O Carnaval de 2026 marca um rito de passagem na televisão brasileira. A nova campanha da Globo para a folia mergulha na própria raiz para contar a história da festa sob uma nova perspectiva. A peça central não é apenas uma vinheta, mas uma homenagem aos 50 anos de carreira de Jorge Aragão, o Poeta do Samba. O público agora ouve a icônica trilha “Lá Vou Eu”, que embala o imaginário nacional desde 1991, com uma diferença fundamental: após 35 anos, o próprio Jorge assume o microfone para cantar sua composição na campanha oficial.

A narrativa se constrói dentro de uma roda de samba, espaço onde o tempo não é linear, mas circular. Ali, o saber não se impõe, se compartilha. O antigo e o novo coexistem, lado a lado, no mesmo compasso. É nesse território simbólico que a campanha encontra sua maior profundidade histórica.
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Ao lado de Jorge, estão Sombrinha, Sereno e Nei Lopes. Para entender o peso desse encontro, é preciso voltar ao Rio de Janeiro dos anos 1970, quando esses nomes operaram uma revolução silenciosa no Cacique de Ramos. Juntos, eles não apenas fundaram o Fundo de Quintal, como reinventaram a forma de fazer samba no Brasil. A música saiu das grandes orquestras e passou a caber nas mãos, nos corpos e na invenção: o tantã, o repique de mão, a palma, o coro. Uma transformação que alterou para sempre a pulsação das rodas de samba em todo o país.
É nesse reencontro que a campanha ganha densidade emocional. Não se trata apenas de revisitar uma obra, mas de reconhecer o tempo vivido dentro dela. O próprio Jorge traduz esse sentimento ao falar da experiência:
“Chega a ser difícil descrever, de tamanha alegria. É uma honra ver minha obra sendo celebrada, uma satisfação enorme. É saber que tudo valeu a pena. Me senti em casa, brinquei, cantei. Foi como se eu estivesse antigamente no Cacique de Ramos. Me senti felicíssimo por ter ao meu lado Nei Lopes, Sereno, Sombrinha, meus grandes parceiros, além dessas mulheres que viraram ícone dessa vinheta de Carnaval, a Valéria e a Erika. Gostaria de conseguir expressar exatamente o que eu, como um compositor, com a idade que tenho, sinto nesse momento. Foi inesquecível e espero que vocês gostem do que verão na tela da Globo.”
É nesse ponto que a campanha deixa de ser apenas observada e passa a ser sentida. Ao longo dos anos, a vinheta da Globeleza marcou um momento muito específico: o instante em que o Carnaval começava, em que a televisão avisava que algo mudava no ritmo do país. Não era só abertura de programa, era um sinal que atravessava gerações.
“O carnaval na televisão é a fonte de muitas memórias lindas da minha adolescência. Era a época que a gente dormia a tarde, para virar a noite vendo os desfiles com meus pais e tios. Era samba, comida boa, aulas sobre os temas das escolas e ver quem decorou melhor os sambas-enredo. Então quando chegava fevereiro eu aguardava o momento de ver a Globeleza, os efeitos do Hans Donner e a proximidade da temporada de desfiles na Globo”, relata Silvia Nascimento, jornalista e Head de Conteúdo do Mundo Negro.
Essa dimensão subjetiva reforça uma máxima antiga do samba: o compositor é aquele que traduz o que o povo sente, mas ainda não sabe como dizer. Se essa regra for verdadeira, Jorge Aragão é um de seus maiores intérpretes. Em 2026, ao colocá-lo no centro da roda para cantar a canção que batiza o Carnaval brasileiro, a Globo não apresenta apenas uma campanha. Faz, simbolicamente, um acerto de contas com a própria história.
JORGE ARAGÃO É UMA LENDA VIVA NA HISTÓRIA DO SAMBA
Sua carreira ganhou projeção nacional em 1976, quando Elza Soares apresentou ao Brasil “Malandro”. Vieram depois hinos como “Vou Festejar” e “Coisinha do Pai”, eternizados na voz de Beth Carvalho. O que torna Jorge uma figura vital é seu ecletismo e sua sofisticação musical: ele transita do samba-rock de “Cabelo Pixaim” às influências eruditas de Bach e Villa-Lobos, provando que o sambista é um músico completo, capaz de harmonias complexas que desafiam qualquer tentativa de reduzir a cultura preta à simplicidade.
