
Farmacêutico de Médicos Sem Fronteiras, Celestin Kabasele reencontrou os pais por quatro horas, numa escala de voo a caminho de um Centro de Tratamento de Ebola.
Faltando seis meses para concluir a graduação em Economia na Universidade Católica do Congo, em Kinshasa, Celestin Kabasele, então com 22 anos, viu na sua frente a oportunidade com que sempre sonhou. O quase economista deixou para trás a faculdade, o país e a família para estudar no Brasil com uma bolsa do PEC-G, programa do governo brasileiro que recebe estudantes de 69 países em desenvolvimento.
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O destino foi o Rio Grande do Sul. Havia o desafio da língua, o de ser um homem negro estrangeiro num estado de colonização europeia e o de recomeçar do zero: depois de oito meses de português intensivo na UFRGS, em Porto Alegre, Celestin voltou aos bancos da universidade, agora no curso de Farmácia, em Passo Fundo.
Neste primeiro conteúdo da parceria entre o Mundo Negro e Médicos Sem Fronteiras, você conhece esse congolês que, depois de 12 anos no Brasil, retornou ao seu país como um farmacêutico experiente, num projeto desafiador: combater o vírus Ebola.
No Brasil, ele trabalhou como farmacêutico clínico em hospital antes de ingressar em MSF. Seu primeiro projeto foi na República Centro-Africana; o atual é no Centro de Tratamento de Ebola em Bunia, capital da província de Ituri, no leste da RDC, onde atua como gerente de farmácia. A partir de casos detectados na região, o surto da doença foi declarado em maio de 2026. A maneira como a doença do Ebola está se espalhando nesta epidemia é a mais rápida já registrada, com mais de 10 mil casos e 5 mil mortes até o início de novembro.
Você estava terminando Economia na RDC e, nos 45 do segundo tempo, veio para o Brasil estudar Farmácia. O que te motivou e como foi a adaptação? Você já falava português?
O que me motivou foi esse desejo de conhecer um pouco o mundo, de saber como as pessoas estudam fora do meu país. Eu tinha outros lugares na lista, e daí surgiu a oportunidade do Brasil. Como eu sempre quis atuar na área da saúde, direcionei meus estudos para Farmácia. A primeira opção eu coloquei Farmácia e a segunda, Medicina.
O programa se chama PEC-G, é um programa do governo brasileiro com outros países. O aluno se candidata, passa num processo seletivo no país de origem e, quando é selecionado pela universidade, recebe a carta de aceite. Quando iniciei esse processo, eu estava quase finalizando a faculdade de Economia, praticamente seis meses para me formar, depois de cinco anos de estudo.
Quando recebi o visto, percebi que não tinha muito tempo, porque eles dão um prazo para você chegar no Brasil. Se ultrapassar esse período, é preciso recomeçar do zero. Então conversei com meus pais: “Olha, eu passei nesse processo, chegou nessa fase, só que não tenho como finalizar o meu curso.” Eles estavam pagando tudo para mim, era como se fossem cinco anos de dinheiro jogado no ralo. Minha mãe e meu pai perguntaram: “Tu tens certeza da tua escolha? É isso que tu queres?” Eu disse: “Sim, eu quero, eu vou. Sei que não vai ser fácil, mas é uma bolsa de estudos, eu vou estudar.”
Quando cheguei, eu não falava nada de português, nem oi, nem bom dia. Era francês e um pouco de inglês. Dentro do programa, o aluno que não fala português tem que cursar primeiro seis a oito meses de português intensivo. Fui direto para o Sul, porque o meu curso de língua era na UFRGS, em Porto Alegre. Estudei lá durante oito meses, fiz a prova de proficiência e, quando passei, fui para Passo Fundo iniciar a faculdade de Farmácia. No início foi um pouco difícil, mas como eu sabia o que eu queria, fiz o possível para me adaptar ao clima, à língua, ao povo.
“Quando cheguei, eu não falava nada de português, nem oi, nem bom dia.”
Celestin Kabasele







O Sul, onde você se estabeleceu, é uma região de colonização majoritariamente europeia. Como foi o acolhimento para um homem negro estrangeiro?
