Empreendedores negros transformam ingredientes brasileiros, memórias afetivas e técnicas gastronômicas em sabores que vão muito além dos tradicionais chocolate, morango e creme
O sorvete ganha novos significados quando ingredientes, territórios e histórias de vida entram na receita. De uma criação inspirada nas casas de farinha de um quilombo no Ceará a uma gelateria que aposta em frutas regionais em Natal, empreendedores de diferentes regiões do Brasil têm transformado a sobremesa gelada em um espaço de criatividade, identidade e negócio.
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No Dia do Sorvete, celebrado nesta quarta-feira (23), o Mundo Negro reúne seis estabelecimentos e projetos que ajudam a mostrar essa diversidade: Sorvete Caetanos, no Ceará; Gelado do Campo, em São Paulo; Lumi Creamy, também na capital paulista; Dois Tons Gelateria Artesanal, em Pernambuco; e Doce Sereia, no Rio Grande do Norte.
Caetanos – Ceará
Em Tururu, no Ceará, o gastrólogo e quilombola Joélho Caetano encontrou nas tradições alimentares de sua comunidade a inspiração para criar um sorvete de mandioca. Morador do Quilombo de Conceição dos Caetanos, ele desenvolveu o chamado Sorvete de Farinhada, que nasceu de uma pesquisa sobre a cultura alimentar do território.
A receita é feita à base de mandioca e não leva conservantes ou ingredientes industrializados. Para finalizar, recebe uma farofa doce preparada com farinha, coco, rapadura e manteiga de garrafa, elementos associados à tradição das casas de farinha da comunidade.
O projeto foi desenvolvido durante o Laboratório de Criação em Cultura Alimentar e Gastronomia da Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco, no Ceará. Mais do que uma nova combinação de sabores, a proposta de Joélho é utilizar a gastronomia como ferramenta de valorização dos saberes e práticas alimentares quilombolas.
A Caetanos Gelateria funciona em Conceição, no município de Tururu, e mantém a conexão entre o negócio e o território onde a receita foi criada.
Endereço: R. Telemar 625, Conceição dos Caetanos, Tururu-CE

Gelado do Campo – São Paulo
Na Barra Funda, em São Paulo, o chef glacier Francisco Sant’Ana se uniu ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) para criar a Gelado do Campo. A sorveteria foi inaugurada em maio de 2026, depois de quatro anos de parceria entre o movimento e a Escola Sorvete, comandada por Sant’Ana.
A proposta é trabalhar com ingredientes provenientes de assentamentos da Reforma Agrária, especialmente frutas da agricultura familiar. O cardápio é sazonal e inclui sabores como castanha de caju, pingado, nata com goiabada, abacaxi com capim-santo e limão com cidreira. Além dos sorvetes, o espaço vende cafés, sucos, doces, salgados e sanduíches.
Francisco Sant’Ana é chef glacier e fundador da Escola Sorvete, criada em 2015. Especialista em sorvetes artesanais, ele estudou na França e na Espanha e também foi professor da Carpigiani Gelato University, na Itália. Ao longo da carreira, participou de projetos de sorveterias no Brasil e no exterior.
A Gelado do Campo está instalada na Rua Brigadeiro Galvão, 130, na Barra Funda, e funciona de terça a domingo.

Lumi Creamy – São Paulo
Antes de ter duas lojas em São Paulo, Fabrício Luminato começou vendendo seus sorvetes em um isopor no Beco do Batman, na Vila Madalena. O confeiteiro, natural de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, comprou uma máquina durante a pandemia e passou a produzir os próprios sorvetes em casa.
A trajetória começou antes, com a venda de brownies em eventos de rap no Rio de Janeiro. Depois, Fabrício passou pela Gastromotiva e pelo Copacabana Palace e trabalhou como confeiteiro em São Paulo. Foi nesse período que criou um sorvete de manteiga de garrafa, receita que posteriormente se tornou uma das marcas de seu trabalho.
A primeira loja da Lumi Creamy foi aberta em 2024, em um espaço de apenas 7 metros quadrados no Beco do Batman. Atualmente, a marca também possui uma unidade na região da República, onde funciona a fábrica.
O cardápio aposta em combinações pouco convencionais. Entre as criações estão requeijão com bolo de rolo, manteiga de garrafa com doce de leite, chocolate com coentro, maçã do amor e “não é pistache”, feito com sementes de abóbora tostadas. Também há sabores como baunilha do Cerrado com flor-clitória.
A história da Lumi também ganhou destaque pelo caminho percorrido por Fabrício, que saiu das vendas ambulantes para transformar a produção artesanal em uma marca com duas unidades.

