Thammy, Lumena e o suposto racismo (reverso)

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Foto: Reprodução

Thammy Miranda, tal qual um parlamentar biscoiteiro do PSL, faz denúncia de Lumena por suas falas “racistas” contra a atriz Carla Diaz. A pendenga começou porque expressões como “na m… da branquitude” foram usadas por Lumena e Karol Conká em relação à atriz de Chiquititas, o que gerou burburinho e reações diversas entre o público do programa.

Lumena erra? Muito! Ela usa uma pauta muitíssimo importante pra endossar suas picuinhas e autoafirmação no BBB21. Thammy Miranda quer biscoito? Ah… MUI-TO! Primeiro, porque nunca vi a pessoa se manifestando contra o racismo de fato antes – Sério, procure “Thammy Miranda contra o racismo” no Google e só vai aparecer essa denúncia contra Lumena.

Em todos os resultados da primeira página de busca! E nem olhei as outras páginas, porque já comprovei o fato, não é verdade? E uma figura pública, com o alcance de mídia que conseguiria, a gente vê que essa nunca foi uma pauta de abordagem direta pelo vereador, filho de Gretchen. Já percebemos que nas outras 3.841.651 de vezes que era o negro sendo ofendido, tipo, problema nosso, ninguém vai comprar nosso barulho.

Agora, por causa de umas besteiras que Lumena anda falando no programa, o vereador vai acabar por reforçar a lenda do racismo reverso. Como? Enquadrando na mesma estante, ofensas pontuais de uma preta contra uma branca e todo um sistema de violência e exclusão do branco pra cima do negro ao longo da história.

Isso é um mal pra sociedade em vários níveis, porque muito racista vai ganhar aval do vereador pra dizer que “o negro é que é racista” (sim, eles ignoram toda nossa luta, esperando um único momento de vacilo pra dizer que erramos muito). Não que a atitude da sister não esteja consideravelmente desproporcional ao que a atriz Carla Diaz tenha feito contra ela (nada), porque está beirando o absurdo. Mas um erro não desqualifica e nem justifica o outro. Pensa só, com a desculpa de que o texto da lei só prevê racismo, independente de quem o manifeste, é muito fácil mesmo alguém alegar que não existe racismo reverso, que tudo é racismo, mas sabemos quem é quem de cada lado da faca de ponta.

Explico: Sabe aquelas pessoas que cacarejam que “direitos humanos só protege bandido”, mas não liga pras dezenas de jovens e crianças que somem e/ou são assassinadas diariamente nos subúrbios e periferias do Brasil? Então, os racistas estão querendo isso, uma Lumena pra levantar a bola e um Thammy pra dizer “bate pro gol”.

Infelizmente, ele quer ganhar assunto também, igual a pessoa que ele critica e xinga. Falo que quer biscoito usando uma expressão atual (biscoiteiro), aquele que quer uma atenção, pagar de boa gente e receber elogios. Mas, assim como o riso, dependendo de quem te elogia, pode não ser um bom sinal. Será que Thammy ponderou isso? Se ele próprio começasse a desferir ofensas a homens cisgêneros e fosse processado por “homofobia reversa”, teria um tom de pauta séria? Sim, porque apesar de o racismo não ter gênero, ele ocorre numa escala onde a opressão, historicamente, sempre foi exercida pelo branco em detrimento do negro.

E aí, voltando ao exemplo de Thammy, como classificaríamos um homem trans ofendendo um homem cis? É o mesmo peso histórico? O cis sofre todo o peso da sociedade como o trans? Thammy deveria saber o que é relevar o preconceito, porque, lembrando bem, ao reagir a comentários como “vira homem” ou “mostra o saco”, ele exibiu, de forma jocosa, fotos onde segurava um amigo de ponta-cabeça e outra com uma sacola plástica nas mãos, respectivamente. Não falou em “processar aquele imbecil” por homo/transfobia, que por sinal, é previsto na lei como um tipo de racismo social. E se alguém o processasse, no exemplo anterior, por homofobia reversa? Será que ele acharia de boas se ofender tanto pelo cis quando o denunciante nunca o apoiou enquanto trans? Isso é só pra levar a uma reflexão, comparando com o que eu, negro, pensei ao ver isso.

