Mundo Negro

Solange Borges defende a memória da cozinha afro-brasileira no Prêmio Black Chefs 

Foto: Arquivo Pessoal

Sucessora do tabuleiro de Dona Joselita Borges e consultora do Prêmio Black Chefs 2026 em Salvador, a chef fala ao Mundo Negro sobre ancestralidade, espiritualidade, reconhecimento dos saberes tradicionais e valorização da gastronomia negra.

A chef Solange Borges, consultora do Prêmio Black Chefs 2026 em Salvador, defende que a valorização da gastronomia afro-brasileira passa pelo reconhecimento de quem construiu seus conhecimentos e os transmitiu entre gerações. Filha de Dona Joselita Borges, baiana de acarajé, ela transformou essa herança em parte central de seu trabalho à frente do Culinária de Terreiro, restaurante e projeto no município baiano de Camaçari, que conecta gastronomia, memória e cultura afro-brasileira.

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Em entrevista exclusiva ao Mundo Negro, Solange fala sobre a importância de registrar os saberes tradicionais, a presença das mulheres negras na história da alimentação brasileira e os limites entre compartilhar conhecimentos culinários e preservar a dimensão sagrada das práticas do Candomblé, abordando os desafios para que profissionais que sustentam esses conhecimentos sejam reconhecidas e remuneradas de forma justa.

Realizado pelo Guia Black Chefs, vertical de gastronomia do Mundo Negro, com patrocínio do iFood, o Prêmio Black Chefs 2026 reconhece, por votação popular, negócios de comida e bebida comandados por pessoas negras em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Na capital baiana, Solange integra a consultoria da iniciativa, que busca ampliar a visibilidade de estabelecimentos e profissionais que movimentam a gastronomia negra.

Dona Joselita e o conhecimento transmitido pelo tabuleiro

A relação de Solange com a cozinha começa com a mãe, Dona Joselita Borges, que trabalhou como baiana de acarajé. Foi a partir dessa herança que a chef passou a refletir sobre quem aparece quando se pesquisa a história de uma receita e quem tem seu conhecimento reconhecido como referência.

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Ao procurar informações sobre o acarajé nas redes sociais, Solange percebeu que as mulheres responsáveis pela transmissão tradicional desse saber nem sempre ocupavam o lugar de destaque. Para ela, esse apagamento revela a necessidade de reconhecer as baianas de acarajé como detentoras de conhecimentos técnicos, culturais e econômicos.

“Eu percebi que era um patrimônio cultural que precisava ser reconhecido e preservado quando comecei a buscar a receita do acarajé nas redes sociais e não encontrava as mulheres que compreendem o tabuleiro da baiana, fazendo a receita”, conta.

A experiência também evidenciou uma diferença entre o conhecimento construído pela prática e aquele registrado em livros, pesquisas e instituições de ensino. Dona Joselita, por exemplo, dominava a preparação dos alimentos sem depender de receitas escritas.

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“Minha mãe sabia fazer comida, mas nunca soube ler uma receita. Foi a partir daí que comecei a me posicionar e a entender que precisava incentivar outras pessoas que têm o saber tradicional a mostrar o que sabem”, afirma.

Para Solange, reconhecer essa experiência significa compreender que o conhecimento culinário não nasce exclusivamente dos espaços acadêmicos. As pesquisas e os livros também são importantes, mas precisam reconhecer as pessoas e as comunidades de onde vieram os saberes que documentam.

A cozinha também é um lugar político

A discussão sobre memória se conecta à defesa que Solange faz da presença da gastronomia afro-brasileira nos livros, nas pesquisas e nos debates públicos. Durante a elaboração de seu trabalho de conclusão de curso, ela sentiu falta de referências que dialogassem com sua trajetória e com os conhecimentos que desejava estudar.

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A experiência reforçou sua convicção de que registrar esses saberes é fundamental para que possam ser citados, pesquisados e reconhecidos como parte da produção de conhecimento no país.

“Se a gente não está no livro, a gente não pode ser citado nos ensaios, nos artigos e em tudo mais. Então, é muito importante trazer a cozinha para esse lugar político”, afirma.

A chef também chama atenção para a presença da comida nos diferentes momentos da vida coletiva. Nascimentos, celebrações e despedidas são ocasiões em que a alimentação reúne pessoas, cria e preserva memórias. A cozinha, nesse sentido, é também um espaço de relações sociais, transmissão cultural e discussão política.

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Segundo ela, as mulheres negras que trabalharam como cozinheiras, baianas de acarajé e responsáveis pela alimentação de outras famílias precisam ocupar o centro dessa narrativa. O conhecimento que construíram deve ser reconhecido como parte da história da gastronomia brasileira.

“É a gente que sempre fez essa comida. A gente precisa protagonizar essa história e trazer essa história para o centro dos nossos debates, sem ter vergonha de mostrar o nosso saber ancestral”, defende.

