Clementina de Jesus, a voz ancestral que o Brasil descobriu aos 63 anos

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Clementina de Jesus, a voz ancestral que o Brasil descobriu aos 63 anos
Foto: Hipólito Pereira

Empregada doméstica por mais de 20 anos, cantora se tornou maior referência de samba, vissungos e partido-alto.

Não existe idade certa para o reconhecimento chegar, e a trajetória de Clementina de Jesus prova isso da forma mais dura possível, já que ela só subiu a um palco pela primeira vez aos 63 anos, depois de passar mais de duas décadas trabalhando como empregada doméstica, e ainda assim se tornaria a maior referência do samba, dos vissungos, das ladainhas religiosas e dos partidos-altos no Brasil. A data de 19 de julho marca 39 anos de sua partida, ocorrida em 1987, no Rio de Janeiro, em decorrência de complicações de um derrame.

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Neta de pessoas escravizadas em uma fazenda de café do Vale do Paraíba por parte de mãe, e de negros alforriados por parte de pai, Clementina de Jesus da Silva nasceu na comunidade do Carambita, periferia da cidade de Valença, no sul do estado do Rio de Janeiro, em 7 de fevereiro de 1901. A mãe, Amélia de Jesus dos Santos, era parteira, lavadeira e rezadeira, e o pai, Paulo Batista dos Santos, trabalhava como pedreiro, carpinteiro, mestre de capoeira e violeiro, ofícios que atravessavam tanto o trabalho manual quanto a tradição musical e religiosa da família. Foi com a mãe que Clementina aprendeu, ainda criança, pontos de jongo, cantos de trabalho, ladainhas e partidos-altos, além de rezas em línguas de matriz banta, um repertório absorvido inteiramente por transmissão oral, sem qualquer contato com formação musical formal.

Aos oito anos, a família se mudou para o Rio de Janeiro, primeiro para Jacarepaguá e depois para o bairro de Oswaldo Cruz, onde Clementina acompanhou de perto o surgimento e o desenvolvimento da escola de samba Portela, frequentando desde cedo as rodas de samba da região. Em 1940, já casada, mudou-se para a Mangueira, e seguiu vivendo à margem dos palcos por mais duas décadas, trabalhando como empregada doméstica e criando as filhas sozinha, sem qualquer perspectiva de carreira artística à vista.

O atraso no reconhecimento não resultou do acaso, mas do lugar social ocupado por uma mulher negra, pobre e trabalhadora doméstica em um Brasil que historicamente reservava os palcos da música popular a outro perfil de artista. A mudança começou em 1963, quando o produtor e compositor Hermínio Bello de Carvalho a ouviu cantar em uma festa na Penha e, mais tarde, reencontrou-a na inauguração do bar Zicartola, ponto de encontro de sambistas no Rio de Janeiro. Impressionado com a potência da voz dela, Hermínio a convidou para o projeto “O Menestrel”, onde Clementina estrearia profissionalmente em 1964, já aos 63 anos, ao lado do violonista Turíbio Santos. No ano seguinte, em 1965, ela integrou o elenco do espetáculo “Rosa de Ouro”, com direção de Hermínio Bello de Carvalho e Kléber Santos, dividindo o palco com Araci Cortes, Elton Medeiros, Paulinho da Viola e Nelson Sargento, entre outros nomes que viriam a se tornar centrais no samba carioca. O sucesso do espetáculo gerou dois álbuns ao vivo e projetou definitivamente o nome de Clementina para o público nacional.

A partir da estreia, o repertório de Clementina se revelou em toda a sua extensão e diversidade. Em 1966, ela gravou o primeiro disco solo, intitulado “Clementina de Jesus”, pela gravadora Odeon, reunindo jongos, corimás, sambas e partidos-altos, com destaque para as faixas “Cangoma me Chamou” e “Barracão É Seu”, esta última um dueto de quase sete minutos marcado por dezesseis improvisos poéticos. Em 1968, ela participou do LP “Gente da Antiga”, produzido por Hermínio Bello de Carvalho, ao lado de Pixinguinha e João da Baiana, considerado até hoje um dos registros históricos mais importantes da música popular brasileira. Já em 1982, ao lado das cantoras Tia Doca e Geraldo Filme, Clementina gravou o disco “O Canto dos Escravos”, reunindo vissungos, cantos de trabalho entoados em dialeto banto por pessoas escravizadas de origem benguela nas minas de Diamantina, em Minas Gerais, cantos que haviam sido recolhidos décadas antes pelo filólogo Aires da Mata Machado Filho e que, sem esse tipo de registro sonoro, correriam risco real de desaparecer. Ela também emprestou a voz à faixa “Escravos de Jó”, no álbum “Milagre dos Peixes”, de Milton Nascimento, lançado em 1978. Ao todo, Clementina gravou cinco discos solo e emprestou a voz a treze LPs entre trabalhos próprios e participações.

O reconhecimento institucional viria em vida, ainda que tardio, com uma homenagem em espetáculo no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1983, promovida pelo então secretário de Cultura do estado, Darcy Ribeiro, e que reuniu nomes como Paulinho da Viola, João Nogueira, Elizeth Cardoso, Beth Carvalho e Gilberto Gil, acompanhados pela bateria da Estação Primeira de Mangueira, marcando a primeira vez que o Teatro Municipal abriu as portas para o samba. Em 1985, ela recebeu do governo francês, das mãos do ministro da Cultura Jack Lang, a Comenda da Ordem das Artes e Letras, em cerimônia que contou com a presença de Jorge Amado, Caetano Veloso e Milton Nascimento. Um Ciep no bairro de Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro, leva o nome dela até hoje, e sua trajetória foi reunida no livro “Quelé, a Voz da Cor”, lançado em 2017 pela Civilização Brasileira após mais de seis anos de pesquisa, com depoimentos de Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Hermínio Bello de Carvalho e Beth Carvalho, entre outros.

Clementina também é conhecida como Quelé, corruptela carinhosa do próprio nome, e como Rainha Ginga, em referência à soberana angolana Nzinga, símbolo histórico de resistência ao colonialismo português em Angola. Há ainda uma leitura simbólica possível para esse apelido, que vale como interpretação e não como origem histórica comprovada do nome, já que nenhuma fonte confirma ligação direta entre os dois termos: no candomblé, o quelê é o colar sagrado que liga o iniciado ao próprio orixá, funcionando como proteção e conexão com a ancestralidade. Não é exagero enxergar Clementina de Jesus cumprindo, para o samba brasileiro, papel semelhante ao daquele colar, o de guardiã que atravessou a vida inteira carregando e protegendo uma memória negra que, sem ela, teria se perdido.

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