Mundo Negro

Quando o palco brasileiro se parece mais com o Brasil: Musical 7 Mulheres e Um Mistério

Foto: Divulgação

Por Rodrigo França

Laura Castro, Letícia Soares e Larissa Noel estão em 7 Mulheres e Um Mistério, O Musical, e a presença das três atrizes negras diz algo importante sobre a adaptação de uma obra estrangeira para o Brasil. Laura e Letícia integram o elenco principal, enquanto Larissa atua como swing. A montagem poderia simplesmente reproduzir uma determinada imagem da França dos anos 1950. Escolheu outro caminho: uma história pode nascer em outro país, em outra década, e ainda assim encontrar no palco brasileiro os rostos do Brasil.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Notícias Relacionadas


Parece uma decisão simples. Historicamente, não foi.Durante décadas, atrizes negras estiveram à mercê de personagens previamente definidas pela raça e, muitas vezes, pelos estereótipos construídos em torno dela. A empregada, a mulher hipersexualizada, a subalternizada, a personagem cuja existência dramática precisava estar associada à pobreza, à violência ou ao racismo. Quando surgia uma família rica, uma história de amor, uma comédia de costumes ou uma personagem cuja raça não estava indicada no texto, a suposta universalidade frequentemente ganhava uma aparência bastante específica: branca.

7 Mulheres e Um Mistério ajuda a desmontar essa lógica sem transformar a escolha do elenco numa tese pronunciada em cena. Inspirado em HuitFemmes, de Robert Thomas, o espetáculo acompanha mulheres confinadas numa mansão depois de um assassinato ocorrido durante uma reunião familiar de Natal. A adaptação, músicas e letras são de Anna Toledo, com direção artística de Ricardo Grasson e Heitor Garcia. A própria adaptação amplia as motivações das personagens femininas, procurando libertá-las de uma narrativa organizada exclusivamente em torno da validação masculina. 

Bruna Guerin, Laura Castro, Letícia Soares, Malu Rodrigues, Paula Capovilla, Stella Miranda e Verónica Valenttino formam o elenco principal. Entre elas, Laura e Letícia podem simplesmente fazer aquilo para que foram formadas: interpretar. Podem ser sofisticadas, engraçadas, suspeitas, contraditórias, amorosas, cruéis. Podem pertencer àquela família e àquela mansão. Larissa Noel, na função exigente de swing, precisa estar preparada para assumir a cena quando convocada. Nenhuma das três precisa apresentar uma justificativa racial para estar dentro daquela ficção.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

E aqui aparece uma contradição antiga do nosso ofício. O teatro gosta de repetir que o ator pode ser qualquer coisa. Pode atravessar séculos, nacionalidades, classes sociais, profissões e universos que jamais experimentou pessoalmente. Essa liberdade é considerada parte da natureza da interpretação. Mas, quando artistas negros reivindicam o mesmo princípio, surgem perguntas sobre fidelidade histórica, aparência da personagem ou intenção do autor. Se atuar é justamente a arte de habitar outra existência, por que essa liberdade encontra fronteiras quando chega a nossa vez?

A discussão ganha outra dimensão num país em que 55,5% da população se declarou preta ou parda no Censo de 2022, segundo o IBGE. O palco brasileiro não precisa obedecer matematicamente à demografia nacional, porque arte não se produz por planilha. Mas a ausência recorrente de pessoas negras também não pode continuar sendo tratada como acaso estético num país de maioria negra. Quando elas desaparecem sistematicamente das famílias, dos romances, das comédias, dos musicais e das narrativas consideradas universais, existe uma escolha sendo feita, mesmo quando ninguém assume sua autoria.

Por isso Laura Castro, Letícia Soares e Larissa Noel importam aqui. Não porque devam carregar nas costas a responsabilidade de representar milhões de brasileiras negras. Exatamente o contrário. Importam porque ajudam a afirmar o direito de uma atriz negra não precisar representar outra coisa além de sua personagem.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

O talento não tem cor, repetimos há anos. O acesso aos papéis, historicamente, teve. A mudança começa quando a primeira frase finalmente produz consequência sobre a segunda.

Se você quer se entreter com um espetáculo bem cantado, bem tocado, muito bem interpretado e com um visual deslumbrante, vá ao teatro assistir a 7 Mulheres e Um Mistério, O Musical. Minha indicação tem ainda um motivo especial: ver Laura Castro, Letícia Soares e Larissa Noel, três atrizes deslumbrantes, ocupando o teatro musical brasileiro em estado de excelência, com talento, técnica e presença.

A temporada segue até 4 de outubro de 2026, no 033 Rooftop, no Teatro Santander, em São Paulo, com sessões às sextas, às 20h; sábados, às 16h e 20h; e domingos, às 15h e 19h. 

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Notícias Recentes

Participe de nosso grupo no Telegram

Receba notícias quentinhas do site pelo nosso Telegram, clique no
botão abaixo para acessar as novidades.

Comments

Sair da versão mobile