Este não é um estudo sócio-antropológico, mas uma observação nas proximidades desse campo por um negro interessado no assunto. Penso na quantidade de artistas, atletas e celebridades em geral que lançam aos ares todo seu orgulho e consciência negra, mas na hora do casório, casa com as brancas.

Até há os que se casam com negras – geralmente, as primeiras esposas, dos tempos mais humildes e difíceis, ‘sem grana e sem glória’, como já diria o poeta do samba, Jorge Aragão. Mas o que vemos é um fenômeno social (será que já dá pra chamar assim?) que exemplifica e ilustra um tipo de frase que ouvi minha vida inteira, mas não fazia o mesmo sentido que têm feito nos últimos tempos pra mim: “Preto quando fica rico, vira branco”.

Veja bem, eu entendia essa frase em seu sentido figurado, contando que o branco é o privilegiado na nossa sociedade montada com estrutura racista e escravagista. Era o teorema simples: Se é preto, mas tem dinheiro e prestígio, então, vão trata-lo com regalias, como se fosse branco. Mas percebi com o tempo que não era bem assim. Muito negro aí é xingado pela sua etnia ao menor sinal de erro ou discordância com o sistema deles. Veja o caso de alguns anos atrás, do goleiro Aranha. Ele foi xingado, Pelé, que defendeu que o goleiro adotasse a postura de deixar o assunto pra lá, não. Então, não é todo negro que atinge um patamar social de admiração e se torna ‘branco’ (que na prática, é um eufemismo para ‘bom crioulo’, dado o nível de ‘domesticação’ e subserviência do referido negro). Havia algo a se analisar ainda que nem sempre esteja visível a olho nu, ou, perceptível numa primeira olhadela sem compromisso.

Bem, agora que já fizemos a visita e já foi dado o orçamento, é hora de contratar o serviço, né? Deixa eu ir direto ao ponto da curva que me mostrou meu outro olhar sobre a sentença “preto com grana embranquece”. Não vou ficar enumerando, mas alguns artistas bem conhecidos há décadas parecem procurar novas esposas com um filtro de busca do Google. Os brancos mais velhos encontram novinhas e os negros, brancas. Toda hora algum deles aparece pra repetir esse padrão. Já fui um negro ‘construído’ (quase uma Torre de Pizza de base tão profundamente ‘eurotorta’ – Rá!), do tipo que sentia algo de errado no senso comum, mas não tinha força psicológica pra contestar e enfrentar o sistema. É dessa época que lembro de ter acreditado que o meio fazia as relações. Se um negro estivesse em locais de predominância branca, ele iria acabar se relacionando com uma branca. Mas eu mesmo já frequentei ambientes assim e não era algo tão simples. Muita ‘friendzone’ e algumas rejeições “sem motivo aparente” depois e finalmente, eu aprendi!

Minha teoria vai um pouco além do sentido figurado. É físico mesmo o fato de o negro embranquecer quando se torna privilegiado. Salvo algumas exceções, o panorama geral que temos é o de que o preto ascende socialmente, conhece as brancas, geram descendentes mil com elas e essa prole mestiça, vai continuar a andar pelas grandes festas, grandes escolas, mídia, praia, badalação e vão se casar com outras brancas e gerar mais descendentes mestiços dos mestiços e assim vão… E a questão periclitante é uma que li há alguns anos, mas não tinha feito a associação da linguagem figurada ao fato físico: Quando o preto fica rico, ele embranquece a família e essa família embranquecida é quem vai herdar seu patrimônio.

Então, fica assim: Muito bonito cantar a negritude, ser símbolo étnico de uma nação em uma luta secular, mas na realidade, está fortalecendo o outro lado com seu prestígio, dinheiro, bens, etc. A maior parte da população – que é negra – vai continuar pobre e, dos poucos que conseguem levar nossa bandeira a lugares que a maioria nem sonha chegar sem ler revista de fofoca de celebridades, quase nenhum realmente deixa um legado físico, material para sua raça. O império cultural é nosso, não adianta mil se apropriarem que a gente sabe quem é quem, mas será que faz bem nos contentarmos em sermos reis na folia e na vida real, morarmos em barracões pra descansar do subemprego? Imagina que massa seria ver negros ascendendo socialmente e financeiramente, seja por arte, esportes ou ensino superior e sucesso no mercado de trabalho e as raízes fossem mantidas. Um dia poderíamos sonhar em ver a raça negra tendo seu valor social reconhecido. Mas por enquanto, é palmitagem e usurpação dos bens da negritude.

Fernando Sagatiba é negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ

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