Entrevista: Fernando Sagatiba
Edição: Silvia Nascimento 

Jovem. Preto. Muito preto. E não estamos falando da pele escura do comediante Yuri Marçal, mas sim da pretitude em tudo o que ele faz. Nos palcos, na rua, na Internet ou offline, fato é que Yuri incomoda muita gente. E não é por provocar os brancos, mas por gostar de ser negro de forma tão explícita e confiante, que o Brasil ainda nem sabe como lidar.

Nessa entrevista exclusiva para gente ele fala do seu trabalho e dos seus projetos, que fizeram de 2018 o ano que ele conquistou o país.

Marçal dividiu o palco com Whinderson Nunes, o mair influenciador do Brasil, participou do Porta dos Fundos e  e ainda tirou  selfie com vários ídolos, entre eles Tais Araújo e Lázaro Ramos ( ele inclusive deu pinta na festa de aniversário do Lazinho dias atrás).

Mundo Negro: Não há como olhar o seu trabalho e não lembrar do ‘Tá bom pra você?’, do Érico Brás e Kênia Maria, ou ainda os stand up do Chris Rock. Você sempre teve a intenção de falar a visão do negro?

Yuri Marçal: Muito obrigado pela comparação, são ídolos! Desde que comecei e decidi falar sobre ser preto, tentava falar sobre o ponto de vista de quem sofre o racismo e zoar o racista. Acabei me empolgando e zoando brancos (risos).

MN: E isso gera desconforto. Como é a recepção pelo publico negro e pelo público branco?

No palco não gera desconforto. Entendem muito o contexto e a licença poética ajuda. Então se divertem! Na internet tem alguns haters e a galera do “e se fosse o contrário?”.

MN: Nessas horas, qual é sua reação? Tem algum filtro pra esses questionadores?

Ironia, sempre.

E você começou há quanto tempo?
Comecei há dois anos.

https://www.instagram.com/p/BqArnKXn8dy/

Seu estilo é bem raro, em termos de mídia. Você se considera desconstruído?
É raro e isso é um dos motivos de ter uma resistência na mídia. Mas não me considero desconstruído. Aprendo todos os dias, falta muita coisa ainda.

Como nasceu o show de stand up, Coisa de Preto?

Na verdade eu criei. Juntei mais dois amigos que sou fã, Thiago (Phernandez) e Gui (Preto) e colocamos o projeto pra frente! Todo elenco do Coisa de Preto é incrível! Todo show é muito bom!

E você foi vendo que era possível levar à frente ou foi como a linha do aprendizado, a cada passo viu uma possibilidade a mais?

Na estreia nós vimos a recepção do público e o barulho que fez. E aí sentimos a necessidade de entrar em cartaz.


 E já tem outros projetos? Solo ou em grupo?
Tem meu show solo, Acendam as Luzes, que tem sido fantástico fazer! Fiz recentemente em Porto Alegre e foram quase 400 pretxs assistir.

 A plateia é variada? Chega a ser maioria preta?
90% é mulher preta. Os homens, contam-se nos dedos

É bem comum a mulherada preta comparecer mais. Já teve homem preto dizendo que você ajudou a se tornar mais engajado?

Sim, sim! São duas coisas que me deixam muito feliz: Preta com autoestima e preto descontruindo.

Tem branco que te cumprimenta em nome da raça negra?
Não, os brancos curtem o trabalho e dizem que é “muito necessário”.

Você pensa em montar algum projeto com atores ou comediantes não negros pra mostrar esse contraponto?
Em montar ainda não, mas participar, não vejo problema.

Num stand up seu, você menciona o seu pai. Como é a relação da sua família com sua arte, seu trabalho?
Meu filho ama, minha mãe e minha família super apoiam! Meu pai não é tão próximo.

Você se vê como referência, mesmo sendo jovem, mas já tendo uma linha de discurso bem definida? Por exemplo, os mais novos dizendo “ele me representa, quero fazer isso que ele faz”.
Não fala isso, tenho nem roupa pra esse evento (risos). Que nada, eu só tento fazer as pessoas se divertirem com coisas que eu pensei.

Mas pode se tornar espelho, devido ao alcance do seu sucesso.
Fico muito feliz em ler isso.

Que mensagem você deixa aqui para a nossa negritude, a respeito do dia 20 de novembro?
Vamos se amar e manter a luta. 2019 vai ser tenso! Nós somos bonitos pra caramba e o Brasil depende da gente! Cuidem uns dos outros, pois o topo nos espera!

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