Por Rodrigo França
Iléa Ferraz tem 41 anos de carreira e ainda responde sobre o futuro com uma frase que desmonta qualquer tentativa de transformá-la em passado: “O melhor da minha arte ainda está por vir”. É preciso escutá-la com atenção. Estamos diante de uma artista que atravessou quatro décadas de teatro, televisão, audiovisual e artes visuais sem aceitar que a escassez de oportunidades destinada às mulheres negras determinasse a dimensão de sua criação.
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Chamar Iléa de uma das grandes atrizes negras brasileiras é verdadeiro, mas insuficiente. Ela é uma das grandes atrizes brasileiras. O adjetivo “negra” importa porque conta uma história que o país tentou tornar invisível. Já o seu talento não precisa de qualquer delimitação. Atriz, dramaturga, roteirista, diretora, produtora, artista visual, cenógrafa, ilustradora e preparadora de elenco, Iléa construiu uma trajetória que atravessa linguagens com uma inquietação rara. Formada pela Escola de Teatro Martins Penna, fundou a Black e Preto Produções Artísticas e criou a Mimunegra, Mostra Internacional de Arte da Mulher Negra.
Há uma reparação necessária em escrever sobre Iléa Ferraz. Não a reparação que transforma uma artista em vítima permanente da história, mas aquela que reorganiza o enquadramento. Durante muito tempo, o Brasil se acostumou a reconhecer artistas negros depois que envelheceram, morreram ou já não podiam usufruir plenamente do reconhecimento. Iléa conheceu de perto Ruth de Souza, Léa Garcia e Jacira Silva. Viu a grandeza dessas mulheres convivendo com a escassez de trabalho, dinheiro e reconhecimento. Quando afirma ter testemunhado o apagamento de atrizes negras ainda em vida, ela não fala de uma abstração sociológica. Fala de colegas, amigas, referências. Fala do que seus próprios olhos registraram.
Sua resposta sobre representatividade deveria ser lida por quem ainda acredita que presença ocasional significa transformação: “Representatividade só existe se tiver quantidade, visibilidade e dignidade financeira”. A frase desloca o debate da fotografia para a estrutura. Uma atriz negra em cena pode produzir uma imagem poderosa enquanto dezenas permanecem sem trabalho. A diversidade que não chega ao contrato, à remuneração, à autoria, à direção e aos lugares de decisão corre o risco de funcionar como decoração institucional.
Iléa aprendeu cedo a procurar quem estava ao redor quando entrava em um espaço criativo. “Praticamente não estávamos em lugar nenhum”, recorda. Sua geração precisou criar enquanto procurava frestas. E, em determinados momentos, precisou fabricar a própria porta.
Nos anos 1990, participou da fundação da Cia. de Teatro Black e Preto. Foi nesse ambiente que encontrou A Botija de Ouro, de Joel Rufino dos Santos, trabalho que considera fundamental para compreender o caminho que desejava seguir como artista negra independente. A relação com a obra atravessou os anos. Em 2011, uma adaptação cênico musical protagonizada por Iléa integrou o lançamento da segunda edição do Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afrobrasileiras, promovido pela Fundação Cultural Palmares.
Sua independência nunca significou isolamento. Iléa construiu instituições, projetos e possibilidades para que outras pessoas também fossem vistas. A Mimunegra nasceu com o propósito de evidenciar a participação das mulheres negras nas artes e ampliar sua presença na produção, direção, roteiro e interpretação. Em 2014, quando a mostra homenageou Zezé Motta pelos 70 anos de vida e 50 de carreira, Iléa já compreendia algo que hoje parece evidente: celebrar uma artista negra em vida também é uma ação política contra o esquecimento.
Seu currículo ajuda a dimensionar essa travessia. No teatro, esteve em montagens como A Partilha, Os Negros, Dorotéia, Hamlet é Negro e Besouro Cordão de Ouro. Em 2003, recebeu indicação ao Prêmio Shell de melhor atriz por Nunca Pensei Que Ia Ver Esse Dia. Na televisão, passou por produções como Xica da Silva, Tenda dos Milagres, A Padroeira, Mãe de Santo, Escrava Anastácia e, mais recentemente, O Som e a Sílaba.
