Conheça as Yabás, orixás femininas do candomblé, e descubra o que cada uma ensina sobre dinheiro, luto, amizade e autoridade na vida da mulher negra.
A tradição iorubá reúne mais de quatrocentas divindades, transmitidas de geração em geração por meio de itans, mas apenas um número reduzido delas atravessou o Atlântico com a população negra escravizada e se firmou nos terreiros brasileiros. Desse recorte, dezesseis orixás formam o conjunto mais cultuado no país, e seis deles são femininos, Oxum, Iemanjá, Iansã, Obá, Nanã e Ewá, chamadas de Yabás. Os outros dez são Exu, Oxalá, Ogum, Oxóssi, Oxumarê, Xangô, Omolu, Logunedé, Ossain e Ibeji. Os itans de cada Yabá, quando lidos além da superfície, mostram ensinamentos sobre administração de bens, resolução de conflitos, relação com a morte e exercício da autoridade, temas que a leitura popular costuma reduzir a vaidade e delicadeza. Duas outras forças femininas, Ajé e Iyami, embora fora dessa lista fechada de dezesseis, seguem amplamente cultuadas em terreiros de todo o país e ajudam a completar esse retrato.
Notícias Relacionadas

O termo iorubá que designa as divindades femininas do candomblé, iabá ou iyabá, se contrapõe a aborô, categoria reservada aos orixás masculinos. Essa divisão não é meramente linguística. Nos terreiros de nação Ketu e Ijexá, a organização familiar costuma seguir uma lógica matrifocal, e são as mães de santo, não os pais de santo, quem historicamente concentram a maior autoridade religiosa em boa parte das casas mais tradicionais do país. O pesquisador e babalorixá José Flávio Pessoa de Barros, fundador do Ilé Asé Omí Iwí Odara e filho da iyalorixá Nitinha de Oxum, dedicou parte de sua obra a documentar essa estrutura, assim como o etnógrafo Pierre Verger, que passou décadas registrando itans nas duas margens do Atlântico. Para essa linhagem de estudiosos, entender uma Yabá exige separar o itan do estereótipo, e cada relato sagrado carrega camadas de sentido que os próprios terreiros preservam por oralidade, geração após geração.
Oxum, a estrategista das águas doces
Oxum ensina, antes de qualquer coisa, a administrar recursos, informação e alianças, ofício que a leitura popular reduz a espelho, ouro e vaidade. O itan que narra seu aprendizado ao lado de Iansã, quando ela adquire a qualidade guerreira conhecida como Oxum Opará e passa a acompanhar a companheira nos fundamentos ligados aos eguns, mostra que essa gestão de bens nunca dispensou preparo para o enfrentamento direto. Já o itan em que ela orienta Obá a cozinhar um prato especial para Xangô, episódio que termina com Obá cortando a própria orelha, revela outra camada da mesma lição, a de que quem administra recursos também administra informação, e nem sempre com boa fé. Aplicada à vida de mulheres negras hoje, essa dupla natureza de Oxum aponta para uma gestão financeira e profissional que exige tanto articulação quanto vigilância, competências historicamente negadas a essas mulheres e hoje reivindicadas como herança espiritual.
Iemanjá, autoridade sobre a multidão
Iemanjá ensina a exercer liderança sobre grupos numerosos, não apenas afeto individual, distinção que a iconografia comercial apaga ao reduzi-la a mãe silenciosa dos mares. Os itans que a descrevem como responsável por uma extensa descendência de orixás mostram uma matriarca que arbitra disputas entre filhos já adultos, distribui autoridade entre eles e segue reconhecida como referência mesmo quando esses filhos formam seus próprios domínios. Essa dimensão de gestão coletiva, mais próxima da administração de uma grande rede familiar do que da maternidade contida e discreta, aproxima Iemanjá do papel que hoje cumprem mulheres negras à frente de arranjos familiares extensos, redes de apoio comunitário e organizações de base, papel que exige arbitragem constante e raramente é lido como exercício de poder.
Iansã, a que negocia com a morte
Iansã ensina a atravessar perdas sem se fixar no medo, e a condição para esse aprendizado aparece no próprio desenho de seus itans, que a mostram adquirindo, uma a uma, habilidades com diferentes orixás masculinos, a lida com o ferro junto de Ogum, a arte da caça junto de Oxóssi, o domínio do vento junto de Iroko, até reunir autonomia suficiente para se tornar, ao lado de Obaluaiê, a única orixá autorizada a conduzir os eguns, os espíritos dos mortos. Essa trajetória de acúmulo, lida ao lado da recusa de Iansã em permanecer parada durante os rituais, algo que zeladores de santo costumam cobrar quando corrigem terreiros que a tratam como figura decorativa, ensina que atravessar o fim de um ciclo exige movimento contínuo, não resignação. Para mulheres negras que enfrentam luto, demissão, ruptura ou qualquer forma de encerramento, o itan de Iansã oferece um modelo raro, o de quem negocia diretamente com aquilo que a maior parte das culturas prefere evitar.