Sóbria foi a ex-BBB, Ana Paula Renault, que, no fofocalizando da última quinta (18), alertou para o resultado – planejado ou não – da ação de Thammy, querendo processar Lumena por racismo (reverso). Além de paradoxalmente reforçar a ideia de que um negro pode oprimir um branco, sem chamar isso de ‘reverso’, Thammy banaliza tanto – ou mais que Lumena – a nossa luta.

Porque se por um lado, a sister usa de forma desnecessária sua munição, o político, massifica uma discussão que a gente já tá de saco cheio de tentar encerrar: A lenda do racismo reverso e como se esvazia uma conversa a ponto de usar a palavra racismo quando nitidamente caberia melhor ali preconceito ou discriminação. É igual quando tentamos não alimentar conversas inúteis sobre cotas e meritocracia. Veja bem, é importante falar nisso de forma a transmitir o conhecimento da realidade, mas não com quem não quer ouvir. Chega, né? A apresentadora Astrid Fontenelle também se pronunciou sobre o ato de Thammy:

O vereador deveria focar nas questões relativas a cidade de SP. Processar Lumena é questão da Carla Diaz. Precisamos de mais sensatez, minha gente! Cuidado para não repetir erros apontados no outro”.

Agora, por um minuto de biscoito, fica uma galera tentando ressuscitar o mito (ele não) de que o negro é que é o barraqueiro, o que ataca antes e é revoltado. Como Ana Paula disse, no programa do SBT, os atos de Lumena não ofuscam em nada os mais de 400 anos de opressão a que o branco submete o negro e o índio.

Ela é agressiva? Sim. É exageradamente bruta nas palavras? Sim? É pra tanto? Não. Nem tanto e nem tampouco. Nem tanto pra atacar uma colega de confinamento e, tampouco, pra tomar um processo do lado de fora da casa. No texto da lei é só racismo, independente do lado que ele se manifesta. Ok, mas na prática, Lumena, certamente, traz um ranço de autodefesa que a fez ser agressiva, além do jogo poder ter influência em sua persona, sua estratégia e até sua saúde mental (sobretudo, em tempos de pandemia). Ninguém fica normal. E não estou passando pano. Acho a Lumena um absurdo de desserviço lá no programa e já conversamos sobre o que eu acho da escolha de elenco da Globo no outro texto:

Sei que o julgamento pro preto é mais pesado e é por isso que escrevo essas digitadas linhas. Não defendo o ataque ao branco, mas ao racista. Se a pessoa é branca, tá lá e não me faz mal, eu deixo quieto. Se me dá apoio, tamo junte e segue a vida. Se vem pro ataque, a gente reage, mas, pessoalmente, nem tenho nada contra brancos. Tenho vários amigos brancos. Minha avó paterna é branca. Mas a questão, é que o negro já nasce apanhando e não tô falando das palmadinhas do médico. Isso explica a postura aguerrida de muitos de nós contra o menor sinal de ataque, deboche ou discurso preconceituoso do senso comum, eu sei. Explica, mas pode não justificar em muitas ocasiões, como no caso da baiana do BBB. Sobretudo quando estudamos os recortes raciais e sociais a que somos submetidos, sendo que a maioria, nem vai imaginar que é peça de um tabuleiro num jogo muito maior e muito mais perigoso do que qualquer reality: A realidade.

No mais, Thammy poderia fazer campanha pela saída de Lumena e dizer na cara dela o que achou de sua conduta. Tanto brother teve processo mais sério que não deu em nada, agora uma preta vai levar na cabeça porque xingou uma branca? Achei desproporcional tanto quanto Lumena dentro da casa contra a atriz do inshalá. Não que Lumena não merecesse uma boa bronca da produção pelo ataque à etnia, porque isso situaria ela tanto enquanto pessoa, quanto participante de um programa de enorme audiência. Talvez, ela e Karol Conká estejam achando que estão abafando e ganhando gritos de “lacrou!” daqui de fora, quando sabemos que é bem o contrário, mas pra processar por um deboche com nítida cara de palco pra lacração, acho exagero. É usar um texto de lei pra defender uma causa que nunca se importou, pra pegar o hype do programa e ganhar adeptos. O último que fez isso ganhou mais de 1 milhão e meio em suaves cheques e milhões de seguidores, né? Mas isso é outro assunto pra destilar sarcasmo. Por hora, acho que tá fácil bater quando vê que é preto na outra ponta do dedo de julgamento esticado.

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