Mas uma carreira como a de Iléa não cabe numa relação de títulos. Há algo mais profundo em sua permanência. Ela recusou a ideia de esperar que o mercado descobrisse tudo aquilo que sabia fazer. Dirigiu, escreveu, produziu, desenhou cenários, ilustrou livros. Suas imagens chegaram às capas de obras de Conceição Evaristo e Wole Soyinka. Trabalhou como preparadora de elenco em produções como O Coro, Manhãs de Setembro e O Som e a Sílaba. Atualmente, também dirige, atua e circula pelo Brasil com trabalhos que reafirmam essa multiplicidade criativa.
Existe ainda uma menina acompanhando essa mulher. Iléa escreveu para A Botija de Ouro: “A menina que fui ainda sou”. É uma imagem bonita porque sua infância não aparece como lembrança adormecida. Filha única, criada entre pais, primas, primos, tias, tios e vizinhos, ela se recorda de uma comunidade organizada pelo cuidado, pelo abraço e pela delicadeza. A família, porém, temia seu desejo de ser artista. Diziam que aquilo passaria quando crescesse. A menina escutava, entristecia e continuava querendo.
Quarenta e um anos depois, ela continua.
E há algo de profundamente brasileiro nessa história. O país celebra com facilidade a resistência de artistas negras, quando deveria perguntar por que exigiu tanta resistência delas. A palavra “guerreira”, tantas vezes oferecida como elogio às mulheres negras, pode esconder uma violência: naturalizar que determinadas pessoas precisem suportar o dobro para receber uma fração. Iléa não romantiza esse percurso. Quando perguntada sobre quais estratégias criou para se proteger do preconceito, responde que estratégia alguma blinda alguém do racismo, do etarismo e da misoginia. O que ela exercita é a percepção. Olhar ao redor. Entender o que está acontecendo. Não permitir que a violência desvie sua atenção dos próprios objetivos.
Sua obra mais recente também carrega essa capacidade de se observar. Em Deixa Comigo, monólogo que escreveu com Luciano Cachimbo e no qual assina direção e cenografia, interpreta Lina. Diz que a personagem tem muito dela, das mulheres de sua família e das pessoas que admira. Lina lhe ensina sobre amizade, humanidade, escolhas e contradições. Depois de quatro décadas interpretando outras existências, Iléa afirma que a profissão grifou suas próprias qualidades e defeitos. E acrescenta uma frase preciosa: gosta cada vez mais de quem vem se tornando.
Existe uma serenidade conquistada aí. Não a serenidade de quem encontrou um lugar confortável, mas a de quem sabe exatamente o preço do próprio caminho. Iléa não trata fama e reconhecimento como pecados. Considera vaidade, reconhecimento e sucesso ingredientes importantes de uma carreira. A maturidade estaria em encontrar a medida capaz de fazer com que permaneçam sem engolir a artista.
Quando aconselha jovens atrizes negras, não oferece uma fórmula de sucesso. Pede que olhem para trás. Essa orientação carrega uma genealogia inteira. Olhar para trás significa saber que o palco onde alguém pisa hoje guarda marcas de Ruth, Léa, Jacira, Zezé e de tantas mulheres cujos nomes receberam menos luz do que suas obras mereciam. Significa compreender que nenhuma conquista começou no instante em que passamos a enxergá-la.
A menina que ouviu que esqueceria o sonho cresceu e não esqueceu. Atravessou 41 anos criando personagens, imagens, espetáculos e espaços para que outras artistas também pudessem existir. Quando perguntada sobre o que gostaria que dissessem a seu respeito daqui a muitas décadas, Iléa não escreve o próprio epitáfio. Olha adiante: quer que outras pessoas se espelhem em sua história e continuem perpetuando a arte negra brasileira.
Colocar Iléa Ferraz no lugar que lhe pertence não exige inventar grandeza. Exige enxergar a que já está diante de nós. E fazer isso agora, enquanto ela cria, dirige, escreve, atua, desenha, ensina, inquieta e continua desejando o próximo trabalho.
Aos 41 anos de carreira, Iléa ainda leva consigo a menina que decidiu ser atriz. Se pudesse encontrá-la no início de tudo, diria para manter a coragem, a determinação, a humildade e a audácia. E acrescentaria um conselho doméstico, quase banal, que acaba dizendo muito sobre uma vida inteira:
“Não esqueça o casaco, porque às vezes vai fazer frio.”
Fez frio.
Ela continuou.