Mundo Negro

O lendário torcedor do rd Congo que permanece imóvel até o apito final

Foto: Chris Milosi/Anadolu via Getty Images

Congolês de 49 anos permanece imóvel 90 minutos nos jogos da RD Congo em homenagem a Patrice Lumumba. Conheça o símbolo da Copa do Mundo 2026.

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Michel Kuka Mboladinga, congolês de 49 anos conhecido pelo apelido “Lumumba Vea”, tornou-se o rosto mais reconhecido da torcida da República Democrática do Congo ao adotar um ritual que pratica desde 2013 e que ganhou o mundo durante a Copa Africana de Nações realizada no Marrocos entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026: permanecer completamente imóvel durante os 90 minutos de cada partida dos Leopardos, de pé sobre uma pequena plataforma, com o braço direito erguido em direção ao céu, reproduzindo a postura da estátua de Patrice Lumumba erguida em Kinshasa, capital congolesa.

O gesto tem origem deliberada e carrega peso político preciso. Patrice Lumumba foi o principal líder da independência da República Democrática do Congo, assassinado em 1961, e Mboladinga reproduz a postura da estátua erguida em sua homenagem na capital Kinshasa. O apelido “Lumumba Vea”, atribuído pelos próprios torcedores congoleses, significa “Lumumba vive” na língua local, e sintetiza a intenção declarada do torcedor de manter a memória do líder presente nos estádios. Em entrevista ao Wall Street Journal, Mboladinga afirmou que treina entre 40 e 50 minutos antes de cada partida para suportar o esforço físico de permanecer imóvel durante todo o jogo, e explicou que fica parado porque acredita que isso dá resistência emocional ao time.

Foto:  Arsene Mpiana/AFP/Getty Images

Da Copa Africana à delegação oficial

Durante a Copa Africana de Nações de 2025, disputada no Marrocos, Mboladinga se tornou um fenômeno que extrapolou o futebol e passou a ser discutido como um acontecimento cultural. Sua imagem circulou por jornais europeus, africanos e sul-americanos, e seu nome passou a ser pesquisado por torcedores que nunca tinham acompanhado uma partida da RD Congo. Vestido com ternos nas cores azul, vermelho e amarelo da bandeira congolesa, ele repetiu o ritual em cada partida da fase de grupos, contra Senegal e Botswana, tornando-se presença constante nas transmissões televisivas do torneio.

A trajetória na competição africana encerrou com a eliminação para a Argélia por um gol de Adil Boulbina aos 119 minutos, e a reação de Mboladinga repercutiu tanto quanto sua imobilidade durante os jogos. Com o apelido Lumumba Vea consolidado, o torcedor retirou os óculos, enxugou as lágrimas e caiu de volta à multidão ao redor no momento em que o árbitro encerrou a partida. O jogador argelino Mohamed Amoura correu até a arquibancada congolesa e imitou a pose de Mboladinga antes de cair no chão em comemoração, gesto que gerou críticas generalizadas nas redes sociais. Amoura publicou posteriormente um pedido de desculpas afirmando que não tinha conhecimento do significado e da história por trás do gesto, e declarou que pretendia apenas provocar de forma brincalhona, sem má intenção.

A repercussão da Copa Africana converteu Mboladinga em figura reconhecida pela própria federação nacional. Jogadores e comissionados da RD Congo defenderam sua inclusão na delegação oficial para a Copa do Mundo, e a presidente da federação, Véron Mosengo-Omba, afirmou que os jogadores da seleção o consideram um símbolo nacional de resiliência e orgulho. A decisão de incluí-lo na comitiva foi aprovada com respaldo do próprio presidente da República, Felix Tshisekedi, transformando o que seria uma presença informal nas arquibancadas em participação oficial no maior torneio de futebol do planeta.

O obstáculo burocrático e os próximos jogos

A chegada de Mboladinga aos Estados Unidos esbarrou em um obstáculo que mobilizou autoridades congolesas e gerou cobertura internacional. A ausência do torcedor ganhou particular relevância no Congo, ao ponto de o caso ter mobilizado várias entidades e merecido atenção especial das autoridades do país, mas os atrasos relacionados com a autorização de entrada impediram sua integração imediata à comitiva. O resultado é a ausência nas arquibancadas do NRG Stadium, em Houston, onde a RD Congo enfrenta Portugal nesta quarta-feira (17), às 14h, pelo Grupo K da Copa do Mundo.

Mboladinga deve se juntar à delegação nos próximos dias e acompanhar os dois jogos restantes da fase de grupos: contra a Colômbia, no dia 24, no Estádio Akron, em Guadalajara, e depois contra o Uzbequistão. A RD Congo disputa o Mundial pela primeira vez desde 1974, quando o país ainda se chamava Zaire, e a presença de um torcedor na delegação oficial, com custos cobertos pela federação, é uma raridade no futebol internacional que evidencia o quanto Mboladinga deixou de ser apenas um torcedor para se tornar parte reconhecida da identidade do time.

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