Confesso que no início eu não tinha muitos amigos. Tinha um grupo de conterrâneos que já estavam lá em Porto Alegre cursando outras universidades. No início, tu tentas se reunir sempre com a tua comunidade, onde tu sabes que estás tranquilo e consegues falar o francês, o dialeto. Mas comecei a notar que, para evoluir, eu precisava sair da minha bolha e criar vínculos com outras pessoas. Aí que eu fui entender um pouco da cultura do Sul. A gente sabe que o povo do Sul é um pouco fechado. Tu tens que dar o primeiro passo, depois a galera te acolhe. Tem uns que vão te fazer muitas perguntas antes de ter certeza de que querem que tu fiques com eles. Outros te olham e dizem: “Vem cá, irmão, está tudo tranquilo.” E outros que simplesmente não interagem.
A parte mais difícil foi sair de Porto Alegre para Passo Fundo. Em Porto Alegre, a gente tem uma grande comunidade negra, porque é a capital. Em Passo Fundo, mudou tudo: a comunidade negra nem chega a 5%. Quando tem evento da comunidade, dá para contar as pessoas nos dedos. Eu era o único intercambista da RDC naquela universidade. O lado bom é que a universidade recebia intercambistas de outros países, e isso me ajudou a criar vínculo com o pessoal do México, da Espanha, da Bolívia, do Chile. E quando você forma um grupo de pessoas de fora, os brasileiros começam a se aproximar. Hoje eu tenho grandes e bons amigos lá.
“Para evoluir, eu precisava sair da minha bolha e criar vínculos com outras pessoas.”
Celestin Kabasele
E a família, como entra nisso? Seus pais são da área da saúde? E essa vida que você escolheu sacrifica a vida pessoal?
Os meus pais são professores. Então, eles nos motivam a estudar. Lá no meu país, a gente fala que, quando a criança está na barriga da mãe, é da mãe. Mas quando sai da barriga, é do mundo. Então tu tens toda a liberdade de escolher. É uma cultura da minha família, meus tios, meus primos: cada um escolhe o que quer fazer e vai fazer a sua vida. Somos quatro irmãos. Eu estou no Brasil, meu irmão no Canadá, minha irmã caçula também está no Brasil, faz Medicina em Campina Grande. Ninguém vai dizer: “não faça isso”. Eles apoiam: “Vai. Se tu quiseres, a casa sempre vai estar aqui. O dia que tu quiseres voltar, voltas sem problema.”
Quanto à vida pessoal, sacrifica, sim. Às vezes tu pensas: “Vou pensar em ter uma família.” E depois: “Essa vida que eu escolhi, estando um tempo aqui, um tempo lá… Será que vai ser possível?” Tu ficas indeciso sobre qual caminho escolher. Mas, ao mesmo tempo, penso: “Vamos, as coisas vão se ajeitando aos poucos.” São decisões bem complicadas. Mas a gente tenta.
“Quando a criança está na barriga da mãe, é da mãe. Mas quando sai da barriga, é do mundo.”
Celestin Kabasele
Como foi o seu primeiro projeto, na República Centro-Africana? Foi o que você esperava?
Foi desafiador. É diferente se alguém sai de um país para outro para fazer turismo do que quando sai para trabalhar num contexto diferente. No Brasil, eu trabalhava no hospital, era farmacêutico clínico, tinha todo o suporte, os equipamentos, tudo. E aí tu chegas num contexto onde sabes que não vai ter tudo isso. Tu tens que usar as ferramentas que te deram, tentar melhorar e aplicar no teu trabalho. Foi difícil me adaptar. Depois, quando entendi o funcionamento, eu me soltei e fui fazendo o meu papel de farmacêutico dentro do projeto.
No final, os coordenadores diziam: “Nossa, como você é tranquilo, mesmo quando acontece tal coisa…” Às vezes tu estás fervendo interiormente, mas tens que manter a postura. Porque a gente tem que entender que, quando inicia um projeto, não chega lá para resolver tudo. Tu vais fazer uma parte, e quando terminar, outro farmacêutico vai chegar. Não dá para revolucionar tudo. Tem dez coisas, eu escolho três ou quatro, foco nisso, meu resultado está ali. Quando o outro chegar, pega o restante e dá continuidade. É assim que roda o ciclo no projeto.
