Celebrado em 25 de julho, o Dia Nacional de Tereza de Benguela homenageia a mulher negra que governou por 20 anos um quilombo próspero no Mato Grosso.
O Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, celebrado em 25 de julho e instituído pela Lei 12.987, de 2014, homenageia uma das lideranças quilombolas mais importantes da história do Brasil colonial. Tereza governou por cerca de duas décadas o Quilombo do Quariterê, também chamado de Quilombo do Piolho, localizado no Vale do Guaporé, região que hoje corresponde ao estado do Mato Grosso, na fronteira com a Bolívia. Sua trajetória reúne estratégia militar, habilidade política e capacidade de administrar uma comunidade inteira em um contexto de perseguição constante, mas segue menos conhecida do que a de outras figuras da resistência negra brasileira.
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A origem de Tereza divide os registros históricos até hoje. Documentos portugueses da época a descrevem como uma mulher africana, embarcada no porto de Benguela, atual segunda província mais populosa de Angola, o que explicaria o sobrenome pelo qual ficou conhecida. Outros pesquisadores defendem que ela nasceu em território brasileiro, filha de pessoas já escravizadas na região das minas do Guaporé, e não existe consenso definitivo entre os historiadores sobre qual dessas versões está correta.
O que se sabe com mais segurança vem dos chamados Anais de Vila Bela, principal fonte documental produzida pela própria administração colonial sobre o Quariterê. Tereza era casada com José Piolho, homem negro que fundou o quilombo ainda nas primeiras décadas do século XVIII, quando a descoberta de ouro e pedras preciosas na região atraiu um contingente cada vez maior de pessoas escravizadas para o trabalho forçado nas minas. Após a morte do marido, assassinado por soldados a serviço da Coroa portuguesa, Tereza assumiu o comando da comunidade e passou a ser chamada de Rainha Tereza, ou Rainha Negra do Pantanal, título que os próprios documentos coloniais da época já registravam.
Uma sociedade organizada e autossuficiente
Sob a liderança de Tereza, o Quariterê deixou de ser apenas um refúgio de pessoas fugidas da escravização e se transformou em uma sociedade estruturada, com economia própria e sistema de governo coletivo. A comunidade cultivava algodão, milho, feijão, mandioca e banana, mantendo excedente suficiente para comercializar produtos com povoados vizinhos. Também desenvolveu produção têxtil a partir do algodão colhido e técnicas de metalurgia para fabricar ferramentas e armas, reaproveitando inclusive o ferro que antes servia para marcar e subjugar corpos escravizados, em um gesto que historiadores descrevem como símbolo direto da inversão do instrumento de opressão em ferramenta de autonomia.
A organização política do quilombo também chamava atenção dos próprios colonizadores, que registraram o funcionamento da comunidade com uma mistura de espanto e desconfiança. Representantes de diferentes núcleos do Quariterê se reuniam periodicamente em um sistema de decisão coletiva, descrito nos Anais de Vila Bela como semelhante a um parlamento, em um momento histórico em que esse tipo de governo representativo ainda não existia de forma organizada nas colônias portuguesas na América. As estimativas sobre o número de moradores variam entre os registros consultados, indo de pouco mais de cem pessoas a números bem maiores em fontes menos consensuais, mas a maioria dos historiadores concorda que o Quariterê reunia negros e indígenas, sendo por isso descrito como o maior quilombo já registrado no atual estado do Mato Grosso.
Estratégia, defesa e resistência
A dimensão militar do Quariterê foi determinante para sua sobrevivência por tanto tempo, em uma era em que a maioria das comunidades formadas por pessoas fugidas da escravização era destruída em poucos anos pelas forças coloniais. Tereza estruturou um sistema de defesa que aproveitava o próprio armamento capturado dos colonizadores em confrontos anteriores, transformando cada ataque frustrado em reforço para a próxima investida contra o quilombo. A localização do Quariterê, de difícil acesso em meio ao Pantanal e cercada por rios e vegetação densa, também funcionava como proteção natural contra as expedições enviadas para destruí-lo, exigindo dos soldados portugueses um deslocamento longo e arriscado.
Essa combinação de organização econômica, estrutura política e capacidade de defesa permitiu que o Quariterê resistisse por mais de duas décadas sob o comando de Tereza, período em que a comunidade chegou a negociar e trocar mercadorias diretamente com colonizadores da região, driblando o isolamento que normalmente condenava outros quilombos ao esgotamento de recursos.
O quilombo foi destruído em 1770 por uma expedição comandada por Luís Pinto de Sousa Coutinho, então governador da capitania de Mato Grosso, que via na força e na autonomia do Quariterê uma ameaça direta ao controle colonial sobre a região das minas. A partir desse ataque, os relatos sobre o destino de Tereza divergem entre os historiadores. Parte da bibliografia afirma que ela foi capturada e morta pelas tropas portuguesas junto com outros quilombolas, enquanto outros registros sugerem que Tereza teria tirado a própria vida diante da destruição do quilombo, recusando-se a ser reescravizada depois de anos governando como mulher livre. Não há consenso documental sobre qual dessas versões corresponde exatamente aos fatos, e essa é uma das lacunas que a historiografia sobre Tereza ainda tenta preencher, resultado direto de como a história oficial do período tratou a experiência de lideranças negras como registro secundário.
Um nome que ainda precisa ser lembrado
A imagem mais difundida atribuída a Tereza de Benguela, com escarificações no rosto, não corresponde às marcas tradicionais dos povos da região de Benguela, o que indica que a ilustração não representa de fato sua aparência física. Como nenhum retrato de Tereza foi produzido em vida, a representação em circulação hoje foi adotada posteriormente por organizações do movimento negro como símbolo de sua liderança, e não como registro fiel de sua imagem. O detalhe reforça um ponto central para pesquisadores do tema, o de que tratar todas as pessoas escravizadas como um grupo homogêneo apaga as identidades étnicas e culturais específicas de cada povo africano trazido ao Brasil.
Mesmo com a data oficial instituída há mais de uma década, Tereza de Benguela segue menos presente do que outras figuras da resistência negra brasileira nos currículos escolares e nas comemorações de 25 de julho. Seu nome ganhou espaço em manifestações culturais ao longo dos anos, como o enredo “Tereza de Benguela, Uma Rainha Negra no Pantanal”, apresentado pela escola de samba Unidos do Viradouro no carnaval de 1994, e em composições musicais posteriores que buscaram resgatar sua memória fora dos livros de história. Ainda assim, sua trajetória como estrategista, administradora e líder política de uma comunidade autossuficiente permanece como um dos registros mais concretos de que mulheres negras construíram, sustentaram e defenderam estruturas de poder próprias no Brasil desde o período colonial, muito antes de qualquer reconhecimento oficial existir para contar essa história.
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