Levantamento mapeou 150 canais que usam IA para romantizar a escravidão no Brasil e lucrar com anúncios, somando 80 milhões de visualizações.
Um vídeo publicado no YouTube com o título “O coronel que dividia a esposa com 7 escravos” ultrapassou 1,5 milhão de visualizações e recebeu mais de 1,5 mil comentários. A narração, gerada por inteligência artificial, situa o episódio em Minas Gerais, no ano de 1864, e apresenta nomes de personagens, propriedades e datas específicas, sem indicar qualquer fonte histórica. O YouTube sinaliza o uso de IA no material, mas isso não impede a circulação.
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O vídeo integra um levantamento da BBC News Brasil, assinado por Luiz Fernando Toledo e publicado em 25 de agosto, que identificou ao menos 150 canais dedicados a esse tipo de conteúdo. Juntos, eles somam cerca de 80 milhões de visualizações e mais de 1 milhão de inscritos, com produção em português, inglês, espanhol e francês, distribuída entre Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Espanha e França.
Outro exemplo mapeado pela reportagem acompanha a personagem fictícia Eulália Mendes de Albuquerque, casada com um rico proprietário de escravizados, que passaria a se relacionar sexualmente com um deles, chamado Tomé. O vídeo chega a afirmar que arqueólogos da USP teriam encontrado a ossada dos dois. Procurada pela reportagem, a universidade não encontrou registro de tal descoberta, e uma busca pelo nome da personagem mostra o mesmo enredo reproduzido, sem qualquer fonte, em outras páginas e até em inglês.
Variações da história do coronel, com mudanças de nomes, datas e países, foram publicadas por mais de 30 outros canais mapeados pela BBC News Brasil, mantendo sempre a mesma premissa e a promessa de revelar um episódio desconhecido da escravidão.
Nos comentários, uma pessoa escreveu “acredito sim, toda vida existiram belos canalhas”, tratando a história como fato, enquanto outra questionou a origem das informações com “quem registrou esses detalhes?”. Há também espectadores que reconhecem o conteúdo como ficção gerada por IA, caso de quem escreveu apenas “ChatGPT tá criativo mesmo”.
Os vídeos costumam ter cerca de uma hora de duração, com imagens que simulam fotografias de época e títulos construídos para gerar choque, como “O escravo gigante de olhos azuis que fez a sinhá enlouquecer” e “A escrava que engravidou do coronel e virou sinhá”. Segundo a reportagem, esse formato ganhou força primeiro nos Estados Unidos, há cerca de dois anos, e passou a ser reproduzido por canais brasileiros a partir de 2025.
A produção está ligada a um mercado de conteúdo gerado por IA voltado para monetização rápida, que especialistas chamam de AI Slop. A BBC News Brasil identificou o responsável por um dos canais, o criador de conteúdo Diego Souza, que soma quase 1 milhão de seguidores no Instagram. Ele confirmou administrar a página e disse que os vídeos sobre escravidão foram publicados apenas para atingir os requisitos mínimos de monetização do YouTube. “O conteúdo é usado apenas para monetizar. Depois que monetiza, é trocado o nicho”, afirmou. Os vídeos foram removidos do canal após o contato da reportagem.
Historiadoras consultadas pela BBC News Brasil apontam que esse tipo de narrativa recria estereótipos raciais e sexuais antigos. Para Keila Grinberg, da Universidade de Pittsburgh, “são mitos profundamente racistas e sexistas”. Já Lorena Telles, da Universidade Federal de São Paulo, descreve o material como “um apelo à sexualização e à erotização nas relações escravistas”.
Procurado pela reportagem, o YouTube afirmou tomar medidas contra canais que violam suas diretrizes de forma recorrente ou grave, incluindo desmonetização e encerramento de contas, mas não detalhou quais vídeos foram removidos. Após o posicionamento da plataforma, a BBC News Brasil refez a checagem dos 150 canais mapeados e constatou que cerca de 10% deles já não estavam mais no ar.
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