Monique Lemos, Amira Pinheiro e Iasmin Reis deixaram Salvador e São Luís para construir trajetórias no Brasil e no exterior. Em entrevistas exclusivas ao Mundo Negro, elas refletem sobre raízes, representatividade e os caminhos abertos para outras meninas negras nordestinas.
De Salvador e São Luís, para campanhas, editoriais e passarelas de diferentes países. As trajetórias de Monique Lemos, Amira Pinheiro e Iasmin Reis mostram uma nova geração de modelos negras nordestinas que tem ampliado sua presença na moda brasileira e internacional sem deixar para trás os territórios, as referências familiares e as experiências que formaram suas identidades.
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Embora tenham histórias distintas, as três compartilham uma história semelhante: deixaram suas cidades ainda jovens, enfrentaram a distância da família e precisaram se adaptar a novos idiomas, culturas e dinâmicas profissionais. Ao mesmo tempo, transformaram suas origens em parte fundamental da maneira como se apresentam ao mundo.
Em entrevistas exclusivas ao Mundo Negro, Monique e Amira falaram sobre o início da carreira, os desafios da atuação internacional e a importância de suas conquistas para o imaginário de meninas negras do Nordeste. A reportagem também apresenta a trajetória de Iasmin, modelo baiana radicada em Nova York que já trabalhou com algumas das maiores grifes do mundo.
Da venda de peixes fritos à moda internacional
Antes de ingressar na moda, Monique Lemos vendia peixe frito nas praias de Salvador. Aos 13 anos, carregava bandejas sob o sol durante uma jornada que começava pela manhã e terminava no início da noite. Parte do dinheiro era usado para ajudar a família. Foi com o valor recebido naquele trabalho que também comprou seu primeiro salto alto.
Moradora de Mirantes de Periperi, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, Monique foi descoberta por Vivaldo Marques e teve uma das primeiras oportunidades no Afro Fashion Day, iniciativa do jornal Correio, dedicada à valorização da estética e dos talentos negros na moda. Posteriormente, mudou-se para São Paulo para investir na carreira, conciliando a preparação profissional com os estudos de inglês.
A modelo também integrou o elenco do videoclipe de “Me Gusta”, de Anitta, gravado em Salvador, e passou a construir uma trajetória que a levou a diferentes mercados da moda. Para ela, a percepção de que o sonho estava se tornando realidade surgiu quando começou a ocupar espaços que antes pareciam distantes.
“Quando percebi que estava saindo do lugar onde tão poucas pessoas têm oportunidade, quando passei a andar em ambientes que nunca imaginei conhecer e comecei a ver o sucesso do meu trabalho, percebi que estava no caminho certo”, contou ao Mundo Negro.
A conquista dessas oportunidades, no entanto, também exigiu aprender a viver longe de casa. Monique aponta a distância da família como um dos aspectos mais difíceis da carreira internacional.
“Eu senti e ainda sinto muita falta deles, mas sempre penso: é pela minha família. Também enfrentei o desafio do dia a dia, da língua, de aprender outros idiomas, conhecer novos costumes, lugares e culturas diferentes. Tudo isso é muito novo. Conhecer pessoas e precisar me adaptar não é fácil, mas eu sempre penso: é pelo meu trabalho”, afirmou.
A família esteve presente desde os primeiros passos. Quando Monique viajou para São Paulo no início da carreira, levou parte do dinheiro que havia conseguido trabalhando na praia e recebeu do pai metade do salário dele para completar os custos da viagem. Hoje, a modelo busca retribuir esse apoio e proporcionar melhores condições de vida aos pais.
Sua relação com o Subúrbio Ferroviário também permanece como parte de sua identidade, como lembrança do ponto de partida, e referência afetiva e formadora.
“É algo interno, que vem de dentro de mim. Nunca vou me esquecer de onde eu vim, das coisas que passei e das bandejas de peixe que carreguei debaixo do sol quente. Acho que a nossa origem vive dentro de nós. Sair da Suburbana é motivo de muito orgulho para mim. Tenho orgulho de ter vindo de lá e sinto falta do lugar que me ensinou a ser quem eu sou”, declarou.
Para Monique, a presença crescente de modelos negras nordestinas rompe padrões historicamente restritivos e amplia as possibilidades imaginadas por outras jovens.
“Essa mudança quebra os padrões antigos da moda e abre espaço para novos ideais e novos talentos. Para todas nós, mulheres negras e nordestinas que nunca imaginamos ocupar um espaço como este, ela mostra que podemos ser muito mais, que podemos ir longe, que somos fortes e que, sim, podemos vencer”, destacou.
Se pudesse conversar com a menina que ainda buscava uma oportunidade na moda, Monique escolheria reconhecer a coragem que a trouxe até aqui:
“Você é forte, sim. Você consegue, sim. Você tem potencial e pode chegar a lugares que jamais imaginou. Eu te parabenizo pela sua força, por quem você é e pela mulher que deseja se tornar. Você é muito maior do que imagina, Monique. Parabéns por toda a sua força e por nunca ter desistido de si mesma.”
Representatividade negra e baiana nas grifes
Assim como Monique, Iasmin Reis também iniciou sua trajetória em Salvador. A modelo saiu do bairro de Pirajá para morar em Nova York e, antes mesmo dos 20 anos, acumulou trabalhos com grifes como Dolce & Gabbana, Ralph Lauren, Marc Jacobs e Chanel.
