A publicitária Deh Bastos é uma das fundadoras do projeto “Criando crianças pretas” uma das principais iniciativas online e com ações off-line para ajudar os pais de crianças negras com diversas questões do dia a dia.

Nesse texto ela conta seu relato de parto, bem complicado, solitário, mas antes ela fala do racismo que sofreu nas sua vivências da gravidez do ponto de vista da mulher negra.

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RACISMO OBSTETRICO

Um ano antes, quando eu tive um aborto e na curetagem, o enfermeiro disse para eu parar de chorar porque “minha gente é muito forte”.
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E na amamentação que outra médica rindo disse que “as negras têm leite para alimentar muitas crianças, desde sempre”.

Depois que postei no Instagram do Criando Crianças Pretas que a médica me disse que eu precisava tirar as tranças para entrar no centro cirúrgico, recebi MUITAS mensagens, muitas de apoio, muitos relatos e uma meia dúzia de pessoas dizendo que o que eu passei não foi racismo e sim procedimento médico, então a tentativa de silenciar a nossa voz é constante!

“Eu sei que existe esse procedimento por causa do bisturi elétrico, que na teoria, poderia queimar as tranças, mas também pode queimar cabelos compridos e alongamentos e nenhuma mulher branca recebe a imposição para retirar o megahair loiro para passar pela cirurgia.

Tanto isso é um desrespeito a minha IDENTIDADE NEGRA, por parte do hospital que no outro hospital a enfermeira me ajudou a prender as tranças, improvisou uma touca (que obvio não era adequada para o volume do meu cabelo).

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O racismo e a violência obstétrica juntos são o que há de mais cruel com uma mulher no momento mais vulnerável de sua vida. Ter que lidar com essas situações, nesse momento, foi uma das maiores feridas que o racismo fez em mim.”

#RelatodeParto

O DESEJO DE PARIR

Quando fui chamada para produção do programa Boas Vindas (BV) do canal GNT, confesso que fiquei apreensiva… putz, acompanhar mulheres em trabalho de parto para um reality na TV?! Nunca nem curti essa história de gravidez… RESUMO: depois de 3 temporadas, o BV já tinha se tornado o trabalho mais significativo da minha vida… o lindo universo da #partolândia já tinha transformado a forma como eu via o mundo.

Quando decidimos planejar um filho, a única certeza que eu tinha, era que queria um parto humanizado e que, se tudo estivesse bem, seria um Parto Normal (PN).

 

A LUTA DIÁRIA NA #GRAVIDEZ

Tive hiperêmese gravídica grave (ocorrência de vômitos incontroláveis durante a gestação, resultando em desidratação, perda ponderal e cetose), tive esofagite (inflamação da mucosa do esôfago), emagreci 13kg. Fiquei internada com desidratação, extrai um dente e fiz uma endoscopia sem anestesia, momentos de depressão… e eu só focava em estudar sobre parto e agradecia a Deus, porque com o José tudo estava bem e poderíamos ter um PN.

 

A ESCOLHA DA EQUIPE

ERREI justamente aí. Confiei na forma simples como sempre faço as coisas e acreditei que daria certo (DEU! mas não como planejei). Meu Ginecologista Obstetra  (GO) me cobrou uma fortuna e eu não tinha um pingo de confiança de que na hora H, ele me apoiaria num PN. Eu estava vivendo um dia por vez, passando mal 24h e não tive forças para procurar outra equipe há tempo.

Visitamos todas as maternidades possíveis de #Jundiaí, decidimos contratar uma obstetriz – mais conhecida como parteira – para me acompanhar em casa até o trabalho de parto ativo e depois iríamos para o plantão do Hospital Paulo Sacramento (por fim, Rebeca não me acompanhou no parto, mas foi uma querida tirando dúvidas, se fazendo presente e me dando segurança). Escolhemos o Hospital Paulo Sacramento, pois até então, na visita e pesquisas que realizamos, era o hospital amigo da mulher e da criança e apoio ao PN.

