Em 16 de junho de 1976, estudantes negros de Soweto enfrentaram o apartheid e mudaram a história da África do Sul. Conheça o levante que abalou o mundo.
O apartheid transfom lei e a educação em instrumento de controle
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O regime de segregação racial implementado na África do Sul em 1948 pelo Partido Nacional, composto por uma minoria branca, foi chamado de apartheid, palavra que em africâner significa separação. O que o nome descrevia com frieza burocrática era, na prática, um sistema que decidia onde cada pessoa podia morar, estudar, trabalhar, circular e se tratar, com base exclusivamente na cor de sua pele. A população sul-africana foi dividida oficialmente em categorias raciais: brancos, negros, mestiços e indianos, e o governo produziu uma legislação extensa para garantir que essa divisão fosse absoluta e permanente.
Casamentos inter-raciais eram proibidos, e o ato sexual entre pessoas de raças diferentes era punido com prisão. Negros não votavam, não ocupavam cargos no governo e não tinham acesso às mesmas estruturas públicas que os brancos. O apartheid não inventou o racismo sul-africano, que vinha sendo construído desde a colonização holandesa no século XVII e depois aprofundado pelos britânicos. O que ele fez foi organizar esse racismo, legislá-lo e torná-lo obrigatório. A educação, dentro desse sistema, funcionava como instrumento de rebaixamento deliberado: negros pagavam para frequentar escolas superlotadas com professores desqualificados, enquanto a educação para os brancos era gratuita e de qualidade.
Soweto existia para servir Joanesburgo e nunca para pertencer a ela
Construída como cidade-dormitório a 16 quilômetros de Joanesburgo, Soweto foi erguida pelo regime do apartheid para abrigar exclusivamente os negros que trabalhavam nas minas de ouro, nas fábricas e nas residências dos brancos da área metropolitana. O nome é uma contração de South Western Townships, as cidades-satélite criadas para manter a população negra afastada dos centros urbanos habitados por brancos. A lógica era simples e brutal: a força de trabalho negra era indispensável para o funcionamento da economia sul-africana, mas sua presença nas cidades brancas precisava ser controlada, limitada e, ao fim do expediente, devolvida para longe.
Dentro desse arranjo, o sistema educacional funcionava como mais um mecanismo de contenção. As escolas de Soweto eram pagas, superlotadas e contavam com professores sem a qualificação exigida nas escolas brancas, que eram gratuitas e financiadas pelo Estado. Em 1974, o governo tornou ainda mais difícil ao publicar o chamado Decreto do Meio Africâner, determinando que as escolas secundárias para alunos negros passariam a ensinar matemática, ciências sociais e geografia obrigatoriamente no idioma africâner. Os estudantes se recusaram a aprender a língua dos colonizadores.
Uma geração formada para resistir chegou às ruas com consciência e organização
Os estudantes que marcharam em 16 de junho de 1976 não chegaram àquele ponto por impulso. Stephen Bantu Biko, ativista nascido em 1946, havia transformado a relação da juventude negra sul-africana com sua própria identidade por meio do Movimento da Consciência Negra. Em 1972, Biko fundou a Black Peoples Convention, que reuniu cerca de 70 grupos e associações, entre eles o South African Student’s Movement, organização estudantil que desempenhou papel central na articulação do levante de Soweto. O movimento adotou o slogan “Black is Beautiful” e combatia a noção de inferioridade que o regime tentava instalar na população negra desde a infância.
Biko entendia que o apartheid não operava apenas por leis e violência física. Ele funcionava também ao convencer os próprios oprimidos de que eram menos. Combater essa crença era, para ele, tão urgente quanto combater qualquer decreto do governo. Até aquele momento, o Congresso Nacional Africano, principal movimento de libertação do país, estava enfraquecido pela prisão de Nelson Mandela e de outros líderes. Foi nesse espaço que as ideias de Biko ganharam força entre os jovens. Os estudantes de Soweto chegaram ao 16 de junho com consciência política formada, cartazes escritos à mão e clareza sobre o que estavam fazendo.
Entre 10 mil e 20 mil estudantes saíram às ruas cantando.
