‘A Nobreza do Amor’, a nova novela das seis da Globo que chega na próxima segunda-feira, 16 de março, mobilizou 300 pessoas para erguer sua cenografia monumental. Foram mais de três meses de trabalho intenso nos Estúdios Globo para dar vida ao reino africano de Batanga, com 974 metros quadrados, e à cidade fictícia de Barro Preto, no Brasil, que ocupa 3.532 metros quadrados. (Veja fotos exclusivas abaixo)
A partir de um estudo aprofundado sobre as raízes e as estéticas milenares do continente africano, a equipe de produção estabeleceu uma identidade artística pautada pela exaltação e pelo resgate histórico. Sob a consultoria de Maurício Camillo, pesquisador de Guiné-Bissau especialista em grandes impérios africanos, e a direção de arte de Rafael Cabeça, o projeto se propõe a desconstruir estereótipos historicamente limitantes.
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“O povo da África ficou reduzido aos estereótipos de pobreza e doença, de savana ou até de atrasado, perpetuado enquanto pobre e associado ao crime e à corrupção. É esse retrato que aparece nos filmes e algumas novelas. ‘A Nobreza do Amor’ traça outro caminho, trazendo outras formas de viver existentes na África em suas múltiplas culturas, que também podem ser mostradas”, afirma Maurício.

A produção, entretanto, se estende para além desses muros. As gravações foram iniciadas no Rio Grande do Norte, em dezembro de 2025, com cenas em locações escolhidas por suas semelhanças geográficas com a África. Além disso, diversas locações externas no Rio de Janeiro apoiaram as filmagens. A batalha final da Guerra da Independência, liderada pelo Rei Cayman II, por exemplo, foi encenada na Fortaleza de Santa Cruz da Barra, em Niterói, um sítio histórico que começou a ser construído em 1555. A locação foi ponto de partida para a cenografia de Batanga: segundo Paula Salles, o ambiente reproduzido nos Estúdios Globo funciona como uma extensão da fortaleza após a retomada do poder pelo povo africano.
O conceito por trás do reino que orientou a equipe de cenografia encontra também inspiração na relação da terra com a natureza. “Estamos muito conectados à ideia de terra sagrada”, comenta Paula. Nesse contexto, surge um dos elementos mais importantes da composição: o baobá. Presente antes mesmo da fase principal da novela, ele marca território como símbolo de resistência. “Funciona quase como um ancião, um elemento de muito poder, que estabelece uma ligação importantíssima com a história”, define a cenógrafa. Estruturada como uma torre metálica revestida com placas de tela de galinheiro em poliuretano, a árvore cenográfica tem cerca de três metros de largura, seis metros e meio de altura e uma copa de aproximadamente doze metros de folhagem, impondo-se como marco sagrado do reino.

Ao redor do baobá, a cenografia organiza elementos que reforçam a influência da cultura africana em Batanga. Entre eles estão os muxarabis, treliças vazadas de origem árabe usadas no norte da África, e os símbolos adinkra, ideogramas tradicionais do povo Akan, usados há séculos para expressar seus valores e filosofia ancestral. É possível observá-los no cenário em portas, janelas e paredes, além das roupas dos personagens da realeza batangui.
Na reprodução da fortaleza nos Estúdios Globo, estão ambientes importantes para a história. A sala do trono, um dos mais emblemáticos, conta com madeira entalhada, bandeiras e pinturas feitas à mão, que transformam o ambiente numa expressão da opulência africana. Dois tronos foram criados, cada um com tipologia própria, relacionados a dois orixás da cultura iorubá: Iansã, para o trono da rainha, e Xangô, para o trono do rei. Paula explica que a escolha estética valoriza sempre o que seria feito por muitas mãos, não por processos fabris.
O cuidado artesanal que marca a realeza de Batanga também prepara o olhar do público para o contraste com a potiguar Barro Preto, que, de alguma maneira, também se liga ao reino africano. A paleta de Batanga tem tons alaranjados e terrosos, que servem como base neutra para que os figurinos vibrantes, marcados por vermelhos e dourados, ganhem força. Em contraste, quando a narrativa cruza o oceano e chega a Barro Preto, a lógica se inverte: ali, as casas são mais coloridas, e por isso os figurinos assumem tons mais neutros, criando um equilíbrio visual entre personagens e cidade. A novela também estabelece uma ponte luminosa entre esses dois universos: enquanto Batanga já possui iluminação própria, Barro Preto ainda vive à base de lamparinas.

Barro Preto é, então, para o cenógrafo Fábio Rangel, uma cidade “parada no tempo”. Ficcional e ambientada no Rio Grande do Norte, sua construção visual partiu de uma ampla pesquisa em referências das regiões Norte e Nordeste, explorando casarios coloridos e fachadas históricas preservadas desde o século XIX, como as de Cachoeira (BA) e Olinda (PE). Em sua composição, nada remete à modernização: as casas carregam marcas de envelhecimento natural, sem interferências contemporâneas. A arquitetura é eclética, combinando elementos clássicos e góticos, entre outras influências.
A organização da cidade faz uma homenagem às novelas clássicas: Barro Preto se estrutura em torno de uma praça central, onde se dispõem igreja, armazém e casas principais – um formato que remete a produções como ‘Roque Santeiro’ (1985) e ‘Tieta’ (1989). Entre os elementos mais marcantes, está o busto da mãe do prefeito Bartô, que será animado por computação gráfica, reagindo aos principais acontecimentos da cidade. Para a constituição de Barro Preto houve também gravações em locações externas no Rio. A fazenda do núcleo de Tonho (Ronald Sotto), por exemplo, foi gravada na Fazenda da Taquara, onde a equipe instalou o Engenho Santa Fé.
Fábio estruturou Barro Preto como um mosaico de pequenos mundos, onde cada núcleo ganha traços de suas identidades. Os personagens de origem libanesa, por exemplo, recebem referências específicas dessa cultura, enquanto o banqueiro Diógenes (Danton Mello) habita um ambiente com visual mais inglês, reforçando sua posição de poder. Como a cidade abriga o núcleo mais cômico da novela, Fábio explica que a cenografia é “mais leve, brinca com essa coisa da vilania e dos heróis de um jeito um pouco mais caricato”.

Ao longo da novela, Barro Preto é palco de diversas tramas, entre elas, a chegada da realeza deposta de Batanga. Para esses momentos, a cenografia reforça a ligação profunda entre os dois universos. A presença africana continua atravessando Barro Preto de modo discreto, mas significativo: aparecem ali ecos de técnicas, saberes e simbologias trazidos da África, como referências à serralheria tradicional e aos adinkras, incluindo o Sankofa, símbolo que evoca a importância de revisitar o passado para seguir adiante. Esses elementos aparecem em detalhes arquitetônicos e grafismos em cenários como a casa de José/Zambi (Bukassa Kabengele), sob a ideia de que o território brasileiro apresentado na novela é atravessado por essa herança ancestral.







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