Ao mesmo tempo, fiquei impressionado com a cultura. Mesmo sabendo que a República Centro-Africana fica do lado do meu país de origem, a gente não tem noção do que se passa realmente ali. Só quando se está lá se entendem as dificuldades que o povo passa, como está a situação da saúde, a questão social. Impacta muito.
“Não dá para revolucionar tudo. Tem dez coisas, eu escolho três ou quatro e foco nisso.”
Celestin Kabasele
Como foi o reencontro com a sua família depois de 12 anos, e por que tanto tempo longe?
Quando eu estava na República Centro-Africana, pensei: “Agora estou perto, nas minhas férias eu viajo e fico duas semanas com os meus pais.” E aí começa o surto de Ebola, e a gente recebe a notícia de que não pode entrar na RDC. Mas no final deu tudo certo: depois da RCA, surgiu uma proposta para vir para cá.
Quando eu estava chegando no país, pensei que iria ficar algumas horas e pegar outro voo para o leste da RDC. Mas depois me falaram que eu ia ter que passar uma noite na capital. Fiquei muito feliz e mandei mensagem: “Vou estar em tal lugar, a gente pode se encontrar.” Os meus pais pensaram que seria fácil ir para casa. Eu expliquei que não estava ali como turista, eu estava sob a responsabilidade de MSF, e tem certas coisas que não poderia fazer.
O bom é que os meus pais entenderam. Eles vieram até o meu alojamento no horário que era possível. A gente ficou junto umas quatro horas. Conversou, deu risada. E eu disse: “Eu vou, mas eu vou voltar. A gente vai ter um tempinho para se ver com mais tranquilidade.” Foi emocionante, depois de uns 12, 13 anos. Eu tinha 22, 23 anos na última vez que os vi. Mas fiquei feliz pela oportunidade de ver a minha mãe, o meu pai, e ver que eles estão bem.
Eu sempre digo para eles que foi uma escolha minha. Eu não esqueci dos cinco anos deles pagando uma faculdade para mim. Eu estudava na Universidade Católica do Congo, que não é uma faculdade barata. E mesmo estudando no Brasil com bolsa, eles continuaram me ajudando, me mandando dinheiro. Tudo isso começou a pesar: eu sou o irmão mais velho e ainda dependia do apoio dos meus pais. Então, mesmo quando eles diziam: “a gente te paga a passagem, vem aqui nos visitar”, eu dizia: “Não façam isso. No momento certo eu vou para aí”. Sem contar que a passagem do Brasil para a RDC é muito cara, são dois dias de voo na ida, dois na volta, e eu tinha duas semanas de férias a cada seis meses. Então falei: “Vou me organizar um dia.” E aconteceu.
“A gente ficou junto umas quatro horas. Conversou, deu risada. E eu disse: ‘Eu vou, mas eu vou voltar.’”
Celestin Kabasele
Qual é a sua função hoje no Centro de Tratamento de Ebola? Você chega a tratar pacientes?
Eu sou gerente de farmácia. A gente tem dois farmacêuticos: o farmacêutico que fica na coordenação e faz toda a estratégia da cadeia farmacêutica, e eu, que fico no CTE, o Centro de Tratamento de Ebola, fazendo a gestão dos medicamentos dentro desse ambiente.
Toda manhã a gente tem a reunião com a equipe médica e a equipe multidisciplinar. Participando dessas reuniões, consigo entender melhor como a farmácia pode contribuir com o cuidado aos pacientes e me antecipar às necessidades da equipe. Também me ajuda a atualizar os colegas em relação ao estoque e eventuais alternativas no caso de falta temporária de algum medicamento, podendo adaptar os planos de tratamento caso seja necessário. Por exemplo, dependendo da situação, temos que priorizar alguma opção terapêutica alternativa durante alguns dias.
Obviamente, quem faz as consultas é o médico. Ele passa a prescrição, eu analiso, a gente separa os medicamentos e a enfermagem entra na área vermelha, que é a área contaminada onde estão os pacientes, para administrar a medicação.
Mas tem momentos em que, quando finalizo o meu serviço e tenho um tempo, eu vejo alguns pacientes para saber se estão bem, se têm alguma queixa, alguma reação adversa a algum medicamento. Eu coleto essas informações e passo para o meu gestor, e isso serve para discutir com a equipe médica: “Olha, um paciente com quem eu conversei disse que sentiu isso e isso. Será que dá para olhar?”
