Ícone do site Mundo Negro

Primeira afro-brasileira formada em Medicina e Cirurgia na Itália defende tratamentos que valorizem a diversidade

Margarida D’Autilio, primeira afro-brasileira formada em Medicina na Itália

Foto: Arquivo pessoal

“Ser a primeira só tem sentido se outras não precisarem ser exceção”, afirma a Dra. Margarida Fernandes Lopes Morais D’Autilio, reconhecida como a primeira afro-brasileira graduada em Medicina e Cirurgia na Itália, em entrevista ao Mundo Negro. Aos 49 anos, ela vive em Roma há mais de duas décadas e construiu uma trajetória internacional que reúne assistência clínica, pesquisa científica, medicina estética e docência.

Atualmente, Margarida atende em diferentes clínicas na capital italiana. Ao longo dos anos, também consolidou sua formação acadêmica e profissional na Itália, sem perder o vínculo com o Brasil e com suas origens. 

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Notícias Relacionadas


Durante sua formação, Margarida passou a buscar referências e registros de trajetórias semelhantes à sua, de outras pessoas afro-brasileiras, mas não localizou. “Encontrei muitos brasileiros que se identificam como brancos, frequentemente descendentes de italianos e, em sua maioria, oriundos das regiões Sul e Sudeste”, relata. “Foi nesse vazio de referências que comecei a perceber a dimensão histórica da minha trajetória”, afirma.

A percepção ganhou ainda mais força após a conclusão do doutorado de pesquisa em Ciências Médico-Cirúrgicas Aplicadas, com foco em Cirurgia Plástica Regenerativa. Para Margarida, ocupar um espaço de produção de conhecimento em uma área médico-cirúrgica historicamente marcada por referências pouco diversas reforçou seu compromisso com uma ciência mais plural.

Apesar do reconhecimento, ela não encara o pioneirismo como um troféu individual. “Se uma menina ou uma jovem negra olhar para a minha história e entender que medicina, pesquisa, doutorado e formação internacional também podem fazer parte do horizonte dela, então essa conquista se torna coletiva”, afirma.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
Foto: Arquivo pessoal

Desafios para uma medicina mais inclusiva

Durante muito tempo, pesquisas, protocolos e tecnologias foram desenvolvidas sem considerar adequadamente a diversidade de peles presente na população. Para Margarida, essa ausência não é apenas uma questão de representatividade visual, mas tem consequências clínicas concretas.

“Peles mais pigmentadas apresentam particularidades na resposta a determinados procedimentos, especialmente em relação à pigmentação e à inflamação”, explica.

A hiperpigmentação pós-inflamatória, por exemplo, é uma preocupação relevante em pacientes com pele mais pigmentada. Por isso, determinados procedimentos precisam ser indicados e realizados com parâmetros, cuidados e precauções adequados. Também é necessário considerar diferenças relacionadas à cicatrização e à predisposição à formação de queloides em determinados grupos populacionais.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

“Por isso, considero fundamental que a inovação em medicina estética caminhe junto com a inclusão científica: novos dispositivos, tecnologias, cosméticos e protocolos precisam considerar desde a fase de pesquisa a diversidade de fototipos e fenótipos da população real”, defende.

Margarida também destaca a reprodução de padrões eurocêntricos e brancos de beleza na medicina estética. Segundo ela, os tratamentos não devem ser utilizados para aproximar todos os pacientes de um único ideal estético.

“A medicina estética deve valorizar a pessoa que temos diante de nós, respeitando anatomia, ancestralidade, proporções e identidade. Inclusão, para mim, é também não apagar traços”, afirma. 

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Essa perspectiva orienta sua defesa de protocolos individualizados, que considerem as características biológicas, as expectativas e a história de cada paciente. Duas pessoas podem buscar o mesmo resultado, mas necessitar de condutas diferentes, inclusive quando possuem objetivos semelhantes.

“Não acredito em uma medicina estética que transforme todo mundo na mesma pessoa. Acredito em uma medicina que saiba reconhecer diferenças e trabalhar com elas”, resume.

Foto: Arquivo pessoal

O paciente antes do procedimento

A doutora também demonstra preocupação com a influência das redes sociais na relação das pessoas com a própria imagem. Segundo ela, pacientes chegam aos consultórios levando fotografias de celebridades e pedindo a reprodução de características específicas, como o formato dos lábios. “Não se pode banalizar. Atrás de cada procedimento existe estudo, anatomia, farmacologia, fisiologia e ética”, alerta.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Para Margarida, o profissional não deve apenas executar o desejo apresentado pelo paciente, mas também atuar na educação em saúde, explicando riscos, limites e possibilidades. “Um bom médico não faz apenas o que o paciente pede; ele exerce a educação em saúde”, afirma.

Foto: Arquivo pessoal

A influência de diferentes países

Margarida tem experiências médicas vividas no Brasil, nos Estados Unidos e na Itália. “Minha forma de exercer a medicina é resultado do encontro de três culturas”, explica.

Nascida e criada em Salvador, na Bahia, a brasileira afirma ter levado uma percepção natural da diversidade. Com um país de grande pluralidade fenotípica, cultural e racial, desenvolveu um olhar atento às diferentes formas de existência e beleza.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Durante sua passagem pela George Washington University, nos Estados Unidos, teve contato intenso com a pesquisa, a metodologia científica e a inovação. Sua tese experimental foi desenvolvida entre a universidade norte-americana e a Universidade de Roma Tor Vergata e posteriormente publicada no Journal of Craniofacial Surgery.

Já a Itália foi o país onde se formou médica, construiu sua carreira acadêmica e concluiu o doutorado. A experiência italiana aprofundou seu olhar sobre anatomia, proporção, harmonia e valorização da individualidade.

Consciente das barreiras enfrentadas ao longo dessa jornada, a médica transforma a solidão dos espaços predominantemente brancos em combustível para quem vem a seguir. “Haverá momentos em que se sentirão sós, em que se questionarão ou sentirão a necessidade de provar algo a mais, mas é justamente nesses momentos de dificuldade que tudo pode se transformar em força pura, luz e energia”, conclui.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Notícias Recentes

Participe de nosso grupo no Telegram

Receba notícias quentinhas do site pelo nosso Telegram, clique no
botão abaixo para acessar as novidades.

Comments

Sair da versão mobile