 

40 SEMANAS DE GRAVIDEZ

Na consulta, o GO, me liberou para uma pequena viagem e tudo.. fomos à uma festa, dancei até o chão (chocando a sociedade barrabonitense), tudo na esperança de finalmente começar a sentir o trabalho de parto… e nadaaaaaa. Voltamos. O médico havia indicado que de 3 em 3 dias eu deveria ir ao Hospital de Paulo Sacramento (HPS), para  fazer cardiotocografia (método biofísico não invasivo de avaliação do bem estar fetal). Lá fui eu, toda feliz, confiando que lá encontraria o hospital “amigo”.

 

MEDO, SOLIDÃO E UMA DECISÃO DIFÍCIL

No plantão, uma médica jovem e apressada se assustou quando viu a ultrassom e disse que o bebê, provavelmente, já teria mais de 4.200kg, e que eu deveria ter feito uma Cesariana com 38 semanas. Quando ela viu um exame de glicemia, que estava no limite, me rotulou como diabética e praticamente me trancou no consultório. Me senti acuada, ela não ouvia, disse que a gente era leigo e não tínhamos ideia do perigo de morte que estávamos colocando nosso filho. Entre tantos absurdos que ela me disse no momento mais sensível da minha vida, uma coisa fica ecoando na minha memória – ela olhando com nojo para minhas tranças e dizendo: “Você vai ter que tirar isso daí da cabeça pra entrar no meu centro cirúrgico.”

Apesar de ter muita convicção do que eu queria, em como eu estava acompanhando tudo e a certeza de que estava tudo bem… dei uma baqueada! Ela disse que tinha muitas chances do bebê nascer morto e eu desabei… Ela quis marcar a cesariana para o outro dia cedo, o cardiotocografia estava 100% e eu saí praticamente fugida do hospital.

Mandei mensagem para o GO (convênio), queria só mais uma consulta pra me sentir segura e ele me disse exatamente isso: “Não posso mais te atender porque você escolheu ter no plantão do HPS, só posso te atender no particular se quiser.” Meu chão abriu, me senti SOZINHA, uma mercadoria com preço… Orei a noite toda, respirei, pensei na situação, nos contras, nos prós.

Pela manhã,  sentei na cama e disse para o meu marido: amor, chega! Não dá mais pra mim! Chorei… chorei… e voltei pro plantão do HPS, vai que dava sorte… aconteceu de novo,  uma médica, um pouco mais simpática, mas com a mesma postura. Enquanto ela falava, decidi que cesariana por cesariana eu iria para o Hospital Santa Elisa (HSE), que não me prometeu ser humanizado, mas que eu tinha ido a gravidez toda e já me conheciam.

Cheguei no HSE murcha, mas tranquila com a decisão de que eu tinha ido muito longe sozinha (sem amparo médico), numa cidade com atendimento obstétrico enraizado nas intervenções.

Fui reconhecida pelo segurança, pela moça da recepção, pelos enfermeiros e todos sorriam e diziam: chegou a hora, hein! No plantão, duas médicas me atenderam e me OUVIRAM… perguntaram se eu não queria induzir, me lembrei do aborto, das 12h esperando o colo abrir, do sofrimento da espera artificial, de como eu desejei passar por isso de forma natural, na minha casa… Então, decidi que não queria a indução. Aquilo tudo ainda poderia ser muito mais doído, traumático e frustrante do que já estava. Anderson, meu marido, ao meu lado o tempo todo, me perguntou mil vezes se eu estava certa da escolha pela cesariana.

 

Nos corredores, eu encontrei médicos que me atenderam ao longo da gravidez, gente a fim de ficar me acompanhando… encontrei muito CARINHO!

