Tirar a rua do povo é tirar a cultura do seu chão.
SidneI FranÇa
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De quatro em quatro anos, o eleitor brasileiro é convocado a tomar decisões profundas sobre o rumo do país. Mas, para uma grande parcela da população periférica, o debate político muitas vezes parece distante até que se atente para as questões que afetam os direitos sociais e a memória cultural. No cenário político atual, marcado por dois lados opostos. Os debates de reconstrução progressista e a extrema-direita articulada em torno do bolsonarismo ultraconservador, que trazem discursos autoritários que flertam abertamente com o uso da força institucional e a supressão de garantias fundamentais.
Nesse embate ideológico, a cultura popular produzida no chão dos terreiros, das favelas e das quadras das escolas de samba volta a se tornar um alvo prioritário. Governos e correntes políticas de inclinação autoritária sustentam uma narrativa que desqualifica o fomento público às artes populares, tratando o investimento em manifestações do povo preto e periférico como mero “gasto público desnecessário” ou instrumento de subversão moral.
Esse pensamento retira da cultura a proteção que é garantida pela Constituição e a coloca à condição de objeto administrativo, abrindo caminho para o controle estatal, a censura e o corte de recursos sem explicações. A pergunta que fica é: o que a população periférica e carnavalesca corre o risco de perder quando o poder é dado a um regime que flerta com o uso da força e enxerga a cultura popular não como direito e cidadania, mas como mero gasto e ameaça à ordem?
No ano de 2026, a G.R.E.S. Acadêmicos de Niterói foi alvo de duras críticas de políticos conservadores ao realizar um desfile contando a história do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, e em uma das alegorias representar as famílias ‘conservadores’ em uma lata em conserva. A partir disso, o carnaval seguiu sofrendo ataques de políticos conservadores, como Douglas Ruas, que durante a campanha eleitoral fez críticas duras ao teor político e social de alguns desfiles de 2026 e afirmou que o desfile da Sapucaí deste ano foi o “maior ataque já visto à instituição sagrada que é a família”.
À frente do projeto artístico do G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira há três carnavais, o carnavalesco Sidney França tem pautado a trajetória do cortejo verde e rosa pela valorização profunda dos saberes ancestrais, resgatando biografias e culturas sistematicamente empurradas para as margens da cidade. Em suas reflexões sobre a produção carnavalesca contemporânea, Sidney França sustenta que a avenida é, acima de tudo, uma arena de resistência política e pedagogia social. Sob seu olhar, o fomento público e a cadeia produtiva do carnaval se legitimam através dos seguintes eixos estruturantes:
Motor Econômico e Geração de Renda: Longe de constituir um “gasto fundo perdido”, cada fomento direcionado ao carnaval impulsiona uma complexa teia da economia criativa. O trabalho do barracão e dos ateliês gera empregos diretos e indiretos para costureiras, aderecistas, serralheiros, músicos, compositores e pequenos comerciantes periféricos, garantindo a distribuição de renda e a autonomia financeira de milhares de famílias.
Veículo de Cidadania Cultural: O carnaval organizado pelas escolas de samba permite que corpos pretos e periféricos ocupem o centro da cena urbana de cabeça erguida, transformando a avenida num espaço privilegiado de afirmação de direitos. Como pontua Sidney França, o espetáculo não aliena; ao contrário, projeta visões de mundo e narrativas históricas que desconstruirão a versão oficial dos vencedores, garantindo ao povo a condição de sujeito de sua própria história.
Rede de Sociabilidade e Apoio Mútuo: Longe de resumir-se aos dias de folia, a agremiação carnavalesca funciona durante todo o ano como um polo comunitário e um espaço de acolhimento social. Nascida no bojo de lutas operárias e associativismos negros do início do século XX, como as Sociedades de Resistência dos trabalhadores do cais do porto, a escola de samba provê apoio material, psicológico e afetivo para a comunidade do entorno.
