brasileira, Geni ainda hoje é poderosa e muito necessária. 

O anúncio de uma nova montagem do clássico, dessa vez pelas mãos de Jorge Farjalla, despertou frisson com a pergunta “Quem será Geni?”. Sabendo do bom senso dos envolvidos, pela primeira vez, não veríamos um “transfake” (quando um ator cisgnênero interpreta uma personagem trans). E de fato, é impressionante e emocionante a generosa quantidade de excelentes atrizes e cantoras trans no Brasil hoje, aumentando a dúvida.

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O encontro de Valéria

Segundo a atriz e cantora gaúcha Valéria Barcellos, ela própria procurou o diretor se apresentando como alguém que se preparou durante toda vida para viver a personagem. O movimento assertivo é digno de uma Geni! Mas acho que esse encontro já estava predestinado: na internet, há uma emocionante gravação ao vivo, de 2022, mostra Valéria, acompanhada pelo violão de Rafael Erê, construindo toda história de Geni só com sua voz teatral e suas emoções mais sinceras. 

Anos depois, no palco, Valéria é senhora como Geni. Confortável, flui com graça pelo texto e joga de igual para igual com os parceiros de cena como Totia Meireles e José Loreto (Vitória Régia e Max). Valéria tem frescor próprio em uma encenação de tons circenses. É aquela que deixa entrever a melancolia do palhaço. Uma atuação e voz maduras que a posicionam como uma das grandes atrizes dos musicais brasileiros. Na bem sucedida encenação de Farjalla – que mescla elementos da farsa e da religiosidade afro -, Valéria Barcellos é o maior destaque. 

Fotos: Divulgação/Gattu Filmes

Uma Geni histórica

E o diretor demonstra consciência política de seu tempo, dando uma dimensão ainda maior a presença de Geni, tornando seu número o ponto mais alto da jornada do espetáculo. Se, em diferentes momentos, Farjalla baseia sua estrutura num número de canção em paralelo à representação cênica do que é cantado, em “Geni e o Zepelim” essa linguagem alcança a apoteose. 

Valéria surge altiva e vulnerável com uma qualidade vocal irrepreensível. O excelente arranjo de Gui Leal segue o original, mas o adapta com precisão à voz de Valéria, mantendo a clareza na comunicação de cada palavra – algo fundamental para o teatro musical. Também é belo o trabalho com a percussão mais ao final e o coro a capella. “Geni e o Zepelim”, com uma rasgante Valéria Barcellos, merece uma gravação – na verdade toda esta Ópera do Malandro. 

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Chegando mesmo a tremular a bandeira trans em cena como ao fim de uma guerra, a cena causa tamanha catarse que, no dia que assisti, algumas pessoas – eu me incluo – aplaudiram de pé o número protagonizado por Valéria e seu duplo, a Geni jovem que representa a canção com a trupe, Marina Mathey. Aqui também é preciso destacá-la: sua máscara facial e partitura física expressam toda ingenuidade, medo, dor e resignação. Marina também é a eventual substituta de Valéria como Geni e tem um humor cheio de picardia em sua cena como Dorinha Tubão. 

Fotos: Divulgação/Gattu Filmes

Mais por aí

Outra presença recentes da personagem foi na Mini Ball da Geni (dirigida por esta autora) onde, interpretada Olívia Lopes, Geni se tornou Mestre de Cerimônias de um concurso da cultura Ballroom na Biblioteca Mário de Andrade e no CPT – Centro de Pesquisa Teatral do Sesc, em São Paulo. E vem mais por aí: o aguardado filme Geni e o Zepelim (dirigido por Anna Muylaert), após polêmicas, traz a atriz trans e negra Ayla Gabriela como Geni, ao lado do Comandante, vivido por Seu Jorge. 

Serviço 

Ópera do Malandro

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Quinta, Sexta e Sábado às 20h00, Sábado às 16h00, Domingo às 15h30 e 19h30
Teatro Multiplan – VillageMall – Av. das Américas, 3900 – Barra da Tijuca – Rio de Janeiro/RJ
Ingressos entre R$ 25 e R$ 350
Sympla: https://bileto.sympla.com.br/event/122813/d/394821
Até 30/08

* Luh Maza é dramaturga e cineasta. Escreveu críticas de arte entre 2009 e 2012 para veículos como o Caderno Teatral e o portal Yahoo! Brasil. Integra a dissertação de mestrado da UFRGS: “Aspectos da crítica teatral brasileira na era digital”, de Helena Maria Mello. Também foi jurada do Prêmio Shell de Teatro no biênio 2022-2023, como primeira pessoa trans no Brasil e primeira pessoa negra em São Paulo. Foi curadora nas secretarias de cultura de São Paulo e Curitiba, no SESI, na MIT-SP, entre outras instituições, mostras e festivais de teatro e audiovisual. 

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