Imagem feita por Eurico Dantas em 1976 mostra Cartola logo após blitz em que o filho do sambista foi agredido e preso por policiais no Morro da Mangueira.
Uma das imagens mais compartilhadas de Cartola mostra o compositor sentado no chão de uma rua do Morro da Mangueira, no Rio de Janeiro, com uma viatura da polícia logo atrás. A fotografia, atribuída ao fotojornalista Eurico Dantas, foi feita em 20 de fevereiro de 1976 e costuma circular nas redes como registro de um protesto silencioso do sambista contra a repressão da ditadura militar ao samba. Os relatos publicados pela imprensa no dia seguinte, no entanto, apontam que a cena aconteceu depois de uma ação policial em que o filho de Cartola foi agredido e preso, e que o próprio compositor e parte da família também foram atingidos ao tentar intervir.
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Cartola tinha 67 anos e vivia um dos períodos de maior reconhecimento da carreira. Fundador da Estação Primeira de Mangueira, em 1928, e autor de sambas gravados por diferentes gerações de intérpretes, ele havia lançado o primeiro disco solo apenas dois anos antes, em 1974, e preparava o segundo álbum, que sairia ainda em 1976 com canções como “As Rosas Não Falam” e “O Mundo É um Moinho”.
Blitz no morro terminou com 60 pessoas detidas
De acordo com a reconstituição feita pelo pesquisador Lucas Lipka Pedron a partir das edições do Jornal do Brasil e de O Globo de 21 de fevereiro de 1976, policiais militares fizeram uma blitz no Morro da Mangueira, a pouco mais de uma semana do Carnaval, e levaram 60 moradores que estavam sem documentos, dos quais apenas um permaneceu preso. Na Rua Visconde de Niterói, perto do Palácio do Samba, a quadra da escola, os agentes abordaram o filho de Cartola, que estava em seu táxi.
Segundo os jornais, ele foi agredido no momento em que abria o porta-luvas para pegar os documentos. Cartola, Dona Zica, a filha Regina e uma neta tentaram interferir e também foram atacados pelos policiais, e o filho acabou detido. Eurico Dantas fotografou o compositor logo depois, sentado na rua, ao lado da viatura.
A cobertura da época não questionou a ação policial. As duas reportagens se limitaram a destacar que os agentes não haviam reconhecido Cartola, abordagem que Pedron interpreta como sinal de que a agressão a moradores comuns do morro não era tratada como notícia.
Imagem ganhou outra leitura nas redes
Com o passar dos anos, a fotografia passou a ser compartilhada com legendas que descrevem a cena como um protesto pacífico de Cartola contra a interrupção de ensaios ou desfiles da Mangueira pela polícia. Em janeiro de 2022, a própria escola publicou a imagem em suas redes com uma mensagem sobre o protesto do mestre depois de a polícia interromper um desfile da agremiação, associando a foto à história de resistência do samba.
As duas leituras se cruzam em um ponto. Antes da construção do Sambódromo, inaugurado em 1984, os ensaios e encontros das escolas aconteciam nas ruas e nas quadras das comunidades e eram alvo frequente de operações policiais, justificadas pelas autoridades com o argumento de que esses espaços favoreciam desordem, consumo de drogas e jogo ilegal. A blitz de fevereiro de 1976 aconteceu sob a ditadura militar, em um período em que a presença policial nos morros cariocas fazia parte da rotina de quem vivia ali.
Cartola completaria 118 anos no domingo
A história por trás da foto volta a circular às vésperas do aniversário de nascimento de Cartola, que completaria 118 anos neste domingo (11). Angenor de Oliveira nasceu em 11 de outubro de 1908, no bairro do Catete, e morreu em 30 de novembro de 1980, aos 72 anos. Dona Zica, companheira do compositor por quase três décadas, seguiu à frente da memória do casal até sua morte, em 2003, e a neta Nilcemar Nogueira criou o Museu do Samba, que reúne parte desse acervo no Rio de Janeiro.
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