Preservação e Defesa dos Saberes Ancestrais: Em suas construções plásticas e poéticas ao longo de três carnavais na Mangueira, Sidney França reafirma o compromisso com a salvaguarda das epistemologias pretas. O carnaval protege o patrimônio imaterial da religiosidade de matriz africana, a oralidade das velhas-guardas, a maestria das baianas e o conhecimento acumulado nos terreiros e quadras, resistindo ao apagamento imposto pelo racismo estrutural.
O que aprendemos com os Anos de Chumbo?
O risco de rotular a cultura como risco moral, como afirmou o candidato do PL Douglas Ruas ou “desperdício rotineiro de recursos” como defendeu Jair Bolsonaro ao extinguir o Ministério da Cultura no início de seu mandato em 2019, nos remete ao fantasma do controle estatal durante a ditadura militar (1964-1985), sobretudo após a declaração do Ato Institucional nº 5 (AI-5) em dezembro de 1968, o Estado brasileiro mobilizou uma pesada vigilância contra as escolas de samba. Sob a justificativa da “Doutrina de Segurança Nacional” e da preservação dos “bons costumes”, órgãos repressivos como o DOPS, a Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) e o Sistema Nacional de Informações (SNI) invadiram ensaios, vetaram sambas e intimidaram compositores populares. A perseguição não se restringia às letras submetidas à apreciação prévia; ela atingia a integridade física e o livre exercício artístico dos sambistas.
Entrevista Mundo Negro Sidnei França, carnavalesco da Estação Primeira de Mangueira
A Mangueira é conhecida por desfiles politizados. Quais seus carnavais preferidos da escola para debater esses temas?
Fico com três que, cada um à sua maneira, falam de liberdade. O primeiro é 1988, “100 Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão?”. No centenário da Abolição, enquanto o país comemorava, a Mangueira perguntava se aquela liberdade tinha de fato chegado à favela. O segundo é 2000, “Dom Obá II – Rei dos Esfarrapados, Príncipe do Povo”, figura fundamental para entender o ativismo e a cidadania como práticas de resistência negra no Segundo Reinado. Respeitado e reconhecido por trabalhadores, marinheiros e pelas comunidades baiana e africanas do Rio de Janeiro, como liderança legítima e combativa. O terceiro é 2019, “História pra Ninar Gente Grande”. A escola recontou o Brasil pelos que os livros apagaram: indígenas, negros, mulheres, gente pobre. Fez isso com tanta verdade que virou referência dentro e fora da avenida. Venho honrando essa tradição contando a herança banto que fez do Rio uma ‘pequena África;, levando para a avenida Mestre Sacaca, curandeiro afro-indígena do Amapá que o Brasil mal conhecia; e agora cantando Oyá. São enredos pretos, que trazem para o centro uma parte do país que costuma ficar fora da história oficial.
O que muda para foliões e trabalhadores quando um governo trata a cultura como gasto, e não como direito e fonte de trabalho e renda?
Quem enxerga o Carnaval só como os quatro dias de festa não vê o ano inteiro de trabalho que vem antes. São costureiras, aderecistas, ferreiros, escultores, marceneiros, ritmistas e compositores. A maioria é gente preta e periférica, que aprendeu o ofício dentro da escola e vive dele. Quando a cultura vira linha de corte no orçamento, o primeiro a sentir é esse trabalhador. Quem vive o barracão sabe: a escola contrata menos, paga menos, e um saber artesanal que levou gerações para se formar começa a se perder. Para o folião, o efeito chega depois: menos ensaio aberto, menos atividade na quadra, menos lugar de encontro no bairro. Vê sua mais autêntica expressão cultural reprimida, isolando-o social e culturalmente. Cultura é direito garantido na Constituição. É também economia: gira renda, turismo e emprego. Tratar isso como gasto é não entender o país que a gente é.
Como políticas públicas e discursos de autoridades podem proteger ou dificultar as religiões de matriz africana, inclusive em festas e ocupações culturais do espaço público?
