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Zezé Motta celebra 50 anos de ‘Xica da Silva’: “Mulheres negras passaram a se enxergar de outra forma”

Fotos: Juliano Simões e Divulgação/Vitrine Filmes

“Quando uma obra permanece viva por tanto tempo, é porque ela continua dialogando com a sociedade.” Há 50 anos, Zezé Motta revolucionava o cinema brasileiro com o lançamento de ‘Xica da Silva’, reafirmando a beleza e o poder de uma mulher negra. Em entrevista ao Mundo Negro no especial de Julho das Pretas, a atriz celebra o relançamento do longa-metragem em cópia restaurada em 4K pela Sessão Vitrine Petrobras, no dia 16 de julho.

Dirigido por Cacá Diegues e adaptado da literatura, o filme reconta a história da ex-escravizada Chica da Silva, mulher que conquistou sua alforria e desafiou os padrões coloniais do século XVIII ao manter uma relação pública com um contratador de diamantes. O sucesso estrondoso de bilheteria levou mais de 3,1 milhões de espectadores aos cinemas, revolucionando a maneira de representar corpos negros no Brasil ao unir humor, erotismo e linguagem popular para combater a invisibilidade racial. Na época, o filme atraiu mais de 3,1 milhões de espectadores e conquistou os prêmios de Melhor Filme, Direção e Atriz no Festival de Brasília.

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“Acho que a Xica da Silva teve um impacto que ultrapassou o cinema. Ela ajudou a colocar uma mulher negra no centro da narrativa, como protagonista da própria história, em uma época em que isso era muito raro. Isso teve um peso político e social enorme, mesmo que muitas pessoas não percebessem naquele momento. Ao longo desses 50 anos, encontrei inúmeras mulheres negras que me disseram que passaram a se enxergar de outra forma depois de assistir ao filme”, disse Zezé Motta à editora Halitane Rocha.

Ao longo da entrevista, a atriz celebrou o impacto da obra em sua carreira, mas também relembrou os desafios de dar vida a uma personagem tão marcante em um período de censura e repressão, além de como as pessoas passaram a confundir a personagem com a mulher que ela realmente era, levando-a a situações embaraçosas e até a episódios de assédio sexual. A atriz ainda comentou sobre sua parceria brilhante com Cacá Diegues e refletiu sobre como o filme continua atual ao provocar novas gerações a pensar sobre protagonismo negro, liberdade e pertencimento.

Foto: Divulgação/Vitrine Filmes

Leia a entrevista completa abaixo:

1- Zezé, como você enxerga o impacto político e social da personagem Xica da Silva na história do cinema brasileiro e na autoestima das mulheres negras ao longo desses 50 anos?

Acho que a Xica da Silva teve um impacto que ultrapassou o cinema. Ela ajudou a colocar uma mulher negra no centro da narrativa, como protagonista da própria história, em uma época em que isso era muito raro. Isso teve um peso político e social enorme, mesmo que muitas pessoas não percebessem naquele momento.

Ao longo desses 50 anos, encontrei inúmeras mulheres negras que me disseram que passaram a se enxergar de outra forma depois de assistir ao filme. Isso sempre me emocionou muito. A representatividade tem esse poder: ela fortalece a autoestima, amplia horizontes e faz com que as pessoas entendam que também pertencem a esses espaços.

É claro que ainda temos muitos desafios, mas fico feliz em saber que Xica da Silva continua despertando debates e inspirando novas gerações. Quando uma obra permanece viva por tanto tempo, é porque ela continua dialogando com a sociedade. E acredito que esse seja um dos maiores legados que um artista pode deixar.

Foto: Gustavo Arrais

2- Na época do lançamento, o Brasil vivia sob um regime autoritário. Qual era a sensação, como artista negra, de dar vida a uma Rainha que subverteu os padrões coloniais e de poder em um período de tanta repressão política no Brasil?

Naquele momento, o Brasil vivia um período muito duro da sua história. A censura, a repressão e a falta de liberdade atingiam toda a sociedade, e, para nós, artistas negros, havia ainda o desafio de romper estereótipos e conquistar espaços que historicamente nos eram negados.

Dar vida à Xica foi muito especial porque ela era uma mulher que, com todas as suas contradições, desafiava as estruturas de poder do seu tempo. Interpretá-la foi também uma forma de afirmar que pessoas negras têm direito ao protagonismo, à complexidade e a ocupar o centro das suas próprias histórias.

