Samba de acolhimento e empoderamento é coisa de mulher

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Foto: Reprodução/Sonho de Crioula

Iniciativa cultural de mulher preta e empoderada. Quem pode parar?

O samba tem longa história de espaço para quilombismo, acolhimento e empoderamento. Essa é a proposta do Sonho de Crioula.Muito se fala sobre o Samba ter sido embrião cultivado na Bahia, se moldando da forma mais conhecida hoje depois de aportar no Rio de Janeiro. Já João Nogueira era taxativo e dizia em canção que o “Samba vem lá de Angola”. Discussões à parte, um pequeno retrato da própria história do Samba está na história da família de muitos de nós, e na entrevista a seguir, falo especificamente com Katia Regina da Silva Santos. A escritora, poetisa, compositora, roteirista e produtora cultural é a idealizadora do Sonho de Crioula.

O projeto tem a proposta de acolhimento e empoderamento feminino e quilombismo cultural, através do samba. Neta e filha de baianas, é autêntica neta de uma griô, de uma ‘Tia Baiana’ (explico o porquê disso no final). Dá continuidade, de forma profissional, a uma cultura que veio da Bahia para o Rio de Janeiro, sendo parte vivente da movimentação cultural que chega a remeter o início na Pequena África. Mas, chega de delongas e vamos à entrevista.

MN – Qual é a história do Sonho de Crioula?

KATIA REGINA – Eu acredito que essa história vem da minha avó, Honorata Maria da Silva. Ela era filha de escravizados vindos da Angola, de uma família pequena, porém festeira. Gostava de casa cheia. No bairro da liberdade (Salvador-BA), onde existiam aqueles casarões, minha avó gostava de samba de roda, capoeira… Naquele tempo, não sei como se chamava, mas trazendo para os dias de hoje, minha avó era uma agitadora cultural lá.

MN – De certa forma, nasceu com ela, esse tipo de iniciativa cultural?

KATIA REGINA – Depois, durante a 2ª Guerra Mundial, em 1942, ela veio para o Rio de Janeiro com meu avô e minha mãe – na época, com 11 anos de idade. Veio a procura de uma vida melhor e trouxe também toda a sua alegria para o bairro do Santo Cristo. A casa da minha avó sempre esteve em festa e isso ela passou para os filhos, apesar de minha mãe ser a única que herdou isso dela. A nossa casa sempre foi festeira. Como se diz, tudo é motivo de festa.

MN – Como você passou de apenas gostar para organizar festas?

KATIA REGINA – Eu fui usar essa herança de festeira quando cheguei na faculdade, nos anos 2000. Estudava na Universidade Gama Filho, e tinha o baile funk na esquina. O tempo era 2000, mas tocava muito funk da antiga. Árvore seca, Claudinho e Buchecha  marcaram muito os bailes naquela época. Sexta-feira à noite era o dia mais esperado da semana. E com isso, produzimos uma das maiores festas do Rio de Janeiro, feita pelo DCE (Diretório Central dos Estudantes) da Gama Filho, que era o Carnagama e reunia mais de 5 mil jovens ali.

MN – Qual a sua ligação com o Samba?

KATIA REGINA – Minha história com o samba já vinha de longe. A amizade que meu pai tinha com Mazinho Nascimento, filho do nosso querido Natal. A batida do samba não tem como não fazer bater forte o nosso coração.

MN – Qual foi o evento que mais te marcou?

KATIA REGINA – Em 2007, pra ser mais exata, no PAN 2007. Trabalhei, como voluntária, com aquela festa linda que envolvia toda parte de música e dança. Pra mim, foi mágico quando vi Elza Soares cantar ao som de todas as baterias de escola de samba do Rio de Janeiro. Particularmente, a emoção foi bem maior, porque isso aconteceu no dia 13 de Julho. Meu aniversário. Nunca imaginei um presente tão grande! Uma festa em pleno Maracanã lotado (risos). Eu tive essa festa. O amor ao samba sempre presente, coração a mil.

MN – Seu projeto tem uma característica específica que é ser referencial de cultura e valorização da região onde acontece. Como surgiu esse propósito?

KATIA REGINA – Ano de 2015. Eu, moradora nascida e criada na Praça Seca, Zona Oeste do Rio, em tristezas e dificuldades de uma depressão, tinha muita dificuldade de sair de casa. O máximo que conseguia ir, era no parque (Parque Urbano Pinto Teles) de uma rua próxima. Um parque que passei a observar. Poderia ser um parque melhor aproveitado por pessoas que, como eu, queriam uma ocupação sem ter que se deslocar para longe de suas casas. E daí nasceu o sonho de poder ocupar um espaço público, que poderia trazer alegria, que poderia trazer renda.