Dois Tons – Recife e Olinda
Em Pernambuco, Michelle Nascimento está à frente da Dois Tons Gelateria Artesanal, negócio que nasceu em meio à pandemia e hoje possui unidades em Recife e Olinda.
Criada na periferia de Jaboatão dos Guararapes, Michelle identificou uma oportunidade quando uma gelateria de Minas Gerais estava encerrando as atividades. Em 2020, comprou os equipamentos da empresa e começou a estruturar o próprio negócio. A primeira unidade da Dois Tons foi inaugurada em março de 2021, na Praça de Casa Forte, no Recife.
A expansão veio nos anos seguintes. Em 2022, a marca abriu um quiosque no Shopping Patteo Olinda. Em 2024, chegou ao RioMar Recife e, posteriormente, inaugurou uma segunda unidade na Zona Norte do Recife, no bairro do Espinheiro.
Em 2025, Michelle recebeu o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, na categoria Pequenos Negócios, representando Pernambuco. Atualmente, entre os sabores destacados pela marca estão pistache, cheesecake de frutas vermelhas e doce de leite.
A história da Dois Tons combina a formação de uma empreendedora que veio da periferia com a construção de uma empresa que passou a ocupar diferentes pontos da região metropolitana do Recife.

Doce Sereia – Natal
Na Vila de Ponta Negra, em Natal, a chef Gabriela Sales criou a Doce Sereia ao lado da irmã, Maria Alice Sales. A sorveteria foi inaugurada em fevereiro de 2025 com uma proposta artesanal e foco em frutas regionais.
O cardápio inclui sabores como umbu, seriguela, jabuticaba, pitanga e romã, além de opções tradicionais como pistache e doce de leite. A casa trabalha com bases, caldas, geleias e reduções produzidas pelas próprias sócias e utiliza o extrato das frutas para preparar os sorvetes.
A preocupação com o aproveitamento dos ingredientes também aparece nas receitas. Na versão de jabuticaba, por exemplo, a sorveteria utiliza tanto o sumo da fruta quanto uma geleia feita com as cascas. A casa também oferece opções sem açúcar e sem lactose, incluindo chocolate sem lactose.
Formada em Gastronomia, com pós-graduação em Nutrição e Alimentação Saudável pela PUC e mestrado em Antropologia pela UFRN, Gabriela reúne formação gastronômica e pesquisa sobre cultura e identidade em sua trajetória profissional. A chef também mantém trabalhos com mulheres da Vila de Ponta Negra.
A Doce Sereia fica na Rua Afonso Magalhães, na Vila de Ponta Negra, e segue apostando na combinação entre ingredientes regionais, produção artesanal e referências afetivas.

Ébanos Sorvete e Café – São Paulo
Comandada por Claudio Sales e Bruno Soares, a Ébanos Sorvete e Café nasceu da trajetória de Claudio, que começou a produzir picolés em casa e, posteriormente, transformou a experiência em um negócio especializado em sorvetes artesanais. A marca trabalha com dezenas de receitas autorais e mantém um cardápio que combina técnicas de confeitaria e ingredientes brasileiros.
Entre os sabores estão criações como banoffee, além de combinações menos convencionais, como caprese, feita com mascarpone, geleia de tomate e pistache. A proposta da Ébanos é fugir do repertório tradicional e explorar diferentes texturas, ingredientes e combinações em sorvetes produzidos artesanalmente.
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