Em setembro de 2023, Rick Azevedo era um balconista de farmácia de 29 anos, nascido em Dianópolis, no Tocantins, morador do Rio de Janeiro havia uma década, sem filho, sem marido, sem casa para cuidar, e mesmo assim sem tempo. Foi dessa contradição que nasceu um vídeo no TikTok que ninguém esperava que chegasse onde chegou.
https://vt.tiktok.com/ZSxbNGjxJ
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“Quando é que nós da classe trabalhadora iremos fazer uma revolução nesse país relacionada à escala 6×1? Gente, é uma escravidão moderna. Moderna não, ultrapassada. Antes fosse moderna”, disse Azevedo para a câmera, revoltado e sem roteiro. No vídeo, ele questionava como alguém sem nenhuma das responsabilidades que a maioria dos trabalhadores carrega já não conseguia encaixar a própria vida nos seis dias de trabalho e um de folga. “Eu que não tenho filho, que não tenho nada, sou sozinho, não dá para fazer as coisas. Imagina quem tem filho, tem marido, tem casa para cuidar”, disse. “A pessoa tem que se doar para a empresa seis dias na semana e ter só um dia para folgar. E isso para ganhar salário mínimo. Gente, não dá.”
O vídeo viralizou em poucas horas e transformou um desabafo individual em pauta coletiva. Com o interesse crescendo nas redes, Azevedo passou a publicar mais conteúdo sobre o tema e, junto com outros trabalhadores, fundou o Movimento Vida Além do Trabalho, o VAT. Uma petição pelo fim da escala 6×1 ultrapassou 3 milhões de assinaturas. O que começou num vídeo gravado por um jovem indignado havia se tornado o maior debate trabalhista do país em décadas.
Da farmácia à política
A trajetória de Rick Azevedo até o vídeo que mudou sua vida não foi linear. Segundo o UOL, ele trabalhou como auxiliar de serviços gerais, vendedor, frentista e balconista de farmácia ao longo dos anos no Rio de Janeiro. Chegou a se matricular em três faculdades, Enfermagem, Marketing e Jornalismo, mas não concluiu nenhuma delas. O motivo, segundo ele mesmo, era falta de tempo, o mesmo argumento que o levou a gravar o vídeo.
Com a repercussão do movimento VAT, Azevedo entrou para a política. Em outubro de 2024, um ano depois do vídeo, foi eleito vereador pelo PSOL no Rio de Janeiro com 29.364 votos, a votação mais expressiva do partido na cidade, segundo o UOL. Assumiu a presidência da Comissão do Trabalho e Emprego da Câmara Municipal e seguiu pautando a redução da jornada de trabalho a partir do mandato.
Em fevereiro deste ano, em entrevista à BBC News Brasil, Azevedo refletiu sobre o caminho percorrido. “Quando eu comecei lá atrás, como um balconista de farmácia que só queria desabafar, nos primeiros momentos, achei que realmente não iria avançar a ponto de a gente chegar até aqui”, disse.
Do movimento à Constituição
A pauta do VAT chegou ao Congresso Nacional quando a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) decidiu transformá-la em proposta legislativa. Em novembro de 2024, Hilton apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição inspirada nas reivindicações do movimento, com texto inicial mais ambicioso que o aprovado: previa jornada semanal de 36 horas e modelo de quatro dias de trabalho. Em poucas semanas, segundo a BBC News Brasil, a proposta superou o número mínimo de assinaturas necessárias para tramitar, reunindo apoios de parlamentares de centro e da direita. “Essa não é uma discussão de campo ideológico, mas de país”, afirmou Hilton à época.
O empresariado reageu. A Confederação Nacional da Indústria calculou uma perda de R$ 76 bilhões no PIB brasileiro com a redução da jornada, e a Confederação Nacional do Comércio estimou que os custos sobre a folha salarial subiriam 21%. O CEO da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias, Sérgio Mena, afirmou à BBC News Brasil que a proposta era “populista” e inviabilizaria negócios do setor. “É um problema bem sério para o varejo e eu não sei como fechar essa conta”, disse.
Azevedo rebateu as críticas com um argumento histórico. “Se eu estivesse falando para você aqui agora, ‘vamos acabar com a escravidão no país’, os economistas de hoje iriam falar a mesma coisa: que o país não tem estrutura para acabar com a escravidão, que o país ia quebrar. O 13º salário, a mesma coisa. Férias remuneradas, a mesma coisa. Licença maternidade também”, disse à BBC News Brasil.
O governo Lula entrou na disputa com cautela. O presidente evitou assumir protagonismo nos primeiros meses, o que gerou críticas do próprio Azevedo. “O governo já deveria ter se posicionado de forma incisiva”, disse em entrevista ao UOL em março de 2025. A virada veio no 1º de Maio de 2025, quando Lula sinalizou apoio público à pauta pela primeira vez. “Está na hora do Brasil dar esse passo”, disse em pronunciamento na televisão, segundo a BBC News Brasil.
Na noite de quarta-feira (27), a Câmara dos Deputados aprovou em dois turnos a PEC que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas e extingue a escala 6×1, com 461 votos a favor e 19 contra no segundo turno. O texto segue para o Senado Federal, onde ainda enfrenta resistências. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não manifestou compromisso em aprovar a mudança nos mesmos termos, segundo a BBC News Brasil, e qualquer alteração no texto retornaria a proposta à Câmara.
O balconista de farmácia que gravou um vídeo revoltado num quarto do Rio de Janeiro, sem imaginar onde aquilo ia chegar, agora é vereador, fundador de um movimento com milhões de apoiadores e um dos protagonistas da maior alteração constitucional em direitos trabalhistas desde 1988. “Quando eu comecei lá atrás, achei que realmente não iria avançar a ponto de a gente chegar até aqui”, disse à BBC News Brasil.
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