Mundo Negro

O que salvou meu avô não foi o meu diploma

Foto: Divulgação


O primeiro grande médico da história era um homem negro e viveu 2650 anos antes de Cristo. O meu avô quase não chegou ao diagnóstico por falta de dez linhas organizadas num papel. Este texto é sobre as duas coisas.

Por Dr. Lucas Diniz

O futuro está sempre começando agora.

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Já se imaginou, negro e negra, que está lendo agora, você já se imaginou com abundância, riqueza, a ponto de transbordar seus tesouros? Pois bem, leia em voz alta: seu maior tesouro é sua saúde, e assim como tudo que tem muito valor, você precisa cuidar muito bem dela, assim como os antigos faraós guardavam suas relíquias nas pirâmides.

Aliás, ali por volta de 2650 antes de Cristo já existia um grande médico, Imhotep, que também era cientista, arquiteto e astrônomo, e que foi vizir, aquele que carrega um grande peso. Já imaginam a cor do médico que vivia na antiga cidade de Mênfis no Egito, correto? Porém a maioria conhece o outro colega, o grego Asclépio, aquele do bastão com a serpente que está na porta de cada hospital deste país e que veio quase dois mil anos depois. Não conto isso para alimentar raiva em ninguém, conto porque memória também é patrimônio.

Imagem gerada por IA

Agora deixa eu contar uma história da minha própria casa, e começo por um “causo de ignorância”, como disse o meu patriarca quando fui pedir a ele autorização para escrever isto aqui.

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Meu avô é um senhor negro de mais de 80 anos. Durante muitos anos ele fez apenas o exame de sangue do PSA, sem nunca passar por um urologista e sem nunca ter feito o exame de toque. Certo dia eu estava olhando os exames dele e vi que aquele número estava muito alto. Tive a sorte de ter dois dos meus melhores amigos urologistas a um WhatsApp de distância, mandei para os dois, e os dois responderam a mesma coisa, que estava alto demais e ele precisava de avaliação médica. Veio então a resistência, que é a resistência de tantos homens da geração dele: a preocupação com o bichinho se espalhar, o medo do exame de toque, a ansiedade de ouvir a palavra câncer. Mas ele foi, passou pela consulta de verdade, foi investigado como manda o protocolo, e há dois anos recebeu o diagnóstico de câncer de próstata. Hoje ele está tratado. “Que sirva de bom exemplo para outras pessoas”, me disse ele.

E aqui eu preciso ser bem claro, porque esse medo é comum, é antigo e ele é falso. Nem o exame de toque nem a biópsia espalham câncer. O que espalha é o tempo que se perde sem diagnóstico.

Se não fosse aquele WhatsApp e aqueles dois amigos, anjos na terra, talvez ele nunca tivesse chegado ao diagnóstico a tempo.

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E tem uma coisa nessa história que eu preciso que você guarde, porque ela é sobre o seu corpo. Um estudo publicado em 2023 na revista Cancer, da Sociedade Americana de Câncer, acompanhou mais de 75 mil homens negros e mais de 207 mil homens brancos, e no mesmo PSA de 4 o homem negro teve 49% de chance de ter câncer confirmado na biópsia contra 39% do homem branco. Os autores calcularam a equivalência e chegaram nisto: um homem negro com PSA de 4 corre o mesmo risco de um homem branco com PSA de 13,4. Quer dizer que aquele número que parecia apenas alto no papel do meu avô já era gravíssimo para ele havia muito tempo.

E o Brasil, onde está nessa conta? O INCA estima quase 72 mil novos casos de câncer de próstata a cada ano do triênio de 2023 a 2025, e em 2020 morreram 15.841 homens da doença, algo em torno de quinze mortes para cada cem mil. Agora repare no que não existe. A própria Revista Brasileira de Cancerologia, que é do INCA, reconhece a escassez de publicação científica brasileira sobre as causas da desigualdade de acesso à saúde. Nós somos mais da metade da população deste país e a nossa desigualdade em câncer de próstata continua sendo estudada com dado de veterano americano.

E o ponto que interessa a você é este. Você pode não ser médico e pode não ter dois amigos urologistas no celular, mas você pode fazer exatamente o que eu fiz antes de mandar a mensagem, que foi juntar informações que estavam soltas, espalhadas em papéis de anos diferentes, e olhar para todas elas juntas. O que salvou o meu avô não foi o meu diploma, foi ter organizado o que já existia e levado a alguém que sabia ler.

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Como gosto muito de partilhar conhecimento, assim como Imhotep, vamos ao exercício.

