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	<title>Arquivos aquilombamento - Mundo Negro</title>
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	<description>Uma mídia negra diferente!</description>
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	<title>Arquivos aquilombamento - Mundo Negro</title>
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		<title>Treinar junto é aquilombar: os coletivos negros e a ciência explicam a importância do exercício em grupo</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/treinar-junto-e-aquilombar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[(MN) Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 19 Aug 2026 09:50:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[aquilombamento]]></category>
		<category><![CDATA[coletivos negros]]></category>
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		<category><![CDATA[saude negra]]></category>
		<category><![CDATA[treino em grupo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entenda por que treinar em coletivos negros aumenta a adesão aos exercícios e como o aquilombamento transforma a prática de atividades físicas em saúde.</p>
<p>O post <a href="https://mundonegro.inf.br/treinar-junto-e-aquilombar/">Treinar junto é aquilombar: os coletivos negros e a ciência explicam a importância do exercício em grupo</a> apareceu primeiro em <a href="https://mundonegro.inf.br">Mundo Negro</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Por Caroline Araujo Amorim</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>A ciência do exercício mostra que grupo de verdade sustenta a prática melhor do que aula de academia. Os coletivos negros já sabiam disso sem precisar de metanálise.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A pergunta que eu mais escuto de quem quer começar a treinar em grupo é se pode ir sozinha. Vem quase sempre meio sem jeito, como quem pede licença: “eu vou sozinha mesmo, tudo bem?”&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo bem, e a minha resposta é sempre a mesma. Ir sozinha não é a mesma coisa que ficar sozinha depois que chega, e essa distância entre uma coisa e outra é justamente o que muda quando o coletivo foi pensado para a população negra. A pessoa atravessa a porta sem conhecer ninguém e, no fim do treino, já tem gente sabendo o nome dela e perguntando se ela volta na semana seguinte.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas me contaram depois, quando já estavam à vontade, que tinham tentado academia antes e não conseguiram continuar. Os motivos que aparecem nessas conversas costumam ser bem concretos: mensalidade que pesa no orçamento, horário que não cabe na jornada, o trajeto de volta para casa no escuro, a sensação de estar num lugar onde não conhece ninguém e onde o corpo anunciado na parede não se parece com o seu. Nada disso é falta de disciplina, é a soma de coisas que tornam a permanência mais cara para umas pessoas do que para outras.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu venho defendendo há tempos que treino de força não é luxo estético, e sim construção de autonomia para os próximos trinta anos. Só que descobrir isso não resolve nada se a pessoa não conseguir permanecer, e é aí que essa conversa precisa mudar de lugar. O nosso problema com o exercício raramente é começar. É continuar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ciência do exercício tem uma resposta para isso, e ela é mais interessante do que parece. Uma metanálise clássica da área, feita por <strong>Burke </strong>e colegas, reuniu 44 estudos com mais de 4.500 participantes para comparar contextos de prática, e o resultado não foi simplesmente que em grupo é melhor do que sozinho. Foi mais fino: exercitar-se num grupo de verdade foi superior a fazer aula estruturada de academia, e a aula estruturada não se diferenciou de treinar em casa com algum contato. A adesão foi o desfecho mais beneficiado de todos. </p>



<p class="wp-block-paragraph">A diferença está aí, nesse detalhe. Estar numa sala com trinta pessoas não é a mesma coisa que pertencer a um grupo, e uma aula em que as pessoas mal se conhecem tende a não entregar esse efeito. O que entrega é coesão, vínculo, gente que percebe quando você falta. A literatura da minha área chegou, por caminho técnico, numa coisa que a população negra pratica neste país há mais de quatrocentos anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O quilombo nunca foi só esconderijo. Em 1985, num texto publicado na revista <em>Afrodiáspora</em>, a historiadora<strong> Beatriz Nascimento</strong> fez um movimento que mudou o jeito de olhar para o tema: ela mostrou como o quilombo deixa de ser apenas uma instituição do período colonial e vira princípio ideológico, uma forma de resistência cultural que reaparece ao longo do século XX sempre que pessoas negras se organizam para construir junto o que não recebem separadas. Ela seguiu esse fio no documentário <em>Ôrí</em>, de 1989, dirigido por <strong>Raquel Gerber</strong>, em que narra e assina o roteiro, e onde trabalha também a ideia de corpo como território para quem teve a terra tirada. Alguns anos antes, em 1980,<strong> Abdias Nascimento</strong> já havia proposto o quilombismo como projeto político, e não como lembrança de museu. