Fundado por taxistas negros em 1958, o Cruz da Esperança reuniu futebol de várzea, samba, capoeira, religiosidades de matriz africana e ações comunitárias na Casa Verde
O local onde funcionava o Samba do Cruz, na Casa Verde, zona norte de São Paulo, foi demolido nesta quarta-feira (29). A ação ocorreu após uma decisão judicial autorizar a reintegração de posse da área ocupada pelo Grêmio Esportivo e Recreativo (GRE) Cruz da Esperança, destinada à construção do Parque Municipal Campo de Marte.
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A demolição encerra as atividades no endereço onde diferentes gerações construíram relações por meio do futebol de várzea, do samba, da capoeira, das religiosidades de matriz africana e de ações comunitárias.
Após a decisão judicial, o coletivo reafirmou nas redes sociais a continuidade de sua história: “O Cruz vive e sempre viverá”.
Um território construído pela população negra
Fundado em 12 de outubro de 1958 por um grupo de taxistas negros, o Cruz da Esperança tornou-se uma referência cultural e esportiva da Casa Verde. Nos fins de semana, o clube recebia partidas de futebol de várzea e o Samba do Cruz, roda que reunia centenas de frequentadores e ajudava a financiar uniformes, campeonatos e a manutenção do espaço.
A comunidade integra um território chamado por pesquisadores e moradores da “Pequena África paulistana”. A denominação está relacionada à presença histórica da população negra na região ao longo do século 20, especialmente após processos de deslocamento de famílias negras das áreas centrais da cidade.
Ao longo dos anos, o espaço recebeu rodas de samba, bailes de samba-rock, capoeira, atividades religiosas, projetos sociais e encontros ligados ao cotidiano da comunidade. Para os organizadores, essas práticas não eram complementares ao clube: constituíam sua própria identidade.
Comunidade mobilizou mais de 26 mil assinaturas
Diante da ameaça de retirada, dirigentes, frequentadores, artistas, pesquisadores e representantes políticos iniciaram uma mobilização pela permanência do Cruz da Esperança no território.
Um abaixo-assinado em defesa do clube reuniu mais de 26 mil assinaturas. Entre as reivindicações estavam a preservação das atividades, a abertura de diálogo com o poder público e o reconhecimento do Cruz da Esperança como patrimônio cultural imaterial de São Paulo.
A comunidade também questionou o modelo de concessão do futuro Parque Municipal Campo de Marte à iniciativa privada. Segundo os dirigentes, as regras propostas limitariam o funcionamento do clube e não assegurariam a continuidade do Samba do Cruz.
O presidente da entidade, Antônio de Jesus, conhecido como Tio Toninho, afirmou anteriormente que o acordo apresentado contemplava os campos de futebol, mas não garantia espaço para as manifestações culturais construídas no local.
O Cruz da Esperança participou das negociações iniciais, mas decidiu não aderir ao acordo aceito por outras associações da região. A decisão foi apresentada pelos dirigentes como uma tentativa de preservar a autonomia e a continuidade das atividades culturais e esportivas.
Disputa judicial pelo Campo de Marte
A disputa judicial começou em março, quando a Prefeitura de São Paulo entrou com uma ação de reintegração de posse de uma área de quase 15 mil metros quadrados.
A administração municipal alegou que o terreno é público e precisava ser entregue livre para o cumprimento do contrato de concessão do Parque Municipal Campo de Marte. A decisão inicial autorizou a retomada da área e a demolição das construções.
O clube conseguiu posteriormente um prazo para a desocupação voluntária e a suspensão temporária das demolições. Após recurso da Prefeitura, porém, o Tribunal de Justiça de São Paulo restabeleceu a autorização para a retirada das estruturas.
Em sua posição oficial, a Prefeitura classificou a presença do clube como uma ocupação irregular. A Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente afirmou que tentou negociar uma gestão compartilhada dos futuros campos de várzea e alegou que o Samba do Cruz não possuía autorização municipal para realizar os eventos.
A comunidade contestou esse enquadramento, ressaltando que sua presença no território não era recente e estava ligada a uma história iniciada em 1958, muito antes da criação do projeto do parque.
Com a derrubada do Cruz da Esperança, a comunidade perde o endereço onde sua história foi construída ao longo de quase sete décadas. A demolição retirou estruturas físicas, mas não encerrou a história criada pelas famílias, sambistas, atletas, e frequentadores que transformaram o Cruz da Esperança em uma referência da cultura negra paulistana.
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