Prêmio Ubuntu é cancelado após o Estado não liberar os recursos previstos

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Prêmio Ubuntu é cancelado após o Estado não liberar os recursos previstos
Foto: reprodução

O Prêmio Ubuntu de Cultura Negra, que chegaria à sua 5ª edição em novembro, estava previsto para ocupar o Parque Bondinho Pão de Açúcar em uma celebração dedicada ao tema “Conexões Ancestrais”. A cerimônia reuniria artistas, produtores e agentes culturais em um dos cartões-postais mais emblemáticos do país. No entanto, o evento foi adiado sem previsão de nova data após a falta de retorno dos órgãos estaduais responsáveis pela liberação dos recursos, o que inviabilizou sua execução.

Segundo a idealizadora e presidente da ONG Afrotribo, Paula Tanga, a decisão não teve origem na organização, mas na ausência de compromisso institucional com a continuidade do prêmio. “Estamos com tudo pronto. Dói, gente. Dói muito estar aqui”, afirmou, destacando que meses de planejamento foram interrompidos por falta de resposta formal do poder público.

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Emocionada, Paula gravou um vídeo em que expõe a dimensão humana desse cancelamento. Ela enfrenta, ao mesmo tempo, a internação da irmã, em tratamento contra um câncer, e a frustração de ver um projeto de 20 anos de luta ser interrompido por falta de sensibilidade do poder público. “Não estou bem, não estou legal. Foi o cancelamento do prêmio devido à responsabilidade do Poder Público. Desde agosto a gente vem dialogando, que nos deu certeza”, disse, reforçando que o atraso e o silêncio das autoridades desmontaram meses de trabalho.

O impacto é ainda maior porque o Prêmio Ubuntu nunca foi só uma cerimônia. Ele sempre foi um gesto político: colocar lado a lado famosos e anônimos, reconhecer trajetórias que transformam territórios, criar caminhos onde a cidade costuma erguer barreiras. “O prêmio não incentiva a disputa entre os nossos. Ele incentiva a igualdade entre os nossos”, afirma Paula. E ocupar o Pão de Açúcar, neste ano, seria também afirmar o direito à cidade — especialmente no Novembro Negro.

Mesmo diante da dor, Paula fez questão de agradecer quem não soltou a mão, como a equipe do Parque Bondinho. Mas não aliviou a crítica. “A falta de incentivo para esse tipo de projeto só mostra o quanto temos que evoluir. Fala-se de equidade racial, fala-se de Ubuntu. Muitas pessoas falam de Ubuntu, mas não praticam Ubuntu, e eu tô sentindo isso na pele.” É um recado direto sobre como políticas culturais seguem falhando com iniciativas negras, mesmo quando elas já provaram sua relevância e capacidade de mobilização.

Paula afirma que seguirá lutando para garantir uma nova data e retomar o prêmio na dimensão que ele merece. “Eu vou lutar para que o prêmio aconteça, e que aconteça grandão”, diz. O adiamento, porém, expõe um cenário mais amplo: não se trata de um caso isolado. Em todo o país, projetos e movimentos negros vêm enfrentando cortes, atrasos e falta de resposta institucional, um padrão que se repetiu de forma ainda mais cruel neste Novembro Negro, mês que deveria fortalecer, e não fragilizar, iniciativas dedicadas à memória, arte e existência preta.

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