Quando abriu a porta de casa para receber pequenos grupos de amigos, Flávia Alves buscava uma solução prática: conciliar o sustento da família com os cuidados do filho Tom. Em celebração ao Julho das Pretas, o Mundo Negro e o Guia Black Chefs contam a trajetória da chef: vinte anos depois, esses almoços caseiros se transformaram no Quintal de Mãe, referência em culinária afro-brasileira em Paraty (RJ) e importante motor da economia local.
Aos 45 anos, conhecida na cidade como Flavinha, a chef fez da cozinha um lugar de memória e ancestralidade. Cresceu anotando receitas de programas de TV e vendendo doces e salgados ainda na adolescência; trabalhou na barraca da Tia Preta, em Paraty, vendendo pão de queijo com pernil, teve um restaurante no Centro Histórico de Curitiba e acumulou passagens pela Bahia, além de experiências em festivais, eventos e serviços de catering. Todo esse percurso formou o repertório técnico e cultural que hoje marca a identidade do Quintal de Mãe.
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O restaurante nasceu como resposta às necessidades de Flávia após o nascimento do filho, em 2016. “Precisei criar um modelo de negócio que atendesse à minha necessidade e à minha linguagem de trabalho. Lembro das conversas animadas com amigos, discutindo qual seria o nome dos encontros mensais que, aos poucos, se tornaram quinzenais e depois semanais”, conta.

Atualmente, o negócio fatura cerca de R$ 700 mil por ano. O Quintal de Mãe gera empregos, movimenta fornecedores locais e passou a oferecer serviços de catering para grandes marcas, como Nubank e Netflix, além de participar de produções audiovisuais, como o filme “sobre Dias”.
“Hoje me reconheço muito mais como empresária e agente de transformação social. O empreendedorismo também é uma ferramenta de impacto. Todos os dias fazemos escolhas sobre quais profissionais contratar, quais fornecedores fortalecer e onde os recursos vão circular. Isso contribui para que mais oportunidades cheguem à comunidade”, afirma Flávia.
Ancestralidade no prato e empoderamento feminino

A proposta do Quintal de Mãe vai além do cardápio. Inspirada por sua vivência no candomblé, Flávia incorpora saberes ancestrais e a ritualística do alimento em suas receitas. O ambiente do restaurante reúne livros sobre religiosidade, referências aos orixás e obras de artistas nacionais, compondo um espaço que é ao mesmo tempo restaurante, ateliê cultural e ponto de encontro comunitário.
Entre os pratos que se tornaram ícones da casa está a feijoada da Flavinha, destacada em publicações internacionais e incluída no roteiro de afroturismo de Paraty, em parceria com a agência Black Studio Stories. O Quintal também oferece aulas de culinária e experiências que aproximam turistas e moradores da história e das técnicas da culinária afro-brasileira.
O Quintal de Mãe opera como um polo de protagonismo feminino. Foi lá que nasceu o Samba das Trabalhadoras, grupo formado exclusivamente por mulheres, e de onde surgiu o bloco “Carnaval do Quintal”, hoje referência na programação cultural da cidade. Esses projetos ampliam o alcance do restaurante como espaço de capacitação, resistência e visibilidade para as mulheres negras da região.
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