Mundo Negro

Chimamanda Ngozi Adichie fala pela primeira vez sobre a morte do filho e cobra investigação: “Apenas a verdade serve”

Foto: Pari Dukovic/ The New Yorker

A escritora nigeriana publicou carta ao conselho do hospital Euracare exigindo que o inquérito sobre a morte do filho de 1 ano não seja interrompido.

Chimamanda Ngozi Adichie publicou neste sábado, 14 de junho, nas redes sociais, uma carta que havia enviado ao conselho de administração do Hospital Euracare Multi-Especialidades, em Lagos, Nigéria, acusando o estabelecimento de negligência médica na morte do filho Nkanu Nnamdi, de 1 ano e 9 meses, e de trabalhar para impedir que um inquérito judicial apure as circunstâncias do óbito. A publicação, dividida em quatro partes no Instagram e no Facebook, representa o primeiro pronunciamento público da escritora sobre o caso desde a morte da criança, em 7 de janeiro de 2026. A escritora justificou a decisão de tornar o documento público com uma frase direta: “silenciar sobre a maldade da Euracare é habilitá-la.”

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O Euracare, em comunicados divulgados desde janeiro, nega irregularidades. O hospital afirmou que o atendimento seguiu padrões internacionais, que a criança chegou à unidade em estado crítico e que mantém “compromisso com a transparência perante todas as autoridades competentes.” O caso está sob apreciação judicial e nenhum inquérito foi concluído até o momento.

O que aconteceu com Nkanu

Nkanu era o gêmeo mais velho dos dois filhos que Adichie e o marido, o médico Ivara Esege, tiveram por gestação por substituição em 2024. Segundo a escritora, a criança ficou doente durante as férias de Natal da família em Lagos e foi internada no Hospital Pediátrico Atlantis. Diante da gravidade do quadro, a equipe médica decidiu transferi-la para os Estados Unidos, onde, de acordo com Adichie, uma equipe do Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, aguardava para recebê-la.

Antes da viagem, no dia 6 de janeiro, Nkanu foi encaminhado ao Euracare para a realização de uma ressonância magnética, uma punção lombar e a inserção de um cateter venoso central, procedimentos que, segundo a família, eram preparatórios para o transporte. Para que a criança ficasse imóvel durante a ressonância, foi necessário submetê-la à sedação. O anestesista responsável foi o Dr. Titus Ogundare.

Ainda no dia 6, Adichie afirma ter visto o diretor médico do hospital, Dr. Tosin Majekodunmi, correr em direção ao laboratório de cateterismo onde Nkanu se encontrava. Na carta, ela escreve que Majekodunmi lhe disse, naquele momento, que o anestesista havia dado ao filho “propofol demais” — e acrescenta que “essas foram suas palavras exatas.” O propofol é um sedativo utilizado em procedimentos cirúrgicos e diagnósticos; em dosagem inadequada, pode causar parada respiratória.

Segundo o relato de Adichie, Nkanu entrou em parada cardiorrespiratória e, por não estar sendo monitorado continuamente, a complicação não foi identificada a tempo, resultando no que ela descreve como “lesão cerebral hipóxica”, que se manifestou como convulsões após a reativação dos batimentos cardíacos. A criança nunca recuperou a consciência, segundo a família, e foi declarada morta às 8h18 da manhã do dia 7 de janeiro de 2026.

A cadeia de irregularidades relatada por Adichie

Na carta, Adichie descreve uma série de condutas do hospital que, segundo ela, agravaram a situação após a morte do filho. No dia 8 de janeiro, afirma ela, o diretor médico visitou a família na residência deles, no bairro de Ikoyi, Lagos, e “assumiu total responsabilidade pelos erros”, prometendo enviar os prontuários médicos de Nkanu e relatórios de todos os profissionais presentes no laboratório até as 14h do dia seguinte. Segundo Adichie, “nada nos foi enviado no dia seguinte.”

No dia 9, a cunhada da escritora, Dra. Anthea Esege Nwandu, médica, reuniu-se com o anestesista e o diretor médico no hospital. De acordo com o relato de Adichie, o Dr. Ogundare “parecia amplamente indiferente; ele continuava sorrindo e ajustando o ar-condicionado, como se nada de importante tivesse acontecido.” A escritora afirma que outro funcionário presente no laboratório na hora da intercorrência descreveu como “incompreensível” o fato de Ogundare ter removido o oxigênio de Nkanu durante o procedimento.

