Mundo Negro

Um dos crimes raciais mais brutais dos EUA completa 71 anos

Foto: National Museum of African American History and Culture/ Getty Images

O assassinato de Emmett Till, menino negro de 14 anos morto no Mississippi em 1955, completa 71 anos nesta sexta-feira, ainda sem responsabilização judicial.

Emmett Louis Till, menino negro de 14 anos, foi sequestrado e assassinado na madrugada de 28 de agosto de 1955 na cidade de Money, no Mississippi, por Roy Bryant e seu meio-irmão J.W. Milam. O crime completa 71 anos nesta sexta-feira e segue como um dos episódios mais citados na história da luta antirracista estadunidense. Till havia viajado de Chicago para passar as férias de verão com parentes no Sul do país quando foi acusado por Carolyn Bryant, esposa de Roy, de tê-la assediado dentro da mercearia da família em Money.

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Bryant e Milam retiraram Till da casa de seu tio-avô, Moses Wright, por volta das duas e meia da madrugada. Segundo relatos posteriores dos próprios acusados, o menino foi espancado, teve um dos olhos arrancado, levou um tiro na cabeça e foi jogado no rio Tallahatchie com um ventilador de descaroçar algodão amarrado ao pescoço com arame farpado. O corpo foi encontrado três dias depois, em 31 de agosto, e identificado por Wright a partir de um anel com as iniciais do avô de Till, gravadas na peça.

Foto: National Museum of African American History and Culture/ Getty Images

Bryant e Milam foram julgados em setembro daquele ano por um júri formado exclusivamente por homens brancos, já que negros e mulheres brancas estavam impedidos de compor o corpo de jurados no Mississippi da época. A absolvição veio depois de apenas 67 minutos de deliberação. Protegidos pela garantia constitucional que impede um novo julgamento pelo mesmo crime, os dois homens confessaram o assassinato meses depois, em entrevista paga à revista Look, sem que isso resultasse em qualquer punição.

A mãe de Till, Mamie Till Bradley, tomou uma decisão que mudaria o rumo do caso ao insistir em um funeral de caixão aberto em Chicago, para que o mundo visse o que havia sido feito com seu filho. Milhares de pessoas passaram pelo velório na Igreja de Deus do Templo Roberts, e a revista Jet, voltada ao público negro, publicou fotografias do corpo mutilado, gerando comoção em todo o país. O jornalista Simeon Booker, que cobriu o caso para a publicação, relatou décadas depois em entrevista ao Civil Rights History Project, da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, que a circulação da revista disparou após a publicação das imagens.

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Foto: Foto: National Museum of African American History and Culture/ Getty Images

O caso ultrapassou fronteiras e ganhou repercussão na Europa em meio à Guerra Fria, quando a opinião pública internacional acompanhava de perto os episódios de racismo nos Estados Unidos. Jornais da França, da Bélgica e da Alemanha classificaram a absolvição como escândalo judicial. O periódico alemão Freies Volk resumiu a indignação em uma frase direta, publicada em setembro de 1955: “a vida de um negro não vale um assobio”.

Nos Estados Unidos, o impacto sobre a geração de jovens negros que acompanhou o julgamento e viu as fotos na Jet foi decisivo para o fortalecimento do movimento pelos direitos civis nos anos seguintes. A socióloga Joyce Ladner, que cresceu no Mississippi na mesma época, cunhou posteriormente o termo “Geração Emmett Till” para descrever os jovens negros nascidos no baby boom sulista que passaram a se engajar em sentadas, marchas e campanhas de registro eleitoral após o crime.

Foto: National Museum of African American History and Culture

O caso permaneceu sem solução judicial completa por décadas. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos reabriu a investigação em 2018, depois que um livro revelou que Carolyn Bryant Donham teria admitido, em conversa com um pesquisador, que parte de seu depoimento original era falsa. A investigação foi encerrada em 2021 sem apresentação de novas provas suficientes. Em junho de 2022, um mandado de prisão contra Donham, nunca cumprido desde 1955, foi encontrado no porão do tribunal do condado de Leflore, o que levou familiares de Till a pedir sua prisão. Um grande júri do mesmo condado, no entanto, decidiu em agosto daquele ano não indiciá-la por falta de provas suficientes para as acusações de sequestro e homicídio culposo. Donham morreu em abril de 2023, aos 88 anos, sem jamais responder judicialmente pelo caso.

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Em março de 2022, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, sancionou o Emmett Till Antilynching Act, lei federal que passou a classificar o linchamento como crime de ódio no país, mais de um século depois das primeiras tentativas frustradas do Congresso de aprovar legislação semelhante.

Para quem deseja entender em detalhes a cronologia do caso e seus desdobramentos, o filme “Till: A Busca por Justiça”, de 2022, dirigido por Chinonye Chukwu, reconstrói a investigação conduzida por Mamie Till Bradley após a morte do filho e está disponível em plataformas de streaming.

Foto: Divulgação/Orion Pictures
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