Estudo da USP publicado na Science mapeou o DNA de 2.723 brasileiros e associa a miscigenação do país a um padrão de violência sexual histórica.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo concluiu que o Brasil é o país com maior diversidade genética do mundo, resultado do sequenciamento completo do genoma de 2.723 pessoas de todas as regiões do país, de capitais a comunidades ribeirinhas. O trabalho integra o projeto DNA do Brasil, do Ministério da Saúde, e foi publicado em maio na Science, uma das revistas científicas mais influentes do mundo. Segundo o levantamento, a população brasileira carrega, em média, 60% de ancestralidade europeia, 27% de africana e 13% de indígena, com a europeia predominando no Sul e no Sudeste, a africana no Nordeste e a indígena no Norte e no Centro-Oeste.
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Assimetria expõe violência sexual
Os dados revelam uma diferença expressiva entre a herança genética transmitida por homens e por mulheres ao longo da formação do país. A linhagem paterna, presente no cromossomo Y, é 71% europeia, enquanto o DNA mitocondrial, transmitido apenas de mãe para filho, carrega 42% de ancestralidade africana e 35% indígena. A geneticista Tábita Hünemeier, professora do Instituto de Biociências da USP e uma das coordenadoras da pesquisa, atribui esse padrão a um processo sistemático de violência contra mulheres indígenas e africanas. “Isso conta uma história de violência, seja ela qual for, porque é pouco provável que 80% das mulheres africanas quisessem ficar só com homens europeus e os homens indígenas somem da população”, afirmou a pesquisadora ao Jornal Nacional. Para Hünemeier, os resultados ajudam a desmontar a ideia de uma miscigenação consentida que, segundo ela, ainda sustenta parte da identidade nacional.
A historiadora Maria Helena Machado, da USP, especialista em gênero e maternidade durante a escravidão, reforça essa leitura. “A mulher escravizada, indígena ou africana, estava a serviço do escravizador, tornando corriqueiros os assédios e estupros”, disse Machado, autora, com o historiador Antonio Alexandre Cardoso, do livro “Geminiana e seus filhos: Escravidão, maternidade e morte no Brasil do século XIX”, publicado em 2024 pela editora Bazar do Tempo. Machado descreve as mulheres escravizadas como duplamente exploradas, tanto como força de trabalho quanto como reprodutoras, e situa esse padrão dentro de políticas de Estado que, já no Brasil independente, incentivavam a mestiçagem como caminho para o branqueamento da população. Como exemplo, ela cita propostas apresentadas em 1823 pelo deputado José Bonifácio de Andrada e Silva para estimular casamentos entre mulheres negras e indígenas com homens brancos, dentro de um projeto que buscava integrar a população negra à europeia.
Décadas antes da pesquisa da USP, o ativista, escritor e político Abdias Nascimento já questionava a miscigenação brasileira como fenômeno espontâneo. Em entrevista ao jornal O Globo publicada em 1978, ele descreveu a miscigenação, do modo como ocorreu no país, como um dos instrumentos de um processo mais amplo de genocídio contra a população negra, ao lado da destruição de línguas africanas e de assassinatos diretos. Nascimento definiu esse processo como uma forma de compulsão social que empurrava pessoas negras a embranquecer para obter aceitação e ascensão social. Em sua obra “O Genocídio do Negro Brasileiro”, publicada originalmente em 1978, ele associou a miscigenação brasileira à exploração sexual da mulher negra e à ideologia do branqueamento, difundida como projeto de nação a partir do século XIX. O autor fazia questão de dizer que não se posicionava contra a miscigenação em si, mas contra a forma como ela ocorreu no Brasil, sem igualdade de condições entre os grupos envolvidos.
Além da assimetria entre linhagens paterna e materna, os pesquisadores identificaram combinações de ancestralidade africana que não têm registro nem no continente africano, resultado do tráfico de pessoas retiradas à força de diferentes regiões da África e agrupadas no Brasil, muitas vezes sem falar o mesmo idioma. “Nós estamos sequenciando genomas de ancestralidade africana e indígena que ninguém está estudando. Os bancos de dados são todos de DNA de populações brancas”, afirmou Lygia da Veiga Pereira, geneticista da USP e coordenadora do projeto DNA do Brasil, ao Jornal Nacional. A equipe também identificou mais de 8 milhões de variações genéticas nunca antes registradas em nenhum banco de dados do mundo, além de definir 18 perfis genéticos distintos na população brasileira, a maioria deles combinando mais de uma ancestralidade.
Aplicações para a saúde pública
Os pesquisadores associam o mapeamento genético a avanços concretos na área da saúde, já que centenas dos genes identificados estão ligados a doenças que vão de pressão alta a diferentes tipos de câncer. O assistente administrativo Antônio Pereira da Silva, um dos participantes da pesquisa, descobriu ter predisposição a uma doença renal crônica e passou a adotar cuidados preventivos a partir do resultado. Lygia Pereira projeta que o conhecimento detalhado do genoma nacional poderá permitir a médicos identificar grupos de maior risco para exames como a mamografia antes da idade convencionalmente recomendada, reduzindo custos e ampliando a precisão dos diagnósticos. A equipe já sequenciou outros 7 mil genomas e prevê novos resultados nos próximos meses, com o objetivo de ampliar ainda mais a representatividade de populações africanas e indígenas nos bancos de dados genômicos globais.
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