Mundo Negro

O canto de Clementina desperta a África que existe em nós

Foto: Lewy Moraes/Folhapress

Texto: Ricardo Correa

Tava durumindo cangoma me chamou

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Tava durumindo cangoma me chamou

Disse levanta povo o cativeiro já acabou

                                                                                  − Clementina de Jesus, 1966

Lembro do meu pai colocando a  vitrola e as caixas de som na garagem de casa para tocar os discos da sua coleção de samba. Eu era uma criança. Esse ritual acontecia todos os finais de semana, e acredito que isso influenciou no meu gosto musical; “samba das antigas” é uma das minhas paixões. Em casa rolava Cartola, Pixinguinha, Noel Rosa, Aracy de Almeida, Martinho da Vila, Noite Ilustrada, Mestre Marçal, Dona Ivone Lara, Beth Carvalho, Candeia, Paulinho da Viola, Velha Guarda da Portela, Aniceto do Império, entre muitos outros, mas confesso que havia uma voz que se destacava no meio desses grandes artistas. Algo inexplicável, e quem a ouvia pela primeira vez  até sentia certo estranhamento. Clementina de Jesus, também conhecida como Rainha Quelé, era a dona dessa voz, caracterizada pela africanidade, rouca e grave, que nos transportava aos cantos das senzalas, ao trabalho escravizado nas fazendas, às lamúrias resultantes dos grilhões e açoites, mas também inspirava resistência, remetendo à fuga dos rebelados pelas matas, a sobrevivência nos quilombos, a religiosidade africana, a capoeira, e ao sentimento de pertencimento à cultura africana.

Rainha Quelé nasceu em 07 de fevereiro de 1901, no município de Valença, Rio de Janeiro.  Desde criança recebeu diversas influências que forjaram a sua maneira de manifestação artística – do canto a estética. Amélia de Jesus dos Santos, mãe de Clementina de Jesus, nasceu no período da escravidão, no entanto, foi libertada por causa da Lei do Ventre Livre (1871). Era parteira, e costumava entoar cantos africanos enquanto lavava roupas. O pai, Paulo Batista dos Santos, trabalhava como pedreiro, porém, era conhecido como violeiro e capoeirista; na região em que moravam havia um povoamento de negros bantus e jongueiros. Lembremos que a Abolição da Escravatura (1888) era algo recente, portanto, a África pulsava nas ruas e vielas, nos bares e casas noturnas, nas comunidades e quilombos, em todos os lugares que transitava e sobrevivia o povo negro. 

Clementina e seus pais se mudaram para Jacarepaguá, e, depois, para Oswaldo Cruz, onde a artista acabou passando a adolescência. Nesta fase da vida frequentou blocos, escolas e rodas de samba, cantou em coral, sempre chamando a atenção com o seu talento impar; o contato com os mestres das escolas de samba a ajudou a ganhar um pouco mais de visibilidade. Em 1938, ela se casou com Albino Correia da Silva, o Pé Grande, e foi morar no morro da Mangueira.

Antes de se tornar conhecida nacionalmente, trabalhou por muitos anos como lavadeira e empregada doméstica. No documentário Clementina de Jesus – Rainha Quelé (2011), há um trecho em que a artista comenta que a patroa num tom de desaprovação a questionou “Clementina, estás cantando ou estás miando?”. Ela respondeu prontamente “Estou miando”. Tal como a sua mãe, ela entoava canções durante as atividades profissionais, ou seja, a África ecoava dentro da casa dos brancos.  Obviamente eles odiavam.

A carreira de Clementina de Jesus só começou a decolar depois dos seus 60 anos de idade, e foi através de Hermínio Bello de Carvalho, produtor e compositor, que a conheceu numa festa no bairro da Glória. Ele a convidou para participar do musical Rosa de ouro junto com outros artistas consagrados, e todos se encantaram com a musicalidade de Clementina. Ela até viajou para o exterior representando o Brasil em festivais. Rainha Quelé registrou treze discos na carreira, entre solos e participações com outros artistas. No repertório havia vissungos, jongos, samba, partido-alto, músicas folclóricas etc. 

Rainha Quelé faleceu em 1987, Inhaúma, Rio de Janeiro. Sem sombra de dúvida, celebrar a sua memória é tonificar a nossa existência. E, parafraseando o pan-africanista Kwame Nkrumah (1909-1972), mesmo que não tenhamos nascido em África, o continente nasceu dentro de nós. Escutemos Clementina de Jesus! 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CASTRO, Felipe; Janaina Marquesini, Luana Costa e Raquel Munhoz. Quelé, a voz da cor: biografia de Clementina de Jesus. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.

PORTAL MUSEU AFRO BRASIL. Clementina de Jesus. 

Disponível em: <http://www.museuafrobrasil.org.br/pesquisa/hist%C3%B3ria-e-mem%C3%B3ria/historia-e-memoria/2014/07/17/clementina-de-jesus>. Acesso em: 06 fev. 2023

SANTOS, Joel Rufino dos. Zumbi. São Paulo: Ed. Moderna, 1985

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