Já no quarto, eu perguntei para a enfermeira quem estava no centro cirúrgico. Eu disse que não queria ser atendida pela Dr. Rafaela (que em um atendimento insinuou que eu havia provocado o aborto na minha primeira gravidez. Na época, ela disse que eu não queria trabalhar e que eu estava rejeitando a gravidez). A enfermeira extremamente carinhosa disse que ia verificar, e me disse que tudo daria certo.

Alguns minutos e um anjo chamado Andrea entrou no quarto. Disse que era chefe da enfermagem do centro cirúrgico e perguntou como eu estava… desabei a chorar, e disse frustrada que eu não queria uma cesariana porque sonhava com um parto humanizado… mas que estava exausta, que já tinha passado por racismo e tinha feito plano de parto e não queria ficar sozinha no pós operatório e … Ela me olhou e disse: Vou fazer tudo o que der pra fazer pra ser como você sonhou, mesmo sendo uma cesariana.

Os maqueiros chegaram sorrindo e pedindo para o Anderson acompanhar a gente… Enquanto ele trocava de roupas me colocaram no corredor onde eu podia vê-lo. Entramos no centro cirúrgico e Anderson ficou ao meu lado o tempo TODO. Dra. Flávia, anestesista, foi muito delicada, simpática. Ela fez tudo pra me distrair. As duas, Dra. Flávia e Dra. Gabriela, muito concentradas, me olhavam o tempo todo e diziam o que e porque estavam fazendo os procedimentos… Só sentia a mão do Anderson apertando a minha e o percebia ligado em tudo.

 

Passei mal pra caramba por causa da anestesia, pressão caiu, vomitei, falta de ar e de repente, ouço Anderson dizendo: amor, ele é muito cabeludo!

 

JOSÉ CHEGOU

TUDO PAROU… eu vi a médica passando José para a pediatra, uns braços e pernas enoooormes, cheio de cabelo e uma tranquilidade contagiante… só lembro de perguntar se ele estava bem e ouvi a médica dizer: ele tá ótimo, enorme e fazendo xixi nas tias todas aqui!

Nunca na minha vida vou me esquecer daqueles olhinhos brilhando, vivos e tranquilos… colocaram ele num rolinho e ele parecia um pacotinho… era meu presente. Foi mais que lindo… foi emocionante, foi humano demais.

Vi Andrea com meu plano de parto nas mãos conversando com a pediatra. Me lembro que Andrea pegou na minha mão e disse: vou indo agora, depois passo pra te ver (o plantão dela já havia acabado, mas ela ficou comigo). José não foi aspirado, não colocaram colírio, não deram banho, como constava no meu plano de parto. Como eu estava passando mal, pedi pro Anderson pegar ele e fazer o contato pele a pele…  eles ficaram mais de 2h grudados um ao outro e ao meu lado enquanto eu me recuperava da anestesia.

Fomos pro quarto e o resto é só AMOR.

Foi como eu sonhei? Não!

Foi melhor do que eu esperava, MUITO!

Uma cesariana humanizada e respeitosa… foi necessária?!  Não sei, não sou médica e naquele momento eu não tinha um pra confiar. Estou tranquila, realizada.. José está seguro, nasceu tranquilo, MADURO.. o colostro desceu, o leite chegou. Lutei muito pra ele chegar bem e deu certo. Isso importa ❤

CUIDEM DAS GRÁVIDAS PRETAS! A-C-O-L-H-A as manas!!! Não importa o que esteja acontecendo, olhe nos olhos dela e diga: VAI FICAR TUDO BEM… ESTAMOS COM VOCÊ! (Foto: Arquivo pessoal)

Tudo é tão intenso na gravidez que a gente só se dá conta disso quando passa, ou pior, no puerpério (mas esse papo a gente bate depois).

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CUIDEM DAS GRÁVIDAS PRETAS! A-C-O-L-H-A as manas!!! Não importa o que esteja acontecendo, olhe nos olhos dela e diga: VAI FICAR TUDO BEM… ESTAMOS COM VOCÊ!

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