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Aquilombar-se, nessa leitura, é reunir-se para existir com mais folga do que se existiria sozinho. E é exatamente o que os coletivos negros de atividade física estão fazendo hoje.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E não sou eu quem está inventando essa ponte entre quilombo e saúde. Pesquisadoras e pesquisadores ligados à Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz publicaram, em 2023, uma revisão sobre o aquilombamento como ferramenta de resistência e de promoção de saúde da população negra. Eles partem do quilombismo de Abdias Nascimento e da leitura de Beatriz Nascimento para descrever o aquilombamento como um movimento que resgata saberes ancestrais, coletiviza dores e enfrenta o racismo estrutural, que a própria revisão trata como o principal determinante social de saúde da população negra. A conclusão vai além do que se costuma imaginar: além do aquilombamento que as pessoas negras já praticam como modo de vida, é preciso aquilombar também os currículos, as epistemologias científicas, os espaços e as políticas de atendimento à saúde.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se dá para aquilombar um currículo e um serviço de saúde, dá para aquilombar um treino.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong><a href="https://mundonegro.inf.br/mulher-negra-musculacao-cansaco-trabalho-forca/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Hip Hop Workout Collective</a> </strong>nasceu em 2025, criado por mim, pela <strong>Juliana Oliveira </strong>e pela<strong> Juliane Daianny</strong>. Começou com uma caixa de som e um sonho, numa salinha pequena, e foi virando espaço de acolhimento para mulheres negras e para pessoas LGBTQIAPN+. Não montamos aquilo lendo metanálise, montamos porque fazia falta. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Preciso ser honesta sobre o tamanho da evidência que estou usando. A metanálise que citei é de 2006, junta estudos bem diferentes entre si, e os próprios autores reconhecem essa limitação. Ela mostra adesão maior em grupos coesos, o que não é a mesma coisa que provar que qualquer coletivo funciona melhor que qualquer outro formato e, até onde eu sei, ninguém testou em ensaio clínico coletivos negros brasileiros. O que existe é convergência entre o achado da adesão, o que a gente observa na prática e o que a pesquisa qualitativa vem descrevendo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Preciso abrir aqui um parêntese sobre as mulheres, porque tem uma camada que só aparece quando a gente separa. Uma revisão sistemática recente do Howard e do Bartholomew, publicada na <em>PLOS Global Public Health</em>, sintetizou dezoito estudos sobre barreiras e facilitadores à atividade física especificamente entre mulheres negras. É uma pesquisa americana, com pouco mais de 400 mulheres, e por isso não dá para transportar ao Brasil sem cuidado, mas os temas que aparecem são reconhecíveis demais para nós ignorarmos: motivação, suporte estruturado, saúde geral, ambiente, ideal de corpo e cabelo. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Numa revisão científica internacional, o cabelo aparece como barreira concreta à prática de exercício entre mulheres negras, porque o tempo e o dinheiro investidos nele são muito maiores do que os de outros grupos de mulheres. Suar significa refazer, e refazer custa hora e custa salário. Isso não é vaidade, é economia doméstica, e é o tipo de barreira que nenhum treino individualizado resolve, mas que um grupo de mulheres negras desata em cinco minutos de conversa, trocando o que funciona e normalizando chegar de trança, de turbante, de cabelo preso, do jeito que der. Por isso eu insisto que coletivo não é enfeite do treino, é parte do método.