Faça pela manhã, assim que acordar, com atenção. Abra qualquer inteligência artificial gratuita e escreva, linha por linha:

MEU TESOURO DE SAÚDE NEGRA

  1. minha altura e meu peso
  2. minha circunferência abdominal, medida com fita na altura do umbigo
  3. se eu fumo e há quanto tempo
  4. se eu bebo, quanto e com que frequência
  5. se faço atividade física, qual e quantas vezes por semana
  6. os remédios que tomo
  7. as doenças que tenho
  8. as doenças do meu pai, da minha mãe e dos meus avós
  9. a cidade e o bairro onde moro
  10. minhas alergias e as cirurgias que já fiz

E ao final você escreve assim: “organize essas informações em uma lista clara e objetiva e me ajude a preparar as perguntas que eu devo fazer ao meu médico na próxima consulta.”

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Repare muito bem no que você está pedindo, porque isso importa mais do que tudo que está escrito aqui. Você não está pedindo diagnóstico, e nenhuma inteligência artificial pode te dar diagnóstico. Você está pedindo organização, que é o que eu fiz com os exames do meu avô antes de mandar para os meus amigos.

Três recados de médico antes de você sair correndo. Isso não substitui consulta nenhuma, porque o que você tem em mãos é um mapa, e mapa nenhum opera ninguém. Não escreva seu nome completo, CPF ou documento nessa conversa, porque tesouro a gente guarda. E leve essa lista impressa na próxima consulta, seja no SUS, na clínica popular, no convênio ou no particular, porque quem chega com dez linhas organizadas na mão transforma quinze minutos de consulta em meia hora.

Primeiro o diagnóstico, depois o tratamento e se possível, sempre a prevenção.

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Há também o risco de tudo isso ser repetido em código, e ele tem cor. A pesquisadora Joy Buolamwini, do MIT, demonstrou em “Unmasking AI” que sistemas de análise facial erram muito mais em rostos negros porque foram treinados quase sem eles, e é Frantz Fanon, de “Pele negra, máscaras brancas”, reencarnado em linha de programação. Na saúde isso já custou vida. Um algoritmo que priorizava o cuidado de mais de 200 milhões de pessoas nos Estados Unidos media necessidade pelo gasto anterior do paciente, e como o paciente negro gasta menos porque acessa menos, o sistema concluiu que ele adoecia menos. Corrigido o viés, a proporção de negros que deveriam receber cuidado intensivo saltou de 17,7% para 46,5%. O código apenas herdou a nossa desigualdade e passou a chamá-la de estatística.

Você que está acostumado a ver risco como medo, passe a ler risco como oportunidade de agir. E digo isso também para quem lê esta coluna de uma cadeira de diretoria, de uma secretaria de saúde ou de um fundo de investimento. Um estudo do IDC divulgado em junho deste ano mostra que 90% dos executivos brasileiros já apontam a inteligência artificial como o diferencial-chave do seu setor, e que a fatia do orçamento de tecnologia destinada a ela sai de 28% hoje para 45% até 2028. Esse dinheiro será gasto de qualquer maneira, e a única pergunta que segue em aberto é sobre quais rostos esses sistemas serão treinados. O buraco que o próprio INCA aponta é a oportunidade. Nós temos a população, temos os hospitais-escola, temos os pesquisadores, e falta somente a decisão de construir o dado que ainda não existe.

Da fórmula da vida eterna às curas de Imhotep e ao bastão de Asclépio, hoje temos ferramentas que há dez, vinte anos chamariam de magia negra. Hoje ela é a realidade negra. Para além da Black Box, hoje falamos da perspectiva do negro, no mundo negro.

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Escrevo do negro para o negro.

Então faça três coisas antes de fechar esta página. Amanhã de manhã escreva o seu TESOURO DE SAÚDE NEGRA. Depois marque a consulta e leve a sua lista impressa, porque tempo é vida. E por último compartilhe, com pretos e brancos, com pardos, amarelos e indígenas, porque diferentemente do que pregam, uma vela não perde nada ao compartilhar sua chama com outra vela.

A partir de hoje falaremos mais sobre tempo, saúde e tecnologia, de uma perspectiva positiva.

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O meu avô teve a sorte de ter um neto médico olhando os papéis dele. O seu avô tem você.

Sejam médicos, sejam mágicos, sejam fodas.

* Eu sou Dr. Lucas Diniz, cirurgião plástico facial pela USP, CRM-SP 194459, RQE 111712, pesquisador de Inteligência Artificial para Cirurgias Craniofaciais da perspectiva da população negra.

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Texto de caráter informativo e educativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. História pessoal publicada com autorização do familiar citado.

Fontes

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