Mundo Negro

Criptomoeda por post pró-Flávio usa vídeo de crianças de Uganda

Foto: reprodução redes sociais

Site promete tokens a quem compartilhar conteúdo pró-Flávio Bolsonaro; especialista compara modelo aos campeonatos de cortes que condenaram Marçal

Um site de venda de criptomoedas lançou na terça-feira (6) um esquema que distribui tokens, ativos digitais semelhantes a moedas virtuais, a usuários que compartilharem nas redes sociais a mensagem B22 e vídeos que pedem voto em Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência no segundo turno, marcado para 25 de outubro. A iniciativa foi revelada pela Folha de S.Paulo, em reportagem da jornalista Patrícia Campos Mello, e repercutida pela rádio CBN nesta quinta-feira (8).

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Parte da divulgação é feita pelo perfil Hyperskids Africa, que reúne cerca de 12,9 milhões de seguidores no Instagram e arrecada recursos para construir casas para crianças em Kampala, capital de Uganda. Em um vídeo que já soma cerca de 2 milhões de visualizações, crianças ugandenses aparecem dançando com camisetas amarelas com a inscrição “B22 token” e cantam “vota, vota, confirma, 22 é Bolsonaro”.

Crianças pedem confiança em Nikolas, Flávio e Marçal

No material, as crianças pedem ao público que confie em Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro e Pablo Marçal e afirmam que o objetivo do token é ajudar o Brasil. Segundo o site, parte da venda da criptomoeda seria destinada a financiar projetos para as crianças de Uganda. A página se apresenta como um movimento que une o voto 22 ao apoio à construção de casas para o grupo.

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De acordo com a plataforma, o usuário que publicar o projeto nas redes sociais e mostrar que participa da comunidade B22 recebe tokens, que podem gerar ganhos financeiros caso a moeda se valorize. Pablo Marçal comentou duas vezes na publicação das crianças, uma delas com o número 22 e outra com a frase “bora meus amigos”.

Idealizador fala em levar eleitores de Lula a compartilhar

O projeto foi idealizado por Kevim Flores, que divulga a criptomoeda no X e no Instagram com imagens de urnas com o número 22 e o símbolo B22 e projeta valorização da moeda caso Flávio Bolsonaro vença a eleição. Em uma live com Nahuel Medina, na qual foi apresentado como sócio de Marçal, Kevim afirmou que a iniciativa faria pessoas que votaram no 13 compartilharem o B22 em suas redes. O cofundador do Hyperskids Africa, Sserunjogi Marvin, também participou da transmissão.

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Nas redes, Kevim chegou a escrever que pessoas viciadas em apostas estariam com dinheiro sobrando. Depois, publicou que sua comunicação pode ter soado agressiva, afirmou que o B22 não é uma aposta, que tem uma causa social real e que as transações em blockchain podem ser auditadas.

O site nega ter vínculo oficial com Flávio Bolsonaro, com o PL ou com a campanha. Segundo a plataforma, a distribuição dos tokens independe da preferência eleitoral de quem participa e o projeto não constitui doação eleitoral. Procurada pela CBN, a campanha de Flávio Bolsonaro não havia se manifestado até a publicação da reportagem da rádio.

Lei proíbe propaganda eleitoral paga na internet

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O artigo 57-C da Lei das Eleições proíbe qualquer tipo de propaganda eleitoral paga na internet, com exceção do impulsionamento de conteúdo identificado como tal e contratado apenas por partidos, coligações, candidatos e seus representantes. A legislação também veda a oferta de vantagem econômica, direta ou indireta, a quem publicar conteúdo político-eleitoral, seja por meio de competição, ranking ou premiação.

O advogado especialista em direito eleitoral Hélio Silveira afirmou à Folha que o mecanismo segue a mesma lógica e a mesma estrutura dos campeonatos de cortes usados por Pablo Marçal na campanha à Prefeitura de São Paulo em 2024, ao oferecer incentivo financeiro para que as pessoas divulguem um candidato.

Marçal foi condenado pela Justiça Eleitoral de São Paulo em abril de 2025 por propaganda antecipada, abuso de poder econômico e gasto ilícito justamente por causa desses campeonatos, que pagavam usuários para publicar cortes de vídeos com a hashtag #prefeitomarçal. A decisão o tornou inelegível por oito anos e foi a segunda condenação desse tipo contra ele.

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A divulgação do B22 ocorre a pouco mais de duas semanas do segundo turno. Até a publicação desta nota, não havia registro de manifestação da Justiça Eleitoral sobre o caso.

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