O discurso de quem governa autoriza ou constrange. Quando uma autoridade trata o terreiro como ‘coisa do mal’, o recado chega na ponta: na pedra no portão, no ataque nas redes, na oferenda chutada na praia. Eu jogo moedas para Exu antes de todo desfile. Para mim, isso é tão natural quanto respirar. Mas sei que, para muita gente, ainda é motivo de medo de se mostrar. Políticas públicas protegem quando garantem coisas concretas: a festa de Iemanjá na areia, o terreiro reconhecido como patrimônio, o crime de racismo religioso investigado de verdade, a história africana ensinada na escola, como manda a lei. Na Mangueira, venho colocando essa fé no centro da avenida: a religiosidade banto, os benzimentos e os saberes de Mestre Sacaca, e agora Oyá, senhora dos ventos e das transformações, que conduz nosso desfile de 2027. Levar um orixá para a Sapucaí é dizer que essa fé é parte do Brasil, e não está à margem dele.
Por que Lembrar o Passado para Decidir o Futuro?
A trajetória das escolas de samba demonstra que encarar a cultura popular como “gasto público” é uma ferramenta secular de controle social. Historicamente, regimes autoritários tentam esvaziar a dimensão política das periferias silenciando seus artistas, censurando composições e promovendo o apagamento da memória comunitária. Como nos ensina a visão do carnavalesco Sidney França no G.R.E.S. Mangueira, colocar a ancestralidade no centro da cena e garantir o financiamento das artes pretas é um ato de afirmação da cidadania plena. Para quem acompanha a política no ritmo do calendário eleitoral, a lição dos anos de chumbo é clara: o voto não define apenas gestores orçamentários, mas escolhe entre a liberdade de expressão e o fantasma da censura estatal. Defender o orçamento da cultura é garantir que a voz do povo periférico permaneça ecoando de forma livre.
Sempre bom recordar, que:
- Cultura é Direito Constitucional e Investimento, Não Gasto: O fomento público às escolas de samba, blocos e manifestações periféricas assegura a preservação da memória nacional, gera distribuição de renda e fortalece teias de proteção social vitais para a população negra.
- O Autoritarismo Teme a Consciência e a Memória Popular: Governos e projetos de poder antidemocráticos atacam o financiamento artístico porque sabem que o samba, o carnaval e a arte suburbana são ferramentas pedagógicas de conscientização e denúncia das desigualdades sociais que afeta a minoria majoritária da população.
- A Liberdade Artística é Inseparável da Democracia: Votar com consciência exige defender a autonomia dos criadores culturais contra qualquer tutela moralista, chantagem financeira ou repressão estatal. Garantir o voto consciente do povo preto é assegurar a sobrevivência da própria democracia brasileira.
Como políticas públicas e discursos de autoridades podem proteger ou dificultar as religiões de matriz africana, inclusive em festas e ocupações culturais do espaço público?
O discurso de quem governa autoriza ou constrange. Quando uma autoridade trata o terreiro como ‘coisa do mal’, o recado chega na ponta: na pedra no portão, no ataque nas redes, na oferenda chutada na praia. Eu jogo moedas para Exu antes de todo desfile. Para mim, isso é tão natural quanto respirar. Mas sei que, para muita gente, ainda é motivo de medo de se mostrar. Políticas públicas protegem quando garantem coisas concretas: a festa de Iemanjá na areia, o terreiro reconhecido como patrimônio, o crime de racismo religioso investigado de verdade, a história africana ensinada na escola, como manda a lei. Na Mangueira, venho colocando essa fé no centro da avenida: a religiosidade banto, os benzimentos e os saberes de Mestre Sacaca, e agora Oyá, senhora dos ventos e das transformações, que conduz nosso desfile de 2027. Levar um orixá para a Sapucaí é dizer que essa fé é parte do Brasil, e não está à margem dele.
Natural da Zona Norte de São Paulo, Sidnei França construiu sua trajetória nas escolas de samba, unindo pesquisa histórica, criação artística e valorização das manifestações populares. Seu trabalho investiga especialmente a memória, a ancestralidade, a diáspora africana e as contribuições da população negra para a formação cultural brasileira. À frente da Mangueira, desenvolveu enredos dedicados à influência da cultura bantu na formação da sociabilidade carioca, às memórias ancestrais presentes na identidade da Amazônia Negra e ao fundamento afro-religioso de Oyá, presente na ideia da força feminina, reafirmando o Carnaval como espaço de produção de conhecimento, preservação da memória e resistência cultural.
