Mundo Negro

Sabrina Fidalgo estreia seu primeiro longa investigando o projeto colonial: “Um chamado à tomada de consciência”

Foto: Divulgação

As consequências de mais de 600 anos do projeto colonial europeu e da supremacia branca no Norte e no Sul Global são investigadas em “O Projeto”, primeiro longa-metragem da cineasta Sabrina Fidalgo, realizado em parceria com o fotógrafo suíço Yvan Rodic. Selecionado para a competição de documentários do 54º Festival de Cinema de Gramado, o filme foi exibido no evento e estreia nos cinemas brasileiros em 19 de novembro.

No documentário, Sabrina e Yvan partem do encontro entre suas próprias histórias para percorrer diferentes territórios e refletir sobre as marcas deixadas pelo colonialismo europeu. A cineasta apresenta a perspectiva de uma mulher brasileira preta do Sul Global, enquanto o fotógrafo suíço contribui com o olhar de um homem branco do Norte Global.

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“Ele traz a visão dele enquanto homem branco suíço do Norte Global, e eu trago a minha história como mulher brasileira preta do Sul Global”, explica Sabrina, em entrevista ao Mundo Negro. “Nós dois juntos acabamos criando uma narrativa muito potente nesse lugar de encontros improváveis, mas que, ao mesmo tempo, criam uma sinergia entre si.”

Foto: Divulgação

A seleção das pessoas entrevistadas foi realizada ao longo do processo de pesquisa e das viagens da equipe. Alguns nomes já estavam entre as primeiras referências da diretora e de Yvan; outros surgiram espontaneamente durante a produção. Entre os depoimentos estão os de Grada Kilomba, Djamila Ribeiro e Anderson França.

“Grada Kilomba, por exemplo, sempre foi um nome em que pensei, porque estive no lançamento do livro dela, Memórias da Plantação, em Lisboa, há mais ou menos seis anos, e li a obra”, conta a cineasta, ao relembra que a leitura do livro influenciou a definição do escopo do filme e os caminhos escolhidos para abordar o colonialismo.

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Djamila Ribeiro também foi pensada desde o início, por sua trajetória como filósofa, professora e uma das principais vozes antirracistas do Brasil. Já a participação de Anderson França foi articulada quando a equipe estava na Europa.

Segundo Sabrina, o documentário também reúne vozes de pessoas brancas, em uma tentativa de ampliar o debate sobre responsabilidade diante das estruturas racistas e coloniais. “A importância dessas vozes — não somente vozes negras, mas vozes não brancas do Sul Global — é imprescindível para tentarmos entender as consequências e talvez as maneiras com as quais possamos transformar o mundo em um lugar mais justo”, afirma. “É importante que essas pessoas assumam o seu lugar de culpa, passem a falar, a questionar e a tentar encontrar soluções nesse lugar também, sem deixar tudo nas costas dos oprimidos”, completa.

Foto: Divulgação

“Uma mensagem universal”

A exibição em Gramado marcou uma nova etapa na relação de Sabrina Fidalgo com o festival. Antes de apresentar seu próprio filme, a cineasta havia sido presidente do júri e curadora da Mostra Gaúcha. Ela afirma que ficou emocionada com a recepção do público após a sessão de estreia.

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“Estou muito feliz, a nossa estreia foi linda, as pessoas se emocionaram muito e acho que o público entendeu a mensagem desse filme, que é uma mensagem universal. É um chamado à tomada de consciência. Isso ficou bem compreendido e sentido pelo público”, destaca.

A diretora também rejeita a ideia de que sua presença no festival esteja ligada apenas à representação de um segmento específico do cinema. “Mais do que representar um determinado tipo de cinema — cinema negro, no caso —, que eu não me entendo nesse lugar; acho que faço cinema brasileiro, sobretudo”, afirma. “Estou aqui representando o meu próprio cinema, a minha linguagem.”

Foto: Divulgação

Competição e lançamento

Com 94 minutos de duração, O Projeto está entre os documentários que disputam a competição do 54º Festival de Cinema de Gramado. O vencedor de Melhor Documentário será anunciado no sábado (22), a partir das 20h, durante a cerimônia oficial de premiação, no Palácio dos Festivais.

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Depois da estreia no festival, o longa chega aos cinemas de todo o Brasil em 19 de novembro. O lançamento acontece no período de celebração do Dia da Consciência Negra e amplia o alcance de uma obra que propõe discutir as permanências do colonialismo no presente.

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