Fifa investiga ataque racista de torcedores argentinos contra o influenciador IShowSpeed na Copa, enquanto Messi segue sem se manifestar sobre o caso.
A Fifa investiga, desde o início de julho, ataques racistas cometidos por torcedores argentinos contra o influenciador americano IShowSpeed durante a Copa do Mundo de 2026. O episódio aconteceu em 3 de julho, no Hard Rock Stadium, em Miami, durante a vitória da Argentina sobre Cabo Verde por 3 a 2. O criador de conteúdo, que acompanhava a partida vestindo a camisa da seleção cabo-verdiana, foi hostilizado por torcedores argentinos, alguns dos quais teriam imitado um macaco em sua direção. A entidade abriu investigação formal e afirmou que esse tipo de comportamento não tem lugar no futebol, mas ainda não divulgou prazo de conclusão nem informou se os torcedores envolvidos foram identificados.
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Lionel Messi, capitão da seleção argentina e maior artilheiro da história das Copas do Mundo, não se pronunciou sobre o episódio até o momento. O silêncio ganha peso diante do lugar que ele ocupa neste torneio, ovacionado a cada cidade que a Argentina visita e citado como o principal nome do futebol mundial em disputa pelo título. Enquanto astros como Kylian Mbappé reagiram publicamente após serem alvo direto de ataques racistas durante a mesma Copa, Messi optou por não comentar um episódio de racismo cometido dentro do próprio grupo de torcedores que o idolatra. Não se trata de um detalhe menor, um jogador com esse nível de audiência e influência define, com cada silêncio, o que considera digno de comentário e o que prefere deixar passar.
A situação ganhou outra camada em 4 de julho, quando Messi foi fotografado sorridente ao lado do ativista espanhol de extrema direita Javier Negre. Negre é sócio do portal La Derecha Diario e conhecido por divulgar conteúdo racista, misógino e desinformação contra minorias. Ele responde na Espanha a um processo movido pelo Ministério Público, que pediu pena de um ano e meio de prisão por humilhar publicamente uma mulher com deficiência intelectual durante um protesto político. A imagem ao lado de Messi gerou repercussão internacional e reacendeu questionamentos sobre o entorno político do jogador, ainda que não haja confirmação de que ele conhecesse o histórico de Negre no momento do encontro.
Em coluna publicada pelo UOL, a jornalista Milly Lacombe observou que parte do discurso antirracista de brasileiros em relação à Argentina só ganha força depois que a seleção brasileira já está eliminada do torneio, o que esvazia sua consistência quando confrontado com episódios como o de Miami. Já o jornalista Thiago Amparo, em coluna na Folha de S.Paulo, tratou do apagamento histórico que sustenta esse silêncio coletivo, apontando que a ausência de rostos negros nas arquibancadas argentinas costuma ser lida como prova de uma suposta homogeneidade racial que a própria história do país desmente.
Nascida em Buenos Aires por volta de 1766, María Remedios del Valle era uma mulher negra que se juntou ao Exército do Norte durante as guerras de independência da Argentina, ao lado do marido e dos dois filhos. Perdeu os três em combate na batalha de Huaqui, mas seguiu na linha de frente, cuidando de feridos e enfrentando o inimigo nas batalhas de Tucumán, Salta, Vilcapugio e Ayohuma. Foi ferida, capturada pelas forças espanholas e açoitada publicamente por nove dias seguidos, mas conseguiu escapar. Pelo compromisso e pela coragem demonstrados em combate, o general Manuel Belgrano a nomeou capitã de seu exército, tornando-a uma das poucas mulheres a ocupar patente militar na guerra.
Décadas depois, María Remedios foi reconhecida pedindo esmola nas ruas de Buenos Aires pelo general Juan José Viamonte, que havia lutado ao lado dela. A partir do relato dele e de outros oficiais, o Congresso argentino aprovou, por unanimidade, uma pensão vitalícia e o reconhecimento oficial de sua patente de capitã de infantaria, em 1827. Ficou conhecida como a Madre da Pátria, e desde 2013 o dia 8 de novembro, data de sua morte, é o Dia Nacional dos Afroargentinos e da Cultura Afro no país. Em 2022, um monumento em sua homenagem foi instalado em Buenos Aires. Um ano depois, foi incendiado por completo, em um ato tratado pelas autoridades locais como crime de ódio.
Até o fechamento desta reportagem, Messi não havia se manifestado sobre nenhum dos dois episódios, nem sobre o racismo direcionado a IShowSpeed, nem sobre a repercussão da foto ao lado de Javier Negre. O silêncio contrasta com a repercussão internacional que o caso ganhou, com públicos de diferentes países reagindo nas redes sociais e cobrando posicionamento das autoridades do futebol, o que reforça o quanto o tema é tratado como relevante fora da Argentina, mesmo enquanto o capitão da seleção opta por não comentar.