2 de Julho: mulheres negras que fizeram a Independência da Bahia acontecer 

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2 de Julho: mulheres negras que fizeram a Independência da Bahia acontecer 
Foto: Amanda Oliveira.

Para celebrar o Julho das Pretas, conheça mulheres negras que atuaram no combate, na logística, na espionagem e na organização popular da Independência da Bahia.

Julho começa na Bahia com uma celebração que atravessa gerações. No dia 2, ruas, largos e avenidas são ocupados pelos cortejos da Independência da Bahia, marco da expulsão definitiva das tropas portuguesas em 1823. No mesmo mês, o Brasil também celebra o Julho das Pretas, agenda política construída por mulheres negras para fortalecer debates sobre direitos, memória e justiça social.

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Embora separadas por mais de dois séculos, as duas datas se encontram em uma mesma pergunta: quem são as mulheres que ajudaram a construir a liberdade e ainda permanecem fora das narrativas oficiais?

A história da Independência da Bahia costuma destacar figuras como Maria Quitéria, Joana Angélica, Maria Felipa e Catarina Paraguaçu. Cada uma ocupou um lugar distinto nesse processo e deixou contribuições fundamentais para a história baiana. Mas a guerra pela independência foi sustentada por uma extensa rede de mulheres que participaram dos combates, organizaram estratégias militares, transportaram armas e alimentos, circularam informações entre diferentes localidades, cuidaram dos feridos e mantiveram a resistência popular em funcionamento.

Em entrevista concedida ao portal baiano Farol da Bahia, a historiadora e professora Marianna Freitas lembra que essas personagens conhecidas representam apenas parte dessa história:

“Essas quatro mulheres tiveram muita importância, como tantas outras que a gente não conhece os nomes.”

Baianas na frente da guerra

Se Maria Quitéria rompeu barreiras ao vestir uma farda e integrar o Exército, a atuação das mulheres negras aconteceu em diferentes frentes da luta, muitas vezes fora dos registros oficiais em regiões costeiras do estado baiano.

No Recôncavo, em cidades como Cachoeira, Santo Amaro, Maragogipe, Nazaré, São Francisco do Conde e Saubara, elas participaram da organização da resistência, esconderam armamentos, transportaram mantimentos, atuaram como mensageiras, espionaram tropas portuguesas e garantiram o abastecimento das forças baianas.

Em Saubara, uma estratégia coletiva criada durante a guerra permanece viva até hoje como tradição popular em celebração à memória de mulheres que resistiram às tropas portuguesas. A Festa das Caretas do Mingau surgiu de mulheres que caminhavam pelas ruas cobertas por lençois brancos durante os confrontos, carregando tabuleiros sobre a cabeça para esconder armas e alimentos destinados aos combatentes, ao mesmo tempo que produziam sons para confundir soldados portugueses e dificultar seus deslocamentos.

Maria Felipa não lutou sozinha

Entre essas lideranças, Maria Felipa ocupa um lugar singular na história da Independência da Bahia. Marisqueira, trabalhadora da Ilha de Itaparica e liderança comunitária, ela organizou uma rede de mulheres negras que participou diretamente das batalhas contra as tropas portuguesas.

Maria Felipa tornou-se um símbolo dessa resistência, mas ela nunca esteve sozinha. Pesquisas sobre sua trajetória mostram que Maria Felipa articulou grupos responsáveis pelo monitoramento da costa, pela vigilância das praias e pela proteção dos caminhos utilizados pelas forças baianas. Essas mulheres ficaram conhecidas como “Vedetas”, patrulhando manguezais, matas e áreas próximas aos campos de batalha para impedir ataques e identificar movimentações inimigas.

As estratégias também envolviam conhecimentos sobre o território, plantas da região e técnicas de combate desenvolvidas coletivamente. Relatos históricos apontam que o grupo participou do incêndio de embarcações portuguesas utilizando tochas produzidas com palha de coco e chumbo, além de enfrentar soldados com peixeiras e galhos de cansanção.

Estudiosos e historiadores recuperam os nomes de mulheres como Joana Soaleira, Brígida do Vale e Marcolina, integrantes do grupo liderado por Maria Felipa em Itaparica. Embora suas trajetórias permaneçam pouco documentadas, os registros disponíveis mostram que elas participaram da organização da resistência e continuaram mobilizadas mesmo após a Independência da Bahia.

A presença dessas mulheres demonstra que a emancipação baiana não foi resultado da atuação isolada de figuras heroicas, mas de uma construção coletiva protagonizada também por mulheres negras cujos nomes foram pouco preservados pela historiografia.

A história que ficou fora dos livros

Durante décadas, a narrativa oficial privilegiou líderes militares e personagens masculinos, enquanto experiências vividas por mulheres, trabalhadores, indígenas e pela população negra permaneceram em segundo plano.

Segundo a historiadora Marianna Freitas, esse apagamento reflete a forma como a história foi escrita durante muito tempo.

“A história foi durante séculos protagonizada por homens, figuras que nem sempre se preocupavam em colocar o lado real dos acontecimentos. Isso deixou de lado a grande massa populacional.”

Na última década, pesquisas dedicadas à história social, memória e cultura têm se dedicado a recuperar personagens antes invisibilizados e aproximar a população de sua própria história, reconhecendo mulheres negras como sujeitas históricas que participaram da construção do país.

O 2 de Julho encontra o Julho das Pretas

Celebrar a Independência da Bahia também significa reconhecer e celebrar as trajetórias de quem ocupa esse lugar de memória.

Enquanto o Julho das Pretas propõe reflexões sobre direitos, reconhecimento e reparação histórica, ele nos convida a revisitar mulheres como Maria Felipa e tantas outras que permaneceram anônimas apesar de sua atuação decisiva na guerra por liberdade.

A luta delas segue viva e permanece em curso nos cortejos do 2 de Julho, nas festas populares, nos terreiros, nas comunidades do Recôncavo e nas pesquisas que mesmo após duzentos e três anos de independência, continuam recuperando histórias esquecidas pelos registros oficiais.

Fontes:
SANTOS, Lucas Borges dos. Maria Felipa de Oliveira. Resgate da Memória.  n.2. jul. 2014.

SANTOS, Viviane Carla Bandeira Santos & Moreira, Andrea de Carvalho. Narrativas Femininas na Independência da Bahia: um caminho para educação antirracista e decolonial. Estudos IAT, Salvador, v.5, Edição Especial Prêmio Luís Henrique Dias Tavares, 2020.

PRATA, Lívia. Maria Felipa: uma heroína baiana. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Comunicação Visual) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2018. 

SANTOS, Viviane Carla Bandeira; MOREIRA, Andréa de Carvalho. Vozes da independência: experiências de mulheres negras na Independência da Bahia. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), 2023. 

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