O fotojornalista Sam Nzima, do jornal The World, principal veículo da comunidade negra de Joanesburgo, chegou a Soweto antes do sol nascer. A redação havia sido informada de que haveria uma grande marcha estudantil naquele dia. Nzima encontrou os alunos na Naledi High School às 6h da manhã e os acompanhou enquanto escreviam os cartazes que carregariam durante o protesto. À medida que as horas avançavam, os estudantes começaram a caminhar em direção ao Orlando Stadium, onde planejavam fazer um comício. No Morris Isaacson High School, o líder estudantil Tsietsi Mashinini subiu em uma árvore para ser visto e pediu à multidão, que já somava cerca de 15 mil pessoas, que mantivessem a ordem e a paz. Os cartazes diziam “Abaixo o Africâner”. Os jovens cantavam em suas línguas maternas: zulu, xhosa, sotho.
A marcha seguia pacífica quando a polícia interveio. Um policial atirou uma bomba de gás lacrimogêneo, outro achou que eram os estudantes que tinham disparado, e todos começaram a atirar contra a multidão. Em segundos, uma passeata de jovens desarmados virou campo de batalha. Hector Pieterson, de 12 anos, foi uma das primeiras vítimas. A perícia realizada após sua morte revelou que ele foi atingido por um tiro disparado diretamente contra ele, não por uma bala ricocheteada no chão, como a polícia afirmou. Sam Nzima fotografou Hector sendo carregado pelo estudante de 18 anos Mbuyisa Makhubo, com a irmã de Hector, Antoinette, correndo ao lado com o uniforme escolar e o rosto desfigurado pelo choque. A imagem foi publicada naquele mesmo dia na edição vespertina do The World. No dia seguinte, a revista Time foi a primeira publicação internacional a circular a foto, seguida pela Reuters, que a distribuiu para redações em todo o mundo. A imagem foi reconhecida pela Time entre as 100 fotografias mais influentes do século. O próprio Nzima refletiu anos depois que havia quem acreditasse que aquela fotografia havia libertado a África do Sul, por causa das expressões nos rostos das pessoas nela retratadas.
O massacre se espalhou pelo país e o regime nunca mais foi o mesmo
Pelo menos 23 pessoas morreram no primeiro dia do levante, duas delas brancas e favoráveis à integração racial. Por três dias, em várias partes do país, houve confrontos, incêndios e saques, com centenas de mortos e mais de mil feridos. A revolta não ficou contida em Soweto. Espalhou-se por outras cidades e regiões da África do Sul, transformando o que começou como um protesto estudantil em uma insurreição que o regime não esperava e não soube conter. O governo designou o juiz Petrus Malan Cillié para liderar uma comissão encarregada de registrar e analisar o levante. A Comissão Cillié constatou oficialmente 575 mortos, mas há a compreensão geral de que o número real seria maior, e que dados podem ter sido omitidos para evitar prisões. Estatísticas não oficiais apontam até 700 mortos e 4 mil feridos ao longo de todo o período de agitação que se seguiu ao 16 de junho.
Mbuyisa Makhubo, o jovem que aparece na fotografia carregando Hector Pieterson, tornou-se alvo da polícia do apartheid após a imagem circular pelo mundo. Ele fugiu da África do Sul e desapareceu na Nigéria em 1979, com 21 anos. Nunca foi encontrado.
Soweto marcou o início do fim do apartheid e o nascimento de uma data que o mundo passou a reconhecer
Com o Levante de Soweto iniciou-se a contagem regressiva para o fim do apartheid. A data 16 de junho passou a ser chamada de Dia da Juventude na África do Sul, marcando o começo de uma série de manifestações que se prolongariam por 18 anos e culminariam nas primeiras eleições democráticas do país, em 1994, vencidas pelo Congresso Nacional Africano com Nelson Mandela eleito presidente. A exposição internacional da brutalidade do regime intensificou sanções econômicas e o isolamento diplomático da África do Sul, corroendo as bases de sustentação do apartheid por dentro e por fora. Em 1991, a Organização da Unidade Africana instituiu o 16 de junho como Dia Internacional da Criança Africana, em memória das vítimas de Soweto e em defesa dos direitos das crianças e jovens africanos.
Mesmo após as eleições de 1994, as décadas de educação deliberadamente precarizada deixaram marcas profundas no sistema educacional sul-africano. Em 2015, estudantes voltaram às ruas com o movimento Fees Must Fall, protestando contra as taxas cobradas nas universidades públicas. Um dos cartazes carregados durante aquelas manifestações dizia: “Pensei que tínhamos tido essa conversa em 1976.” O Museu Hector Pieterson foi inaugurado em Soweto em 2002, a poucos metros do local onde o menino foi baleado. Antoinette Sithole, a irmã que aparece correndo na fotografia de Sam Nzima, ainda vive em Soweto e segue contando o que aconteceu naquele dia. Algumas histórias não envelhecem. Elas cobram resposta.
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