Por: Rachel Maia
Os resquícios da Abolição da Escravatura — sem a devida reparação —, que perduram há mais de um século, afetam empresários negros e a população negra, além de impedirem o avanço econômico do Brasil
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O consumo negro no Brasil movimenta R$ 1,9 trilhão por ano de acordo com o estudo “O Consumo Invisível da Maioria”, realizado em 2025 pelos institutos Akatu e DataRaça. No entanto, segundo dados do portal Sebrae existe um déficit de 59% no faturamento de empresárias negras em comparação ao de empresários brancos.
Isso explica por que esse fluxo não se converte, na mesma proporção, na sustentação de negócios negros. Não porque falte intenção, mas porque o sistema foi desenhado para que o dinheiro circule e se concentre fora dessas iniciativas. Esse descompasso revela uma engrenagem histórica que organiza quem consome, quem produz e, principalmente, quem acumula.
Ao longo das últimas décadas, a população negra ampliou seu poder de consumo, fruto de avanços sociais, maior acesso à educação e inserção no mercado de trabalho. No entanto, esse crescimento não foi acompanhado por um fortalecimento equivalente ao empreendedorismo negro em escalada. O resultado é um fluxo constante de riqueza que sai das mãos de quem consome, mas raramente permanece com quem compartilha das mesmas origens, referências e territórios.
Esse fenômeno não é acidental, ele está diretamente ligado às barreiras estruturais que limitam o crescimento dos negócios negros. Trata-se de concorrência em condições historicamente desiguais, falta de acesso a crédito, menor capital inicial, redes de contato mais restritas e dificuldades de inserção em grandes cadeias de distribuição.
Liana Santos, empresária e estilista à frente da Liana d’Áfrika, no Rio de Janeiro, é uma referência quando o assunto é moda, mas, infelizmente, também integra as estatísticas de negócios que enfrentam grandes desafios para manter a saúde financeira da empresa e escalar novas oportunidades. Mesmo entregando figurinos autênticos e de qualidade para pessoas influentes, ela ainda não se encontra entre as empresas de alto poder aquisitivo.
“O cenário contemporâneo revela uma contradição latente: embora o poder de compra da população negra movimente cifras bilionárias, o fluxo desse capital raramente se cristaliza na manutenção e no florescimento de empresas de propriedade negra. No segmento da moda afro atemporal, exemplificado pelo rigor estético e cultural da Lianad’Áfrika, o desafio transcende a criação artística; ele reside no enfrentamento de gargalos econômicos e de uma desigualdade social historicamente estratificada”, afirma a empresária.
Há uma dinâmica sofisticada de apropriação cultural: grandes marcas utilizam elementos de estética, de linguagem e de comportamento negro e transformam identidade em produto sem, necessariamente, redistribuir valor para as comunidades que originam essas expressões. O consumo acontece, a influência é reconhecida, mas a estrutura de retorno permanece concentrada.
“Enquanto grandes corporações absorvem a estética afrodescendente como tendência sazonal, marcas autorais enfrentam déficit de aportes e créditos, logística e insumos e invisibilidade seletiva. Para a Lianad’Áfrika, posicionar-se no nicho da moda afro atemporal não é apenas uma escolha estilística, é um ato de insurgência econômica. A atemporalidade propõe um consumo consciente, oposto ao descarte desenfreado, exigindo que o consumidor compreenda o valor intrínseco de cada peça”, contextualiza Liana.
Outro ponto central é a fragmentação. O consumo negro, apesar de expressivo, ainda não opera de forma articulada como estratégia econômica coletiva. Diferentemente de outros grupos que historicamente estruturaram redes de apoio, financiamento e circulação interna de capital, no Brasil essa lógica ainda está em construção. O resultado é um mercado potente, porém disperso, que não consegue, sozinho, sustentar cadeias produtivas robustas.
“O mercado consumidor muitas vezes celebra a cultura, mas negligência o CNPJ negro, optando por alternativas de fast fashion que mimetizam a identidade africana sem o devido lastro de pertencimento. Apoiar marcas que, sobretudo, têm como propósito a conscientização da importância da sustentabilidade em suas produções e comercialização é reconhecer que a moda afro não é um adereço momentâneo, mas uma expressão de continuidade histórica que demanda, acima de tudo, viabilidade econômica e justiça social”, ressalta a estilista.
Reduzir essa questão a uma escolha individual — “consumir de negócios negros” — também é insuficiente. A responsabilidade não pode recair apenas sobre o consumidor. Sem políticas públicas consistentes, acesso ampliado ao crédito, incentivo à formalização e inclusão em grandes mercados, o esforço individual tende a esbarrar em limites estruturais.
O consumo já existe e é relevante. O grande desafio é construir um ecossistema capaz de reter valor. Isso implica repensar cadeias produtivas, fomentar redes de negócios, ampliar o acesso ao capital e, sobretudo, reconhecer que o desenvolvimento econômico passa, necessariamente, pela redistribuição de oportunidades.
Transformar consumo em poder econômico exige intencionalidade, estratégia e estrutura. Não se trata apenas de onde o dinheiro é gasto, mas de como ele circula, onde ele permanece e quem ele fortalece ao longo do caminho. Enquanto essa engrenagem não for redesenhada, o paradoxo persiste: um mercado expressivo desenhado por empresários negros, que movimenta riqueza, mas ainda luta para convertê-la em base sólida de autonomia econômica.
Somos muito mais que consumidores, produzimos intelectualidade, cultura e produtos, e compartilhamos saberes em grande escala. Para que os negócios negros se tornem um pilar de prosperidade coletiva, é necessário valorizar a cultura e seus criadores.
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