Quando os advogados da família solicitaram formalmente os prontuários médicos, o Euracare recusou a entrega, alegando, segundo Adichie, que o pedido não estava “em conformidade com as leis relevantes”, mas sem indicar quais. Os documentos, enviados após novos atrasos, chegaram incompletos. A escritora aponta como especialmente grave a ausência do relatório do anestesista: “o radiologista intervencionista, em seu relatório, referia-se ao relatório do anestesista. Mas NÃO havia relatório do anestesista.” A causa da morte registrada na certidão de óbito também é contestada pela família: o hospital indicou meningite bacteriana e fúngica, diagnóstico que Adichie afirma “não ter respaldo em evidência médica”, já que Nkanu “estava consciente, conversando e interativo” quando chegou ao Euracare naquela manhã. Em nota, os advogados do hospital se referiram à morte de Nkanu como uma “disputa”, linguagem que Adichie descreve na carta como “estarrecedora em sua falta de coração.”

A escritora relata ainda ter descoberto, após os fatos, que o Dr. Ogundare teria sido negligente no atendimento de outra criança, que precisou ser transportada de emergência ao Reino Unido, e que teria sido demitido de um hospital anterior antes de ser contratado pelo Euracare. Essas alegações não foram confirmadas de forma independente.

O inquérito e a disputa judicial

O próprio Euracare foi quem solicitou a instauração do inquérito do legista em janeiro, citando, segundo Adichie, “rumores de negligência.” Um inquérito dessa natureza, no sistema jurídico nigeriano, é uma investigação judicial pública voltada a determinar as causas e circunstâncias de uma morte. Não é um processo penal e não estabelece culpa, mas produz um registro oficial dos fatos.

O inquérito estava previsto para ter início em 14 de abril. Adichie afirma que o hospital passou a adotar “táticas de atraso”, com advogados “fingindo não ter documentos e discutindo sobre protocolos já estabelecidos.” O desdobramento seguinte foi o Euracare ingressar com ação no Tribunal Superior do Estado de Lagos pedindo a suspensão do processo. Em 26 de maio, o Tribunal Superior concedeu ao hospital autorização para contestar a jurisdição do Tribunal do Legista e determinou a suspensão das investigações enquanto o pedido de revisão judicial não for julgado. O inquérito foi remarcado para 8 de outubro de 2026.

Reagindo ao movimento, o Procurador-Geral do Estado de Lagos, Lawal Pedro, e o Legista-Chefe do estado apresentaram objeção preliminar ao Tribunal Superior, descrevendo a ação do hospital como “incompetente, prematura e abuso de processo.” Adichie questiona na carta a contradição entre o pedido original do hospital e sua postura atual: “Foi a Euracare que primeiro solicitou um inquérito. Se a Euracare se importa com a verdade, por que criar atrasos e distrações e agora, finalmente, tentar parar um inquérito?”

A escritora relata ainda que um membro de alta hierarquia do grupo proprietário do hospital enviou um recado à sua família desaconselhando que ela fosse a público ou buscasse a via judicial, sob o argumento de que processos judiciais são competitivos e que seu nome poderia “ser arrastado pela lama.” Na carta, Adichie descreve a mensagem como “manipuladora e implicitamente ameaçadora” e responde: “este ameaçador não sabe com que ferocidade amamos nosso filho.”

“A falta de coragem moral exibida pela Euracare é vergonhosa”

Na carta, Adichie dedica vários parágrafos a descrever quem Nkanu era antes de detalhar qualquer alegação contra o hospital. Ela escreve que o filho “corria até mim e começava a massagear meu joelho com carinho, dizendo: mamãe, desculpa”, que “subia aleatoriamente no sofá, ficava de pé e me dava um abraço apertado”, que, ao ganhar um brinquedo, “imediatamente queria outro para dar ao irmão.” Um parente, segundo ela, o descreveu como “simplesmente um camarada alegre.”

O impacto da perda sobre os outros filhos do casal também é descrito na carta. A filha mais velha, de dez anos, “fechou-se.” O gêmeo sobrevivente, segundo Adichie, “pergunta frequentemente pelo irmão” e, certo dia, apontou para um conjunto de pijamas iguais e disse: “Este é do KanKan.” A escritora resume a extensão da perda em uma frase: “Perdemos o presente e perdemos o futuro.”

O encerramento da carta é dirigido ao presidente do conselho do Euracare e não deixa margem para interpretação: “A falta de coragem moral exibida pela Euracare é vergonhosa.”

Desdobramentos

Com o inquérito suspenso até outubro, a próxima etapa depende do julgamento do Tribunal Superior de Lagos sobre a competência do Tribunal do Legista para conduzir o processo. A objeção apresentada pelo Procurador-Geral do estado, que pede a rejeição da ação do hospital, ainda não tem data para ser apreciada.

Adichie, que mora nos Estados Unidos mas estava em Lagos durante as festas de fim de ano quando o filho adoeceu, não indicou planos de pronunciamentos adicionais. Na publicação deste sábado, pediu orações e agradeceu as manifestações de apoio recebidas de todo o mundo com uma frase: “Este peso é pesado demais.”

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