Espiritualidade e respeito aos saberes sagrados

No Culinária de Terreiro, a relação com a comida possui uma conexão direta com a espiritualidade. Solange relata que sua vivência nas comunidades de Candomblé orienta seu trabalho e a forma como compreende os alimentos, a ancestralidade e as práticas culinárias.

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Ao falar sobre como compartilha esse conhecimento com o público, ela estabelece uma distinção entre ensinar uma receita e expor os fundamentos litúrgicos de uma tradição religiosa.

A chef compartilha, por exemplo, o que aprendeu com a mãe sobre o preparo do acarajé, alimento ligado à história das baianas e reconhecido como patrimônio cultural da Bahia. Já os rituais do Candomblé permanecem vinculados à vivência comunitária, à hierarquia religiosa e às orientações de quem conduz essas práticas.

“Eu compartilho o que Mainha me ensinou. Ensino como fazer acarajé, mas os rituais e a liturgia do Candomblé você precisa vivenciar dentro do terreiro. Isso você nunca vai me ver fazendo nas redes sociais”, explica.

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A escolha expressa a maneira como ela compreende a preservação cultural: compartilhar a história e os conhecimentos culinários não significa tornar públicos todos os aspectos de uma tradição. Há saberes que podem ser ensinados abertamente e outros cujo aprendizado depende da participação e da orientação dentro da própria comunidade religiosa.

O desafio de transformar reconhecimento em remuneração

A visibilidade nas redes sociais abriu novas possibilidades para a chef apresentar seu trabalho e falar sobre a história da culinária afro-brasileira. Ao mesmo tempo, ela aponta que alcançar o público não garante, por si só, remuneração justa ou reconhecimento profissional.

Como mulher negra, integrante do Candomblé e herdeira de uma tradição familiar ligada ao tabuleiro do acarajé, ela identifica o racismo estrutural como parte dos desafios enfrentados por quem reivindica espaço para esses conhecimentos.

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“Quais são as marcas que me pagam dignamente para falar sobre esse assunto?”, questiona.

A pergunta evidencia uma contradição: profissionais podem ser procuradas para falar sobre ancestralidade, cultura e gastronomia sem receber uma remuneração compatível com o conhecimento que oferecem. Para Solange, a valorização precisa se traduzir em condições concretas de trabalho, oportunidades e respeito à trajetória de quem detém esses saberes.

Ela afirma que procura ampliar sua presença pública dentro das próprias condições e possibilidades, usando as tecnologias digitais para compartilhar sua história e defender o reconhecimento das tradições que representa.

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“Eu preciso cada vez mais me valorizar e valorizar o meu saber. […] A gente precisa parar desse lugar de subserviência. Nós somos protagonistas”, afirma.

Um legado que precisa chegar às próximas gerações

A transmissão do conhecimento culinário continua presente na família de Solange por meio de seus filhos e netos, que também sabem preparar acarajé e compreendem a importância dessa tradição na história familiar.

Para a chef, a preservação dos saberes tradicionais depende de que as pessoas conheçam e contem suas próprias histórias. A recomendação se estende a outros ofícios e práticas artesanais, como a produção de cocadas, bolsas de palha e trabalhos de costura, que também carregam conhecimentos desenvolvidos e transmitidos ao longo do tempo.

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“Quem faz cocada, quem faz bolsas de palha, quem é costureira, quem tem outros saberes tradicionais e artesanais: a gente precisa contar essa história com muito orgulho, porque ela está na base de tudo”, diz.

Ao defender que essas trajetórias sejam narradas com orgulho, Solange reivindica o reconhecimento das pessoas que produzem, preservam e compartilham conhecimentos. Para ela, a próxima geração precisa compreender a força cultural e política dessas práticas e encontrar condições para dar continuidade a elas.

“Precisamos cada vez mais nos orgulhar dessa potência que somos e contar essas histórias com muito orgulho, com o peito para a frente e a cabeça erguida”, conclui.

Prêmio Black Chefs 2026

O Prêmio Black Chefs é realizado pelo Guia Black Chefs, vertical de gastronomia do Mundo Negro, com patrocínio do iFood. A iniciativa reconhece negócios de comida e bebida comandados por pessoas negras em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, por meio de votação popular.

A premiação contempla sete categorias: Comida afro, Almoço de todo dia, Comida de rua, Mesa de bar, Ocasião especial, Doce e Lanche. Os vencedores recebem uma placa do prêmio, reportagem no Mundo Negro e vídeo produzido pela equipe do portal, publicado em colaboração com os perfis do Guia Black Chefs e do próprio negócio.

Serviço

Prêmio Black Chefs 2026

O voto só é contabilizado após a confirmação pelo link enviado ao e-mail informado no cadastro.

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