O militar franco-haitiano comandou dezenas de milhares de soldados durante a Revolução Francesa, tornou-se o oficial negro de maior patente já registrado em um exército ocidental até então e inspirou romances do próprio filho, o escritor Alexandre Dumas.
Thomas-Alexandre Dumas nasceu em 25 de março de 1762, na cidade de Jérémie, colônia francesa de Saint-Domingue, hoje Haiti, filho de Marie-Cessette Dumas, mulher negra escravizada, e do nobre francês Alexandre-Antoine Davy de la Pailleterie. Levado à França pelo pai em 1776, aos 14 anos, tornou-se homem livre e recebeu educação típica de filho de aristocrata, ingressando no Exército francês em 1786, aos 24 anos, como soldado raso e usando o sobrenome da mãe.
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Dumas se engajou nos ideais republicanos assim que a Revolução Francesa começou, e sua trajetória militar acelerou junto com o novo regime. Em 1792, tornou-se tenente-coronel da Legião Negra, unidade formada por homens livres de cor. No ano seguinte, aos 31 anos, foi promovido a general de brigada e, semanas depois, a general de divisão, assumindo o comando-em-chefe do Exército dos Pirineus Ocidentais e, na sequência, do Exército dos Alpes, à frente de mais de 50 mil soldados. A vitória na abertura das passagens alpinas viabilizou o avanço francês na Segunda Campanha Italiana contra o Império Austríaco.
Foi nesse período que Dumas recebeu dos inimigos austríacos o apelido de Schwarzer Teufel, o Diabo Negro, em referência à sua força em combate. Em março de 1797, ao deter sozinho um esquadrão austríaco em uma ponte sobre o rio Eisack, na região do Tirol, ganhou de Napoleão Bonaparte a alcunha de Horácio Cocles do Tirol, numa referência ao herói romano que salvou Roma sozinho em uma ponte.
Em 1798, Dumas assumiu o comando da cavalaria francesa na expedição napoleônica ao Egito. As divergências com Bonaparte já vinham de campanhas anteriores, quando o general se posicionou contra saques cometidos por tropas francesas, e se aprofundaram durante a campanha egípcia. Em 1799, ao retornar à França, o navio em que viajava enfrentou uma tempestade e foi forçado a atracar em Taranto, no Reino de Nápoles, então hostil à França. Dumas foi capturado e mantido preso por quase dois anos, em condições que comprometeram permanentemente sua saúde, incluindo perda parcial da visão.
Ele só foi libertado em 1801, após a intervenção militar francesa na região. De volta à França, encontrou um cenário político transformado. Napoleão, então cônsul, restabeleceu a escravidão em colônias francesas a partir de 1802 e editou uma série de decretos que restringiam direitos de pessoas negras e mestiças, incluindo a proibição de ingresso no Exército. Dumas foi alvo direto dessa reviravolta, teve pedido de pensão negado e nunca recebeu reconhecimento oficial pelos anos de cativeiro. Chegou a ser apagado de registros visuais da campanha egípcia, substituído por um oficial branco em uma pintura encomendada sobre a tomada do Cairo.
Debilitado pelas sequelas do cativeiro e por dificuldades financeiras, Thomas-Alexandre Dumas morreu em 26 de fevereiro de 1806, em Villers-Cotterêts, aos 43 anos. Deixou a esposa, Marie-Louise Labouret, e três filhos, entre eles Alexandre Dumas, que tinha apenas quatro anos quando o pai morreu e cresceu ouvindo relatos sobre seus feitos. O escritor viria a se tornar um dos nomes mais lidos da literatura francesa, autor de “Os Três Mosqueteiros” e “O Conde de Monte Cristo”, romances que incorporam elementos da trajetória paterna, da ascensão heroica à queda em desgraça diante de um poder maior.
A biografia “The Black Count”, do jornalista americano Tom Reiss, reconstituiu em detalhes a vida do general francês e venceu o Prêmio Pulitzer de biografia em 2013, contribuindo para resgatar do esquecimento histórico um dos militares de maior patente ocupados por uma pessoa negra em um exército europeu até hoje.