No início, Iasmin procurou escolas de modelos na capital baiana, mas não encontrou imediatamente as oportunidades que esperava. Mesmo diante da frustração, manteve o objetivo. O caminho começou a mudar quando uma agência encontrou seu perfil nas redes sociais e a convidou para uma avaliação.
Antes de viajar para o exterior, Iasmin também participou da moda produzida em seu próprio estado. Um dos trabalhos importantes dessa fase foi o desfile para a marca baiana Dendezeiro, conhecida por desenvolver peças para diferentes corpos e questionar padrões tradicionais da indústria.
A experiência ajudou a modelo a reconhecer a importância de trabalhar com profissionais que compartilhavam referências culturais próximas das suas. Pouco tempo depois, ela começou a circular por mercados internacionais.
“Me sinto muito privilegiada e abençoada por estar fazendo tantas coisas grandes com tão pouca idade”, afirmou ao g1 Bahia.
Mesmo com trabalhos para marcas mundialmente conhecidas, Iasmin entende a moda como um processo contínuo de aprendizado. “Todo dia você recomeça, todo dia você aprende um pouco mais”, declarou.
A mudança para Nova York trouxe desafios como a distância da família, as diferenças culturais e a necessidade de trabalhar em outro idioma. Para preservar os vínculos, Iasmin mantém contato diário com familiares e amigos por meio de mensagens e videochamadas.
A modelo também encontrou na terapia e em atividades como leitura, violão e ukulele formas de cuidar da saúde mental diante da inconstância da profissão. Antes de sua primeira viagem internacional, aos 15 anos, sua mãe fez questão de que ela conversasse com uma psicóloga, assegurando que estivesse emocionalmente preparada para aquela nova etapa.
A maranhense que conquistou a marca da Selena Gomez
Já Amira Pinheiro, nasceu em São Luís, no Maranhão, e trabalhou como recepcionista e vendedora de chips telefônicos antes de construir uma carreira na moda. Seu nome ganhou projeção nacional durante a edição N47 da São Paulo Fashion Week, quando participou de 22 desfiles.
Desde então, a maranhense passou a reunir no currículo trabalhos para marcas como Balmain, Tom Ford, Tiffany & Co., Issey Miyake, Armani e Max Mara. Mais recentemente, foi a única brasileira escolhida para uma campanha global da Rare Beauty, marca fundada por Selena Gomez. O projeto foi fotografado em Los Angeles e reuniu mulheres de diferentes origens.
O nome da empresa permaneceu em segredo durante o processo de seleção. Amira enviou fotos, um vídeo de apresentação e informações pessoais, como acontece em outros castings. Somente depois de ser confirmada soube que trabalharia para a Rare Beauty.
“Foi somente no set que entendi a dimensão daquela campanha. A equipe explicou a proposta do trabalho e contou que fotografaríamos ao lado da Selena Gomez. Descobrir que eu era a única brasileira naquele projeto foi uma alegria imensa e, acima de tudo, uma grande responsabilidade. Representar o Brasil em uma campanha global é uma lembrança de que nossos talentos podem ocupar qualquer espaço”, disse ao Mundo Negro.
Diferentemente de muitas profissionais que alimentam o sonho da passarela desde a infância, Amira não planejava inicialmente ser modelo. Seu desejo era encontrar um trabalho que lhe permitisse conhecer outros países, estudar idiomas e conviver com diferentes culturas. A moda acabou reunindo essas possibilidades.
O incentivo de pessoas próximas e o acompanhamento da família foram fundamentais para que ela conhecesse melhor a profissão e começasse a participar de seleções. Naquele momento, porém, Amira ainda encontrava poucas modelos negras que parecessem próximas de sua realidade.
“Naomi Campbell era um nome que eu conhecia, mas ainda distante da minha realidade. Com o tempo, compreendi o quanto é importante termos referências que se pareçam conosco, especialmente no mercado brasileiro. Hoje, sinto orgulho ao perceber que muitas mulheres negras estão ocupando esses espaços e inspirando uma nova geração a acreditar que também pertence a eles”, explicou.
Amira ressalta que sua primeira mudança teve como objetivo construir uma carreira nacional. A projeção internacional surgiu posteriormente, como consequência do trabalho desenvolvido no Brasil. Foi em São Paulo, ao conviver com pessoas de diferentes regiões que ela passou a reconhecer a origem maranhense como uma força também dentro da profissão.
“Com o tempo, trabalhando em diferentes países, minha identidade afro-latina passou a fazer ainda mais sentido para mim”, afirmou.
A modelo conta que muitas pessoas demonstram surpresa ao descobrirem que ela é brasileira e, especialmente, maranhense. Em vez de apagar essas referências para se adaptar aos mercados internacionais, ela faz questão de apresentar sua origem.
“Carregar minhas raízes é uma forma de honrar quem abriu caminho antes de mim e de lembrar que o talento floresce em todos os territórios. Carregar minhas raízes é também uma forma de representar tantas histórias que ainda precisam ser vistas e valorizadas”, disse.
Para Amira, as conquistas individuais precisam contribuir para uma transformação mais ampla no mercado. A presença de modelos negras nordestinas em grandes campanhas não encerra o debate sobre representatividade, mas ajuda a expandir o que outras jovens conseguem imaginar para o próprio futuro. Ao olhar para a própria trajetória, Amira destaca os valores familiares e o respeito ao tempo de cada conquista.
“O que é seu encontra você, mas é preciso coragem para fazer a própria parte”, afirmou. “Siga em frente, mantenha seus valores e aproveite a jornada. Ela será muito maior e mais bonita do que você consegue imaginar.”
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