
Arquitetos negros retratam as riquezas afro, estabelecendo novas narrativas e oportunidades para estudantes de arquitetura, designers e artistas afro-brasileiros
Notícias Relacionadas



“Legado” é a palavra que tem permeado as narrativas do povo negro nos meios corporativos. Esse movimento, que contribui para o processo de compreensão da nossa história sob a ótica da participação na construção dos valores materiais que nos cercam, tem promovido uma mudança sistêmica e profunda na sociedade.
Os arquitetos Alexandre Salles, Yara Beatris Elias e Nicholas Oher, Além da galerista e artista plástica Camila Alcântara, são exemplos fundamentais de profissionais que participam desse novo momento — que escancara uma potência de conhecimento com assinatura autêntica, ancestral e marcada por muita luta.
“O design, a arte e a arquitetura negra não são novidade: são parte essencial da cultura brasileira e da história do projeto no país. O que se propõe é que essa presença não se esgote em ciclos ou recortes de ocasião, mas que seja tratada como parte estrutural da paisagem criativa contemporânea”, afirma o arquiteto Alexandre Salles, mestre em semiótica urbana e referência como pesquisador das relações entre arquitetura, cultura e identidade.
“Precisamos de referências e inspirações para atuar com arquitetura e arte. São essas bases que nos ajudam a criar novas formas de expressão sobre o que queremos comunicar. A representatividade é essencial, pois é o estímulo necessário para seguir em busca de um sonho. tendo como exemplo quem chegou antes e mostrou que era possível”, ressalta Yara Elias, arquiteta e urbanista, técnica em design de interiores e edificações, e pós-graduada em engenharia civil.
“Nossa prática é fluida, afetiva e comprometida com um design autêntico. Representatividade, para nós, é a possibilidade de sermos contadores de histórias, traduzindo afetos em forma, cor e matéria. A OHMA existe para afirmar a beleza da diversidade e a organicidade de um país que pulsa em muitas vozes”, pontua Nicholas Oher, arquiteto e urbanista cuiabano, especialista em cores e fundador da OHMA.
“A representatividade na arte contemporânea é fundamental. Eu me enxergo trilhando esse caminho através do meu trabalho como galerista e como artista também. O mercado e o sistema da arte como um todo ganham muito com a nossa presença e o nosso frescor”, contextualiza Camila Alcântara, cofundadora da Lateral Galeria Contemporânea de Arte.
O reconhecimento material e o acesso a bens de consumo continuam sendo pautas centrais para profissionais negros, que frequentemente veem sua história narrada por pessoas brancas que, historicamente, se apropriaram de seu conhecimento, sua arte e, consequentemente, de sua riqueza.
Essa invisibilização não apenas apagou nomes e trajetórias, mas também resultou na ausência de reconhecimento financeiro adequado pelos serviços prestados. A exploração contínua da mão de obra desses talentos, que ainda hoje precisam furar a bolha e demonstrar excelência acima da média para serem reconhecidos por seus feitos, tem promovido desigualdades e atrasos na economia brasileira.







O que a história conta
Do período colonial até a contemporaneidade, arquitetos, artesãos e mestres de ofício negros foram responsáveis por erguer parte significativa do patrimônio arquitetônico brasileiro — de igrejas e casarões coloniais a obras de infraestrutura que ainda hoje estruturam cidades. Esses profissionais, muitas vezes invisibilizados nos registros oficiais, foram os verdadeiros construtores de riquezas que sustentaram o desenvolvimento econômico e cultural do país.
É fato que arquitetos negros potencializam a arte e a cultura afro-brasileira, movimentam a economia do país e promovem reconhecimento cultural para as riquezas produzidas no Brasil. Mas, como reafirma o arquiteto Salles: “falar sobre a presença — ou a ausência — de profissionais negros em espaços curatoriais não é apenas uma questão estatística. É, acima de tudo, uma oportunidade de refletir sobre continuidade”.
Dar visibilidade a essa contribuição não é apenas uma reparação histórica, mas também um passo essencial para as novas gerações se consolidarem na área. O Programa Aproxima, idealizado por Caroline Martins e Lourenço Gimenes, tem como objetivo promover a diversidade e a inclusão étnico-racial na arquitetura. A iniciativa integra um conjunto de ações voltadas para que a profissão, ainda elitista e majoritariamente ocupada por profissionais brancos, abra espaço para o novo — oportunizar estágio rotativo e estruturado a estudantes negros de arquitetura.
Toda vez que profissionais negros ascendem socialmente e têm a oportunidade de compartilhar seus saberes, a sociedade se beneficia, trilhando um caminho que conduz ao que de fato o Brasil representa: um país de primeiro mundo.
Notícias Recentes


