Como diriam os jovens, eu estou com “hiperfoco” na novela Vale Tudo. Há muito tempo eu não criava esse hábito de ter um horário fixo para ver algo na TV. Eu vejo pouca TV de forma geral. O que me faz ligar esse aparelho são, além das notícias, os programas em que eu me vejo enquanto mulher negra, com uma família negra. E nisso, pela segunda vez, depois de Amor de Mãe, me dei ao luxo de parar tudo para ver os capítulos do folhetim das 21h, antiga novela das oito. Confesso que a maior motivação era ver a Taís Araújo, uma mulher da minha geração e uma das minhas artistas e intelectuais preferidas do mundo.
Para além de assistir à intérprete da sofrida Raquel, os núcleos familiares negros, ou com personagens negros, mesmo sendo muito diferentes da minha família, me geraram muito interesse, renderam boas risadas e inúmeros papos com meus filhos e amigos (e leitores do Mundo Negro), assim que a novela acabava.
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Não assisti outras novelas importantes com representatividade negra que felizmente estão cada vez mais presentes na TV, como Garota do Momento, Vai na Fé e Volta por Cima, mas quando falamos de Vale Tudo, estamos falando de dilemas morais da vida, escolhas que fazemos mesmo lidando com dificuldades, além de coisas triviais como, por exemplo, a Consuelo lidando com gerenciamento financeiro da família e crises de um casamento longo. Também vimos muitas situações de racismo explícito ou simbólico, e discutir se um tapa em racista é válido ou não é um papo que não tem nada de superficial considerando o país em que vivemos.
Novelas brasileiras são um patrimônio cultural, e acusar quem se diverte com elas de alienação seria o mesmo que acusar um fanático por futebol de obcecado. Não deveríamos julgar as pessoas por suas escolhas de como se divertir, quando elas são inofensivas.
Há paixões brasileiras que fazem parte da nossa vida e, no caso das novelas, quando há um núcleo negro representativo, isso é o mais próximo que temos de um seriado negro.
Nossas críticas, que parecem perda de tempo para os mal-humorados, na verdade, são reflexões que também poderíamos fazer lendo um livro, mas em novelas, fazemos isso de forma coletiva no online e offline. A falta de consistência e desenvolvimento de personagens questionáveis faz parte de qualquer produto cultural, como teatro, cinema, quadrinhos e literatura.
Assistir novela é no mínimo uma boa distração para um mundo tão difícil, mas quem tem mais repertório intelectual pode tirar muitos insights sobre a vida e o trabalho por meio dos personagens. Falar sobre novelas é uma das poucas interações online que não geram bate-boca sem sentido.
Mas assim que Vale Tudo acabar, não sei se emendo com a próxima, mas estou pensando em criar um abaixo-assinado para a família da Consu ganhar seu próprio seriado. Há lastros para isso, meu bem. Só basta a Globo querer.
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