O que Jorge Aragão e o Fundo de Quintal fizeram nos anos 1980 foi mudar o eixo do samba sem romper com sua essência. A música seguiu sendo tradição, mas ganhou outra proximidade: passou a caber no corpo, na palma da mão, na conversa em volta da mesa. O samba permaneceu o mesmo, apenas circulando de forma mais direta, mais próxima, mais compartilhada.
Essa história não é apenas contada: ela é encenada na nova vinheta da Globeleza 2026. O cenário da roda de samba foi pensado como um espaço de memória ativa, onde cada elemento carrega sentido. Nas paredes, os quadros de Tia Ciata e Clementina de Jesus não funcionam como decoração, mas como fundamento. Ciata foi quem abriu sua casa, na Pequena África, para que o samba sobrevivesse quando era criminalizado. Clementina levou a voz ancestral para o rádio. Na vinheta, elas aparecem como sentinelas simbólicas, garantindo que o caminho percorrido por Jorge Aragão tenha raiz, chão e continuidade.
Também dentro da vinheta, a presença de Valéria Valenssa e Érika Moura ao lado de Jorge carrega um significado profundo. Em um tempo de esvaziamento simbólico do Carnaval, em que referências negras são frequentemente diluídas, vê-las nesse mesmo enquadramento é um gesto de afirmação. Valéria construiu um imaginário de possibilidade ao coroar a beleza negra em rede nacional. Érika deu sequência a essa linhagem, sustentando com o corpo e a presença uma representação que o racismo insiste em apagar. Colocá-las ao lado do Poeta é afirmar, visual e simbolicamente, que o Carnaval tem memória, rosto e pertencimento.
O Carnaval Globeleza de 2026 sela um reencontro essencial: a obra, finalmente, reconhece a voz de seu autor. Ver Jorge Aragão assumir o microfone da canção que ele mesmo criou para o imaginário nacional é a consagração de meio século de maestria suburbana. Como ele próprio canta: “Respeite quem pôde chegar onde a gente chegou”. O que o Brasil assiste agora é exatamente isso, o respeito ao caminho trilhado.
Reforçando esse compromisso com a ancestralidade e o futuro, Samantha Almeida, Diretora de Marketing da TV Globo, destaca a intenção por trás deste movimento:
“Gosto de dizer que o futuro é algo que estamos construindo agora, a partir das escolhas que fazemos no presente. E essa campanha nasce exatamente desse entendimento. Ao resgatar a memória afetiva do Globeleza, fazemos uma escolha intencional de celebrar uma referência fundamental da nossa cultura em vida, reverenciar nossos mestres e criar conexão entre gerações.”
FICHA TÉCNICA | GLOBELEZA 2026
- Diretor de Marca & Comunicação: Manuel Falcão
- Direção de Criação: Ricardo Moyano
- Gerente Sr de Criação: Victor Seabra e Julio Marcello
- Criação: Pedro Henrique Maroni Costa e Julia Custodio
- Roteiro: Pedro Henrique Maroni Costa
- Direção de Arte: Julia Custodio
PLANEJAMENTO E ATENDIMENTO
- Direção Estratégia de Marca & Comunicação: Bernardo Magalhães
- Gerente Sr de Planejamento: Bruno Altieri
- Planejamento: Lorena Carvalho
- Direção de Marketing & Operações: Mariana Novaes
- Gerente Sr de Atendimento: Suzana Prista
- Atendimento: Dryelle Primo e Flavio Carrijo
PRODUÇÃO E RTV
- Gerente de Produção: Ricardo Leo
- Coordenação RTV: Gabriela Bonn
- RTV: Fernanda Ribeiro
- Coordenação de Produção: Klemerson Cantalice
- Produção: Cristiano Gesualdo e Camila Xavier
- Estagiária de Produção: Maria Firmino
EQUIPE DE SET (FILMAGEM)
- Diretor de Cena: Leandro Rial
- Assistente de Direção: Fernanda Baudaue
- Diretor de Fotografia: Caio Humb
- Produtor: Diego Costa
- Diretor de Arte: Macerla Escafura
- Técnico de Som: Helio
- Figurinista: Athria Gomes
- Maquiagem: Capa
PÓS-PRODUÇÃO
- Produtora de Pós: Arpoador Filmes
- Supervisão Artística: Debora Indio do Brasil
- Produtora de Pós: Rebeca Montenegro
- Edição: Lucas Vieira e Diego Gomes
- Correção de Cor: Irineu Lima
- Finalização: Lucas Vieira