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Lélia Gonzalez</strong> escreveu, ainda nos anos 1980, sobre os lugares muito específicos que a cultura brasileira construiu para o corpo negro: o corpo que serve, que trabalha, que é consumido em determinadas datas do ano, sempre em função de outra pessoa. Quando a gente se reúne para treinar, o que está em disputa é justamente isso, o corpo negro deixando de ser instrumento e virando destinatário do próprio cuidado. E tem <strong>bell hooks</strong>, que em 1993 escreveu <em>Irmãs do inhame</em>, publicado no Brasil só em 2023. O detalhe que quase ninguém conta é que o livro não saiu da cabeça dela sozinha: nasceu de um grupo de apoio de mulheres negras que se reunia de fato e que dava nome à obra. O inhame do título vem de Toni Cade Bambara e carrega a ideia de sustentação da vida e de conexão diaspórica. Ou seja, o livro mais conhecido sobre autorrecuperação de mulheres negras foi ele próprio produzido dentro de um coletivo. Ela estava falando de saúde mental e de cura, não de agachamento, mas o princípio atravessa, já que é muito difícil se cuidar sozinho num mundo organizado para que você cuide de todo mundo menos de você. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando alguém me pergunta por que investir em coletivo em vez de simplesmente dar mais treino individual de graça, minha resposta é técnica antes de ser política. Adesão é o que determina resultado, e um treino excelente que a pessoa abandona em três semanas entrega menos do que um treino simples que ela mantém por três anos. O que segura alguém treinando não é a periodização perfeita, é ter gente esperando por ela.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se você é negro e já desistiu de treinar mais de uma vez, eu queria que você considerasse a possibilidade de que o problema nunca foi você, e sim que você tentou sozinho uma coisa que funciona melhor acompanhado. Procura um coletivo em que você se reconheça, onde as pessoas se pareçam com você e a sua presença não precise ser justificada. Existem mais do que a gente imagina, e vale perguntar, pesquisar, ir uma vez só para sentir. E se não houver nenhum por perto, chama alguém para treinar com você, porque duas pessoas com dia marcado já mudam bastante a chance de continuar. Nós aprendemos há séculos que sozinho ninguém aguenta muito tempo, e isso nunca foi discurso bonito, foi estratégia de sobrevivência. Continua sendo, inclusive no treino. </p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Caroline Araujo Amorim é formada em Educação Física há oito anos, com pós graduação em ortopedia e reabilitação pelo Hospital Albert Einstein. Atleta de powerlifting, é cofundadora do Hip Hop Workout Collective e criadora do aplicativo APPCAH. Instagram: @carolinepersonall&nbsp;</em></p>



<h2 id="h-referencias-nbsp" class="wp-block-heading"><strong>Referências&nbsp;</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BURKE, S. M.; CARRON, A. V.; EYS, M. A.; NTOUMANIS, N.; ESTABROOKS, P. A. Group versus individual approach? A meta-analysis of the effectiveness of interventions to promote physical activity. <em>Sport and Exercise Psychology Review</em>, v. 2, n. 1, p. 19-35, 2006.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOWARD, S. L.; BARTHOLOMEW, J. B. Barriers and facilitators to physical activity among Black women: a qualitative systematic review and thematic synthesis. <em>PLOS Global Public Health</em>, v. 4, n. 12, e0003202, 2024. DOI: 10.1371/journal.pgph.0003202&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">MIRANDA, A. A. M. et al. Social inequalities in leisure-time and transport-related physical activity through the lens of intersectionality: 10-year longitudinal study in Brazil. <em>International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity</em>, v. 23, art. 64, 2026. DOI: 10.1186/s12966-026-01900-5&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">RIMOLI, T. M.; SANTOS, A. P. M. B.; PIRES, L. J. A.; MENDES, E. C. Aquilombamento como ferramenta de resistência e promoção de saúde da população negra. <em>Revista de Saúde Coletiva da UEFS</em>, v. 13, n. 2, e9284, 2023. DOI: 10.13102/rscdauefs.v13i2.9284&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">NASCIMENTO, Maria Beatriz. O conceito de quilombo e a resistência cultural negra. <em>Afrodiáspora: Revista do Mundo Negro</em>, Rio de Janeiro: IPEAFRO, n. 6-7, p. 41-49, 1985.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">ÔRÍ. Direção: Raquel Gerber. Roteiro e narração: Beatriz Nascimento. Brasil, 1989. Documentário, 131 min.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">NASCIMENTO, Abdias do. <em>O Quilombismo: documentos de uma militância pan africanista</em>. Petrópolis: Vozes, 1980.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: SILVA, Luiz Antônio Machado da (Org.). <em>Movimentos sociais urbanos, minorias étnicas e outros estudos</em>. Brasília: ANPOCS, 1984. (Ciências Sociais Hoje, 2), p. 223-244.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOOKS, bell. <em>Irmãs do inhame: mulheres negras e autorrecuperação</em>. Tradução de floresta. Prefácio de Ynaê Lopes dos Santos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2023. [Original: <em>Sisters of the Yam: Black Women and Self-Recovery</em>. Boston: South End Press, 1993.]u</p>



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