Ordenado em 1851, Francisco de Paula Victor enfrentou o racismo, serviu 53 anos em Três Pontas (MG) e foi beatificado em 2015, 110 anos após a morte
Devotos de diferentes cidades participam nesta quarta-feira (23), em Três Pontas, no Sul de Minas, do encerramento da festa do beato Francisco de Paula Victor, o Padre Victor, que morreu nessa mesma data em 1905. A programação integra a novena realizada no Santuário Diocesano Nossa Senhora d’Ajuda, que em 2026 tem como tema “Beato Padre Victor: homem de comunhão e unidade na Igreja”. A celebração lembra os 121 anos da morte de um homem negro que chegou ao sacerdócio numa sociedade organizada pela escravidão e que se tornou, ao longo de mais de meio século, a principal referência religiosa e educacional da cidade.
Notícias Relacionadas

Francisco de Paula Victor nasceu em 12 de abril de 1827, na cidade da Campanha, no sul de Minas Gerais. Era filho de Lourença Maria de Jesus, mulher escravizada, e o nome de seu pai não é conhecido. Na juventude trabalhou como alfaiate, ofício que exercia quando, em 1848, procurou dom Antônio Ferreira Viçoso, então bispo de Mariana, durante uma visita à Campanha, para manifestar o desejo de seguir a vida religiosa, e com o apoio da madrinha ingressou no seminário de Mariana em 5 de junho de 1849.
A condição jurídica de Victor ao nascer é tema de debate entre pesquisadores. O historiador Marcus Vinícius Fonseca, da Universidade Federal de Ouro Preto, sustenta em artigo de 2020 que ele nasceu livre e observa que, à medida que a canonização avança, consolida-se a imagem de um homem que teria saído da escravidão para a santidade. O estudo propõe tratá-lo como um ser humano que agiu a partir das condições e possibilidades do Brasil do século XIX, o que desloca o foco da narrativa devocional para sua atuação concreta como padre e professor.
Os anos de formação foram marcados pelo racismo. Colegas de seminário o humilhavam e o submetiam a serviços braçais, segundo relatos reunidos pela Igreja. Ordenado em 14 de junho de 1851, trabalhou por 14 meses como vigário paroquial na Campanha antes de receber a missão que ocuparia o restante de sua vida.
Meio século em Três Pontas
Victor chegou a Três Pontas em junho de 1852. Parte da população o rejeitou no início por ser um “padre negro”, reação que expressava o racismo de uma sociedade em que pessoas negras eram mantidas sob cativeiro e raramente ocupavam posições de autoridade. O vigário permaneceu na paróquia até morrer, ampliou a Igreja Matriz e se dedicou à catequese e à instrução dos moradores.
A educação foi o eixo de seu trabalho na cidade. Victor fundou o Colégio Sagrada Família, onde atuou como professor de francês e latim. Muitos estudantes eram admitidos sem pagar, e um historiador da Campanha registra que, em 1874, 186 alunos recebiam formação no colégio. Entre os ex-alunos estava João de Almeida Ferrão, que se tornaria o primeiro bispo da Diocese da Campanha. Em 1891, o jornal Monitor Sul Mineiro afirmava que as famílias três-pontanas traziam a marca do ensino ministrado no colégio.
A caridade completou a reputação construída em sala de aula e no altar. Victor morava em um casarão simples, vivia de doações e repassava o que recebia, conduta que lhe rendeu o título de “Anjo Tutelar de Três Pontas”. Ele viveu para ver a abolição da escravatura, assinada em 13 de maio de 1888.
Morte e devoção popular
O padre morreu em 23 de setembro de 1905, e o corpo ficou exposto por três dias e, diante do grande número de pessoas no sepultamento, foi organizada uma procissão pelas ruas da cidade antes do enterro na Matriz. Seus restos mortais estão ao lado esquerdo do altar central da Matriz de Nossa Senhora d’Ajuda, e em 1929 a cidade ergueu uma herma em sua homenagem.
A fama de santidade nasceu entre os moradores e atravessou o século XX até chegar a Roma. O processo de beatificação começou em 13 de julho de 1993 e foi aceito pela Congregação das Causas dos Santos em 2002. Bento XVI reconheceu suas virtudes heroicas, etapa que lhe deu o título de venerável, e em junho de 2015 o Vaticano aprovou o milagre atribuído à sua intercessão.
O caso reconhecido envolve a professora Maria Isabel de Figueiredo, que havia retirado uma trompa após uma gravidez ectópica e tinha a outra obstruída. Ela pediu a intercessão do padre durante a novena de 2009 e, um ano depois, engravidou da filha Sofia. A beatificação ocorreu em 14 de novembro de 2015, no aeroporto de Três Pontas, conduzida pelo cardeal Angelo Amato, diante de cerca de 15 mil pessoas. No dia seguinte, o papa Francisco citou Victor na Praça de São Pedro e apresentou sua humildade como modelo para os sacerdotes.
A Diocese da Campanha já havia vivido experiência semelhante dois anos antes. Em maio de 2013, Nhá Chica foi proclamada beata em Baependi; também negra e filha de mãe escravizada, ela divide com Victor o lugar de referência para católicos negros do Sul de Minas.
Festa e canonização
A programação deste ano concentrou atos de fé nas ruas e no santuário. Na véspera, os fiéis participaram da Procissão da Penitência às 5h, da tradicional queima dos pedidos em frente à herma do beato e da Procissão Luminosa pelas ruas da cidade. A novena é rezada também pela canonização do beato, cujos restos mortais estão na Matriz que ele próprio construiu.
O processo de canonização segue em andamento em Três Pontas. Para que Victor seja declarado santo, a Igreja precisa reconhecer um segundo milagre atribuído à sua intercessão, ocorrido depois da beatificação. Informações sobre a causa, a agenda do santuário e as celebrações estão disponíveis no site padrevictor.com.br e nos perfis oficiais do santuário nas redes sociais.
Notícias Recentes
