Mundo Negro

“Abolicionista ou escravocrata?” O show de Elisa Lucinda no Roda Viva

Elisa Lucinda durante o Roda Viva

No livro do Brasil, a escravidão está há pouquíssimas páginas atrás da nossa história contemporânea. É um passado intercalado com o presente. Isso explica porque os debates sobre questões raciais, como o que foi apresentado no programa Roda Viva na noite de ontem, 11 de dezembro, são sempre intensos e acalorados. Fomos silenciados por séculos. Há muito a ser dito, corrigido, enaltecido e principalmente questionado e contestado.

A mesa foi composta pela Alexandra Loras , o antropólogo e pesquisador da USP – Universidade de São Paulo, Hélio Menezes,  a pesquisadora de políticas públicas da USP  Natália Neris e atriz e escritora Elisa Lucinda, que levou as redes sociais a loucura com suas pontuações poderosas, destemidas e carregadas de uma altivez de quem sabe da sua importância e dos seus antepassados para a construção da história do Brasil. Tanto isso é verdade, que ela disse, com toda a honestidade, que esperava  ser o centro da roda, local onde fica o principal entrevistado do programa semanal da Cultura. “Posso falar uma coisa”, disse Elisa encarando o mediador desastroso, Augusto Nunes. “Eu achei que o programa era comigo”, completou a poetisa sabendo que teria legitimidade para estar lá.

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Essa foi algumas das AFROntas de Elisa, que prova como temos que ouvir quem tem história para contar, quem viveu em outras épocas e tem uma capacidade de análise em primeira pessoa que são preciosíssimas, já que o negro como contador da sua própria história é algo recente.

Lucinda narrou a sua indignação com a história de uma amiga branca que tinha orgulho em dizer que as empregadas trabalham há gerações em sua família. “A filha da minha empregada é juíza. Aqui na minha casa não tem essa coisa de continuar a obra da escravidão não.”, destacou a atriz, sobre como ela mesma lida com quem trabalha para sua família e ainda trouxe questões de privilégio branco, resquícios escravocratas presentes no cotidiano para debate.

“Há quem ainda reproduz a escravidão (…) Há cotas para brancos,, nunca tive um gerente negro. A gente tem que parar de não ver esse assunto (racismo). Tem uma hora que o tronco da história tem uma corda que bate na mão de cada um de nós, e nessa hora a gente tem que saber que lado a gente está, se você é um abolicionista ou escravagista?”, finalizou Elisa.

O antropólogo Hélio Menezes foi um outro grande destaque da mesa, trazendo números, nomes, se mostrando bem preparado para atualizar conceitos sobre negritude brasileira, sem esquecer, por exemplo, da Lei 10.639, de 10 anos, que trata do ensino de cultura afro-brasileira e africana nas escolas. “É função da escola educar também para diversidade racial”.

Natália Neris levantou a questão do genocídio negro, trazendo dados do recém divulgado Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência, que mostra que jovens negras (mulheres de 15 a 29 anos) tem o dobro de chances de serem assassinadas, comparado com brancas na mesma faixa etária. Ela ainda falou da página do Facebook que administra a Preta Acadêmica. “Recebemos muitos depoimentos de mulheres negras que tiveram dificuldades para fazer mestrado e doutorado, mas elas nunca falam de meritocracia”, explicou Neris.

Convidamos negros, chamamos o Pelé 

A mediação do jornalista Augusto Nunes, que também é colunista da Veja, e que aliás tomou o lado de Willian Waack depois do escândalo do “coisa de preto”, mostrou não só uma falta de preparo para lidar com o assunto, o que já mostra subestimação em relação ao tema e entrevistados,  mas  também não tentou nem disfarçar suas ponderações carregadas de argumentos  problemáticos como  “a turma do politicamente correto”, “não chamamos negros porque são muito poucos” ou “ como fica  a situação dos brancos pobres”, provocação padrão de quem quer deslegitimar articulações em busca de igualdade.

Pelé, Lázaro Ramos e Hélio de La Penha, foram os nomes que ele conseguiu lembrar de convidados negros chamados para o centro da roda, quando Elisa Lucinda questionou sobre a presença de negros no programa.

A alta movimentação nas redes sociais durante o Roda Viva serve para provar que falar de questões raciais desperta interesse, mesmo fora do mês de novembro. Há tanto para se discutir, debater e aprender, que qualquer emissora que decidir ter um programa sobre negritude, não terá problemas de pauta e nem audiência.

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