MN – Qual evento deu o pontapé inicial no parque?

KATIA REGINA – Um ano depois, em 2016, criei um projeto e convidei algumas pessoas – na maioria mulheres – no dia 25 de Julho (Dia Nacional da Mulher Negra Latino e Caribenha e Tereza de Benguela). Aconteceu uma roda de discussão muito linda, que emocionou e acolheu muitas mulheres. Teve também desfile de mulheres empoderadas e felizes e teve roda de samba.

MN – Já se chamava Sonho de Crioula?

KATIA REGINA – Esse evento não teve nome. Mas dali nasceu a ideia de fazer um projeto de empoderamento da mulher Negra. Daí, nasceu o sonho maior, que hoje em dia se chama Sonho de Crioula.

MN – O que define o Sonho de Crioula?

KATIA REGINA – É o empoderamento da mulher negra através do nosso Samba de Raiz. Eu penso no samba de raiz de lá da nossa origem. Do samba que a minha vó fazia lá na Liberdade e que veio trazendo na década de 1940.

MN – O evento é todo composto exclusivamente de mulheres?

KATIA REGINA – A roda desse evento era mista. Mas fiz questão que fosse uma mulher cantando. Em 2017, tivemos a nossa primeira roda de samba oficial. Ainda mista. Mas com o vocal da nossa querida amiga, Cida Santana. Eu digo a ela que ela foi a nossa primeira Crioula do Sonho. Nossa primeira roda de samba do Sonho de Crioula só com mulheres aconteceu em janeiro de 2020. E tivemos a participação do Movimento das Mulheres Sambistas, que também tenho a satisfação de fazer parte da gestão e Produção.

MN – E como está o projeto hoje, por conta da pandemia e todas as dificuldades (a mais) que ela trouxe?

KATIA REGINA – Tocamos no Bar Alma de Boêmio(Vila Valqueire, bairro vizinho) em novembro do ano passado.  Temos uma live para fazer em Abril e fomos convidadas para fazer uma homenagem a mulheres Sambistas de Duque de Caxias. Nossas dificuldades de tocar em espaço público vem antes da pandemia. Mas, se Deus assim o permitir, voltaremos a tocar.

MN – Você tem outros projetos?

KATIA REGINA – Um dia vou escrever um livro. E escrevi um filme. Estou à procura de patrocínio. Já temos a equipe montada, diretor, produtor, artistas, estilistas, trilha sonora, etc.

MN – Você vê o Sonho de Crioula como um legado?

KATIA REGINA – Sim. Minha avó e minha mãe fazem parte dessa história. E, recentemente, quando minha mãe se foi, tive mais certeza disso do que nunca. O Sonho de Crioula não é só meu, ele vem das nossas mais velhas a diante.

Se lugar de mulher é onde ela quiser, o samba tem na mulher sua grande primeira acolhida na história.

GLOSSÁRIO

SANTO CRISTO – Bairro localizado na Zona Portuária Carioca, região que ficou conhecida como Pequena África. Nome dado pelo cantor, compositor e pintor Heitor dos Prazeres, devido à concentração de negros livres vindos de toda parte.

TIAS BAIANASYalorixás e agitadoras culturais. Muitas delas, originárias da Bahia (a mais famosa, Tia Ciata, por exemplo). E que organizavam reuniões de culto religioso (Candomblé) e festividades (Samba) em suas casas. A figura da Tia Baiana é tão importante para o Samba que existe uma ala só para representá-las nas escolas de samba, ala essa que é obrigatória, tamanha a relevância e reverência.

GRIÔ – Toda aquela pessoa reconhecida por sua comunidade como alguém que transmite através da palavra sua tradição, saberes, fazeres e viveres, garantindo que a ancestralidade se perpetue e seja repassada às próximas gerações.

NATAL DA PORTELA – Natalino José do Nascimento, bicheiro pioneiro na função de patrono de uma escola de samba (aquele que patrocina). No caso, já diz o nome, na Portela, sua escola de coração. Ajudou a divulgar o samba por meio de sua escola, por ter amizades influentes na política. Como o, então, Ministro das Relações Exteriores, Negrão de Lima, o mesmo que dá nome ao famoso viaduto, no bairro de Madureira, outro local de grande movimentação cultural (como o famoso Baile Charme).

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