O “Novembro Negro” chegou. Mais um ciclo de comemorações e atividades neste mês em que celebramos o Dia da Consciência Negra e a memória de Zumbi dos Palmares. Os críticos ressurgem, questionando a validade histórica da celebração e evocando a ideia de que somos todos iguais, dissociando a natureza política das relações entre negros e brancos.
As provocações racistas ganham corpo, especialmente neste momento em que o inconformismo com a reeleição do presidente Lula está produzindo comportamentos preocupantes, e o ódio contra os negros dá o tom de fundo. O jogo é sujo, e o racismo não surpreende.
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Um exemplo é a campanha para que empregadores demitam eleitores do Lula (PT) e boicotem empresas que se posicionaram em favor desse candidato. Os negros sabem que as demissões funcionam como mais um elemento racista no mercado de trabalho. Basta responder a perguntas básicas para enxergar o óbvio. Qual a população brasileira mais desempregada? Qual a população brasileira que ocupa, em sua maioria, atividades precarizadas? Qual a população brasileira que recebe menor remuneração? A resposta a todas é a mesma: o povo negro. E quem ocupa, em sua maioria, os espaços de decisão? Os brancos.
A campanha atinge trabalhadores brancos, mas há uma diferença na escolha das vítimas da demissão por perseguição: os trabalhadores negros não precisam abrir a boca para serem rotulados de petistas. Isso decorre da associação com as políticas de ações afirmativas, implantadas nos governos petistas, que nos beneficiam. Essa é a razão das intensas críticas dos inconformados, que acreditam em uma meritocracia ilusória e, assim, se colocam contra as reparações históricas para os negros.
Quanto ao boicote às empresas, pouco nos atinge diretamente: ser “patrão” em um país racista é privilégio branco. Sobra-nos, portanto, o lado mais frágil da corda: o de quem depende do emprego.
Acredito que muitas pessoas negras abriram mão, por um momento, de suas convicções políticas radicais para defender a democracia nas últimas eleições, mesmo sem participar dela com direitos plenos. Portanto, associar-nos a uma legenda partidária como militantes é totalmente equivocado. Nós, movimentos e ativistas organizados (ou não), almejamos muito mais do que satisfaz a muitos militantes brancos ligados a partidos políticos. Somos negros para além de qualquer orientação político-partidária, porque o racismo está presente em diferentes lugares.
Infelizmente, quem depende de um emprego para sobreviver fica à mercê de quem o controla, e esses empregadores são, em sua maioria, brancos. Em função do racismo estrutural, estamos distantes da emancipação econômica. Por isso, demissão motivada por orientação política deve ser denunciada nos órgãos competentes.
A luta contra o racismo inclui completar a abolição, que foi apenas formal, e romper o controle da branquitude sobre os empregos. Só assim deixaremos de ser alvos de perseguições que visam penalizar o povo por causa da orientação política ou pela cor da pele. Afinal, como disse a filósofa Angela Davis: “A ideia de liberdade é inspiradora. Mas o que significa? Se você é livre em um sentido político mas não tem comida, que liberdade é essa? A liberdade de morrer de fome.”