Obá, a arquiteta de espaços só de mulheres
Obá ensina a reconhecer conselhos que não vêm de boa fé e a reconstruir autoridade depois de uma derrota pública, lição que o itan mais difundido sobre ela costuma obscurecer ao reduzi-la ao episódio em que corta a própria orelha, enganada por Oxum, para agradar Xangô. O mesmo itan, lido com atenção, mostra Obá se retirando para as águas do rio que leva seu nome depois da humilhação, não para desaparecer, mas para se transformar em uma força renovada, capaz de dominar corredeiras e enchentes. Outro itan, menos repetido, apresenta Obá como fundadora e senhora da sociedade Elecô, espaço ritual restrito a mulheres dedicado ao culto da ancestralidade feminina, dado que desloca sua história do ciúme individual para a construção coletiva de autoridade. As duas camadas, a da dor transformada e a da liderança institucional, ensinam que reconstruir credibilidade depois de um erro ou de uma armadilha alheia é possível, e passa por criar espaços próprios de sustentação.
Nanã, o tempo que não se apressa
Nanã ensina que a autoridade se acumula com o tempo, não com a pressa, princípio presente no próprio lugar que ela ocupa entre as Yabás, a de mais antiga, cuja idade avançada não diminui seu poder e, ao contrário, sustenta a hierarquia inteira do panteão, já que orixás mais jovens a tratam com deferência. O itan que a credita como fornecedora do barro usado por Oxalá para moldar os primeiros corpos humanos posiciona Nanã na origem de tudo o que existe, e o mesmo itan que trata a morte como retorno a esse barro a coloca também no fim de cada ciclo, tratando nascimento e morte como partes de um mesmo movimento, não como opostos. Em uma sociedade que costuma descartar mulheres mais velhas, Nanã oferece o modelo inverso, o da mulher negra idosa como guardiã de memória e não como figura ultrapassada, autoridade que se conquista justamente por não agir por impulso.
Ewá, a senhora do que não se explica
Ewá ensina discernimento e o direito de proteger o que permanece intocado, lição que se perdeu por décadas sob uma leitura equivocada de seu itan de iniciação, que exigiria virgindade física das mulheres feitas para ela. Estudiosos da língua iorubá contestam essa leitura, apontando que o termo associado a Ewá remete à ideia de pureza de julgamento e proteção, não à anatomia, e que a confusão nasceu de uma tradução mal ajustada. O próprio erro, sustentado por tanto tempo dentro dos terreiros, funciona como itan em si, o de como leituras coloniais e patriarcais se infiltram na interpretação de tradições africanas, deslocando sentido simbólico para controle sobre o corpo feminino. Ewá, menos conhecida no Brasil e associada à mata fechada, à neblina e ao segredo, ensina hoje a estabelecer fronteiras pessoais e a decidir por si mesma o que permanece reservado, temas que dialogam diretamente com debates atuais sobre autonomia e consentimento.
Ajé, a riqueza que se guarda em segredo
Ajé ensina que prosperidade não exige ostentação, lição construída ao longo do itan em que ela segue Olokun, seu pai e senhor das profundezas do oceano, disfarçada na espuma das ondas, aprendendo a observar sem se expor. Filha caçula de Olokun e irmã mais nova de Iemanjá, Ajé descobre nesse mesmo itan que todo segredo carrega também um risco, quando o brilho que ela guarda para si acaba revelando sua presença. O culto a essa orixá é raro no Brasil hoje, mais preservado em terreiros cubanos, mas vem sendo lentamente reconstruído em algumas casas de candomblé, e sua presença amplia a leitura sobre riqueza dentro da mulheridade negra, associando prosperidade à administração discreta e paciente do que se conquista, não à visibilidade constante.
Iyami, o poder que antecede os orixás
Iyami ensina que vida e morte, fertilidade e destruição, são faces de uma mesma força, não polos opostos a serem escolhidos. Iyami Ajé, também chamada Iyami Oxorongá, não é uma orixá individual, mas a sacralização coletiva do poder ancestral feminino, anterior à própria criação dos orixás segundo a tradição iorubá, e seu itan de origem a liga à sociedade Gelede e ao culto das chamadas senhoras dos pássaros da noite. Dentro do candomblé, Iyami mantém relação direta com Oxum, cuja iyalorixá tradicionalmente assume a responsabilidade por esse culto após 21 anos de obrigação fechada, e também com Nanã e com Iroko, conexões que reforçam sua posição como camada mais funda da autoridade feminina. Pesquisadoras da área alertam contra a leitura que equipara Iyami a uma figura de bem e mal, ao estilo de Exu, e insistem que seu significado original está ligado à fertilidade, à vida e à morte tratadas como uma mesma continuidade, ensinamento que devolve à mulher negra mais velha e à ancestral o lugar de origem, não de margem.
O calendário do candomblé reserva a este mês de julho duas datas de peso para essas divindades. Terreiros de diferentes nações celebram Iansã ao lado de Xangô ao longo do mês, e no dia 26 de julho é a vez de Nanã receber suas homenagens como a mais velha do panteão. Mundo Negro segue a programação do Julho das Pretas com novos conteúdos sobre a presença das Yabás na formação da mulheridade negra brasileira.
Notícias Recentes