Aqui no Brasil quase não chega informação sobre o Ebola. Como está a situação aí? E como você avalia a cobertura que a mídia brasileira dá às epidemias no continente africano? Pode ser sincero.
Se alguém disser que o Ebola está acabando, não é verdade. Não está acabando. Os casos confirmados já são mais de 10 mil, as mortes registradas já passaram de 5 mil, mas como nem todos os casos são descobertos ou notificados, os verdadeiros números provavelmente são maiores. Este é o surto mais grave da doença do Ebola na história da RDC.
O surto já chegou a oito províncias do país, incluindo áreas onde a presença de organizações humanitárias é menor, o que dificulta adotar medidas de contenção. Outras regiões continuam registrando casos. Temos casos na Nigéria e no Quênia. Então, a gente precisa sempre reforçar: é preciso respeitar as regras e orientações, higienizar as mãos, evitar o contato e, quando apresentar sintomas, informar a equipe médica ou ir rapidamente ao CTE para fazer a avaliação. A situação está bem difícil. A epidemia ainda não terminou e a resposta a ela precisa contar com mais recursos. Do lado de MSF, apoiamos o trabalho de resposta em cinco províncias, com oito Centros de Tratamento e várias unidades de isolamento. E infelizmente todos os dias testemunhamos o grande custo humano desta epidemia.
“Se alguém disser que o Ebola está acabando, não é verdade. A epidemia ainda não terminou.”
Celestin Kabasele
Outra questão é que às vezes as informações não são veiculadas de maneira adequada. Não basta dizer “está tendo epidemia na África”. É importante ter a informação precisa: em qual lugar? Na RDC. Mas qual parte da RDC? É preciso explicar tudo isso. Por isso, quando MSF fala sobre o assunto, essa explicação considera o contexto. E às vezes a notícia só passa uma vez. Se é algo que está acontecendo na Europa, você vai ver o mês inteiro, todo mundo vai saber. Mas quando é algo de um país do continente africano, às vezes nem o nome do país é citado. E na cabeça de quem recebe essa informação, vai reforçando a falsa ideia de que a África é um país.
“Se é na Europa, você vai ver o mês inteiro. Quando é um país do continente africano, às vezes nem o nome do país é citado.”
Celestin Kabasele
No Brasil, você tem contato com o SUS. Comparando com os sistemas de saúde dos países onde você trabalhou, o Brasil é diferente mesmo?
É diferente. A gente tem um sistema que permite fazer consultas, exames, ter os medicamentos gratuitos, e se é um caso de doença complexa, ser direcionado para um médico especialista. Nos lugares onde a gente chega para trabalhar, não existe isso. Ou a pessoa tem dinheiro e se trata, ou não tem dinheiro e acaba morrendo por causa de uma situação que poderia ter sido evitada de forma bem simples. Felizmente, MSF está nesses lugares oferecendo todo o tratamento gratuitamente, sem cobrar nenhum centavo. Por isso eu digo: o SUS é um verdadeiro tesouro do Brasil, que tem que ser muito bem guardado.
“O SUS é um verdadeiro tesouro do Brasil, que tem que ser muito bem guardado.”
Celestin Kabasele
Se um jovem, ou um profissional mais maduro, dissesse hoje “acho que tenho perfil para Médicos Sem Fronteiras”, o que você recomendaria?
Eu recomendaria a cada pessoa que tem esse desejo escutar o seu coração e seguir em frente. Porque todo esse trabalho que a gente faz tem um lado bom. A gente chega sempre num lugar onde as pessoas não têm as oportunidades que temos: ter um SUS, por exemplo, ou até mesmo a possibilidade de comer ou de ter um teto. A gente chega lá para oferecer condições mais dignas para essas pessoas. Para quem sente realmente esse desejo, eu aconselho: siga o que o coração está te dizendo.
Este conteúdo é fruto de uma parceria entre o Mundo Negro e Médicos Sem Fronteiras. Quem quiser conhecer mais o trabalho de MSF, ou tem interesse em trabalhar na organização, pode visitar o site oficial: msf.org.br.


