De quatro em quatro anos, o eleitor brasileiro é convocado a tomar decisões profundas sobre o rumo do país. Contudo, para uma parcela expressiva da população periférica, o debate político muitas vezes parece distante até que se atente para as disputas que ocorrem no campo dos direitos sociais e da memória cultural. No cenário político atual, marcado pela polarização entre os projetos de reconstrução progressista e a extrema-direita articulada em torno do bolsonarismo ultraconservador, reemergem discursos autoritários que flertam abertamente com o uso da força institucional e a supressão de garantias fundamentais.
Nesse embate ideológico, a cultura popular produzida no chão dos terreiros, das favelas e das quadras das escolas de samba volta a se tornar um alvo prioritário. Governos e correntes políticas de inclinação autoritária sustentam uma narrativa que desqualifica o fomento público às artes populares, tratando o investimento em manifestações do povo preto e periférico como mero “gasto público desnecessário” ou instrumento de subversão moral.
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Essa manobra retira da cultura a proteção que é garantida pela Constituição e a coloca à condição de objeto administrativo, abrindo caminho para o controle estatal, a censura e o corte de recursos sem explicações. O que a população periférica e carnavalesca corre o risco de perder quando o poder é dado a um regime que flerta com o uso da força e enxerga a cultura popular não como direito e cidadania, mas como mero gasto e ameaça à ordem?
No ano de 2026, a G.R.E.S. Acadêmicos de Niterói foi alvo de duras críticas de políticos conservadores ao realizar um desfile contando a história do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, e em uma das alegorias representar as famílias conservadores em uma lata em conserva. A partir disso, o carnaval seguiu sofrendo ataques de políticos conservadores, como Douglas Ruas, que ainda como candidato à governador pelo Rio de Janeiro afirmou que o carnaval o desfile da Sapucaí deste ano foi o “maior ataque já visto à instituição sagrada que é a família”.
O carnavalesco Sidnei França em entrevista ao Site Mundo Negro reflete sobre o peso dessa provocação e como o povo precisa revisitar e encarar a história recente do Brasil.
“Levar um orixá para a Sapucaí é dizer que essa fé é parte do Brasil, e não está à margem dele”, diz Sidnei França, carnavalesco da Estação Primeira de Mangueira, historiador, professor e pesquisador da cultura popular brasileira, vem, há anos, colocando a fé e os orixás no centro das discussões e narrativas dos sambas-enredos da escola. Em 2027, a Mangueira terá como tema a religiosidade banto, os benzimentos e saberes de Mestre Sacaca e Oyá, senhora dos ventos e das transformações, com o título “Oyá por Nós”.
França defende a proteção de religiões de matriz africana e festas culturais do espaço público por meio de políticas públicas: “Quando uma autoridade trata o terreiro como ‘coisa do mal’, o recado chega na ponta: na pedra no portão, no ataque nas redes, na oferenda chutada na praia”. Ele diz que, enquanto jogar moedas para Exu antes de todo desfile é tão natural quanto respirar, algumas pessoas ainda têm medo de se mostrar; em resultado da falta de proteção do Estado, crimes de racismo religioso e a falta de conhecimento sobre a história africana, que ele defende ser ensinada nas escolas.
Essa discussão ainda chama a atenção para as ameaças constantes de privatizações e regras restritivas sobre espaços públicos e festas. França ressalta que os primeiros a serem prejudicados por políticas como essas são sempre o povo preto, pobre, de favelas e periferias. São eles que dependem do espaço público para possuir a liberdade religiosa.
“Quando pesquisei a herança banto para o desfile de 2025, isso apareceu o tempo todo. Do cais do Valongo às leis contra a “vadiagem”, que criminalizaram capoeira e samba, a cultura negra sempre foi empurrada para fora da rua. E mesmo assim ela insistiu”, diz o carnavalesco.

França relembra essas imposições em seu novo samba-enredo: “É a mesma história que aparece em Mestre Sacaca, cujo saber de cura da floresta foi tratado como coisa menor, e em Oyá, orixá de uma fé que ainda precisa lutar para ocupar a rua sem medo. Os enredos que venho fazendo na Mangueira falam disso: de quem o país empurrou para a margem e de como essa gente segue fazendo cultura. Hoje o mecanismo é mais sutil. Vem pela catraca, pela licença que só quem tem dinheiro consegue tirar, pela regra que proíbe o som e o tambor mas permite o evento pago”.
Segundo o profissional, o Samba, jongo, roda de capoeira e festas de santo nasceram na rua. Tirar a rua do povo é tirar a cultura do seu chão.
Natural da Zona Norte de São Paulo, Sidnei França construiu sua trajetória nas escolas de samba, unindo pesquisa histórica, criação artística e valorização das manifestações populares. Seu trabalho investiga especialmente a memória, a ancestralidade, a diáspora africana e as contribuições da população negra para a formação cultural brasileira. À frente da Mangueira, desenvolveu enredos dedicados à influência da cultura bantu na formação da sociabilidade carioca, às memórias ancestrais presentes na identidade da Amazônia Negra e ao fundamento afro-religioso de Oyá, presente na ideia da força feminina, reafirmando o Carnaval como espaço de produção de conhecimento, preservação da memória e resistência cultural.
A Mangueira é conhecida por seus desfiles com forte posicionamento político. França elenca seus carnavais preferidos para debater temas como história negra, liberdade e racismo:
“Fico com três que, cada um à sua maneira, falam de liberdade. O primeiro é 1988, “100 Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão?”. No centenário da Abolição, enquanto o país comemorava, a Mangueira perguntava se aquela liberdade tinha de fato chegado à favela. O segundo é 2000, “Dom Obá II – Rei dos Esfarrapados, Príncipe do Povo”, figura fundamental para entender o ativismo e a cidadania como práticas de resistência negra no Segundo Reinado. Respeitado e reconhecido por trabalhadores, marinheiros e pelas comunidades baiana e africanas do Rio de Janeiro, como liderança legítima e combativa. O terceiro é 2019, “História pra Ninar Gente Grande”. A escola recontou o Brasil pelos que os livros apagaram: indígenas, negros, mulheres, gente pobre. Fez isso com tanta verdade que virou referência dentro e fora da avenida. Venho honrando essa tradição contando a herança banto que fez do Rio uma ‘pequena África;, levando para a avenida Mestre Sacaca, curandeiro afro-indígena do Amapá que o Brasil mal conhecia; e agora cantando Oyá. São enredos pretos, que trazem para o centro uma parte do país que costuma ficar fora da história oficial”.
O carnavalesco ainda ressalta a importância da resistência do carnaval, sob o olhar dos foliões e trabalhadores. São meses de trabalho que vem antes da fatídica festa acontecer: costureiras, aderecistas, ferreiros, escultores, marceneiros, ritmistas e compositores. Em sua maioria, pessoas pretas e periféricas, que aprenderam o ofício dentro da escola e vive dele.
“Quando a cultura vira linha de corte no orçamento [por parte do governo], o primeiro a sentir é esse trabalhador. Quem vive o barracão sabe: a escola contrata menos, paga menos, e um saber artesanal que levou gerações para se formar começa a se perder. Para o folião, o efeito chega depois: menos ensaio aberto, menos atividade na quadra, menos lugar de encontro no bairro. Vê sua mais autêntica expressão cultural reprimida, isolando-o social e culturalmente”.
França relembra que o carnaval é expressão cultural garantida pela Constituição e é também economia: gira renda, turismo e emprego.
“Tratar isso como gasto é não entender o país que a gente é”, conclui.
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