Dr. Lucas Diniz avança no doutorado na USP com tese sobre inteligência artificial, face negra e diagnóstico infantil

0
Dr. Lucas Diniz avança no doutorado na USP com tese sobre inteligência artificial, face negra e diagnóstico infantil
Dr Lucas Diniz - Foto: Reprodução Instagram

O médico Lucas Diniz foi aprovado, no dia 24 de setembro, na qualificação do doutorado da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). A tese desenvolve uma ferramenta de inteligência artificial que analisa fotografias do rosto para ajudar a identificar mais cedo crianças com a síndrome de Crouzon. O estudo tem um cuidado raro na área: a maior parte dos participantes é de pessoas pretas e pardas. A defesa está prevista para 2027.

PUBLICIDADE

A pesquisa, orientada pelo professor Nivaldo Alonso, nasceu de uma lacuna antiga da medicina. “Os manuais de cirurgia com que a gente aprende foram construídos sobre medidas de rostos brancos europeus”, afirma Diniz. Ao longo do trabalho, ele percebeu que a inteligência artificial repete o mesmo problema. “A inteligência artificial olha para um rosto do jeito que foi ensinada a olhar, com uma régua feita a partir de um grupo só, e erra mais quanto mais escura é a pele. Se a máquina erra mais no nosso rosto, a pergunta deixa de ser estética e passa a ser de possibilidade de diagnóstico.”

Notícias Relacionadas


A síndrome de Crouzon faz os ossos do crânio se fecharem cedo demais, o que compromete o crescimento do rosto, a respiração e a visão da criança. A ferramenta não dá diagnóstico: ela aponta sinais que merecem a avaliação de um especialista, e a confirmação continua dependendo do médico e do exame genético. O ganho é de tempo. Segundo o pesquisador, essas crianças costumam passar por vários médicos antes de chegar a um centro especializado, enquanto a janela ideal para a cirurgia são os primeiros anos de vida.

Diniz reconhece o peso histórico de medir rostos negros. “Por muito tempo mediram a gente para tentar provar inferioridade, e eu sei disso quando escolho trabalhar com medida facial. O que muda é a finalidade, e muda quem está segurando o instrumento.” Ele lembra que quase todas as ferramentas de análise facial usadas na saúde foram treinadas em populações majoritariamente não negras, e que a maior parte dos estudos nem informa como esses sistemas funcionam em peles mais escuras. Na sua pesquisa, o desempenho da ferramenta é avaliado separadamente por grupo. “Isso permite saber onde a ferramenta funciona pior e corrigir antes que ela chegue ao público, em vez de descobrir depois que ela não funciona.”

O algoritmo foi desenvolvido com o apoio do professor André Dantas e de Bruno Oliveira. A banca de qualificação reuniu os professores Iolanda Tiberio, Leandro Luongo, Luiz Kowalski e Vera Lúcia Cardim.

Para o médico, a aprovação é também um marco pessoal. “Chegar até aqui num doutorado da Faculdade de Medicina da USP levando uma pergunta que nasceu da nossa realidade, e não apesar dela, é muito gratificante. Espero, de coração, que esse trabalho ajude famílias e crianças a chegarem ao diagnóstico certo e ao tratamento no tempo certo.”

Notícias Recentes

Participe de nosso grupo no Telegram

Receba notícias quentinhas do site pelo nosso Telegram, clique no
botão abaixo para acessar as novidades.

Comments

Previous article Quando a influência pesa
Silvia Nascimento é jornalista e diretora de conteúdo do site Mundo Negro, curadora digital e produtora de conteúdo especializada em questões étnicas. Pisciana contestadora ela é consciente do seu propósito e exerce sua liberdade por meio da escrita. Ah, ela ainda realizou o primeiro curso dedicado apenas black creators no Youtube. Contato: silvia@mundonegro.inf.br

No posts to display