Acho que, mesmo sem ser um filme de militância no sentido tradicional, Xica da Silva acabou se tornando um ato político. A arte tem essa força: ela provoca, questiona e faz as pessoas refletirem. Cinquenta anos depois, continuo acreditando que contar histórias sob diferentes perspectivas é uma das maneiras mais poderosas de combater preconceitos e ampliar o nosso olhar sobre o Brasil e sobre nós mesmos.

Foto: Divulgação/Vitrine Filmes

3- Sua atuação em Xica da Silva foi um divisor de águas na sua carreira. Como foi gerenciar essa ascensão meteórica e as pressões que vieram com o fato de se tornar uma das maiores referências de protagonismo negro no país?

A Xica da Silva me deu muito mais do que reconhecimento. Ela também trouxe desafios que eu jamais imaginei enfrentar. Durante muito tempo, as pessoas confundiram a personagem com a mulher que eu era. Precisei fazer análise para entender e lidar com isso.

O filme nasceu em uma época em que se falava muito de liberdade sexual, dos anos de “sexo, drogas e rock and roll”. A Xica despertava um imaginário muito forte. Ela era uma mulher livre, sensual, poderosa, que dançava nua e dominava os homens. E essa fantasia acabou sendo projetada sobre mim.

Eu estava solteira quando fiz o filme e, muitas vezes, os homens com quem me relacionava mencionavam a Xica antes, durante ou depois da relação. Havia uma expectativa de que eu fosse exatamente aquela mulher. Lembro de um deles dizer: “É como se o filme tivesse virado realidade”. Durante muito tempo, senti que precisava corresponder a essa fantasia. Me preocupava tanto em não decepcionar que, muitas vezes, esquecia de mim, do meu próprio prazer. Foi aí que percebi o quanto aquela personagem havia ultrapassado a tela e invadido a minha vida. A análise foi fundamental para que eu conseguisse separar a Zezé da Xica.

Também vivi situações muito difíceis por causa dessa confusão. Nunca esqueço de um episódio dentro de um táxi. O motorista reconheceu minha voz, confirmou que eu era a Zezé Motta e, de repente, passou a me tocar, acreditando que tinha esse direito. Fiquei completamente apavorada. Só consegui sair quando ele precisou parar em um sinal de trânsito, onde havia um guarda. Abri a porta e corri. Naquele momento, eu só queria escapar. Nem pensei em registrar ocorrência. Hoje entendo que aquilo foi uma violência.

Essas experiências me fizeram compreender que o sucesso também pode trazer um peso muito grande, especialmente para uma mulher negra que interpretou uma personagem tão marcante. Ao mesmo tempo, reforçaram em mim a importância de lembrar que nenhuma atriz se confunde com o papel que interpreta. A Xica mudou a minha carreira para sempre, mas eu precisei aprender, com o tempo, que ela não podia definir quem eu era como mulher.

Foto: Juliano Simões

4- O diretor Cacá Diegues foi um dos fundadores do Cinema Novo, mas na época de Xica da Silva, ele já buscava um caminho próprio no audiovisual. Como foi para você, junto a ele, construir essa Xica irreverente, sensual e humana que também rompeu com os padrões da época do cinema?

Cacá era meu irmão, e eu dizia que eu era a musa dele, fiz 5 filmes do Cacá… Eu simplesmente era dirigida e levada por ele, não pensava muito em como criar aquela personagem, eu gosto de ser dirigida….

Foto: Divulgação/Vitrine Filmes

5- Pensando no público mais jovem que agora terá a chance de assistir à cópia restaurada de Xica da Silva nos cinemas a partir de 16 de julho, qual a mensagem principal que você espera que essa obra transmita para as novas gerações, em especial as mulheres negras?

Espero que as novas gerações assistam a Xica da Silva entendendo que ela é fruto de um momento da história do Brasil, mas que continua dialogando com o presente. É um filme que provoca, desperta perguntas e nos faz refletir sobre poder, liberdade, racismo, desejo e desigualdade.

Para as jovens mulheres negras, desejo que a principal mensagem seja a de que elas pertencem a todos os espaços. Que nunca deixem que outras pessoas definam o tamanho dos seus sonhos ou o lugar que podem ocupar. Quando fiz Xica da Silva, era muito raro ver uma mulher negra protagonizando um filme dessa dimensão. Hoje avançamos, mas ainda temos muito caminho pela frente.

Espero também que elas olhem para essa trajetória e entendam que cada conquista abre portas para quem vem depois. Eu tive a felicidade de fazer parte dessa história, mas o mais importante é que outras histórias continuem sendo contadas, com cada vez mais diversidade, liberdade e verdade. Esse é o legado que mais me emociona.

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